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Natal, 12 de Fevereiro de 2012 | Atualizado às 00:51

Pequenos com jeito de gente grande

Publicação: 11 de Outubro de 2009 às 00:00
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Alex RégisA escola hoje funciona como a segunda casa das criançasA escola hoje funciona como a segunda casa das crianças
Priscila Castro
- repórter

A pedagogia avalia que todas as pessoas até os 12 anos de idade são ainda consideradas crianças. No entanto, no dias de hoje é mais comum acreditar que a partir dos oito anos, as vontades, gostos e desejos dos pequenos já começam a se transformar. Neste 12 de outubro, dia da criança, os carrinhos e bonecas estão perdendo lugar para estojos de maquiagem e roupas da moda. Seja por influência dos pais, dos amigos de escola ou da tecnologia da informação, o fato é que muitas crianças deixam de aproveitar uma das melhores fases da vida.

Em substituição às atividades da infância, a prática de esportes e lazer são os principais atrativos para a meninada de hoje em dia. Muitos preferem seguir as tendências e estar bem arrumados, a manter a tradição de "se sujar brincando". A pequena Luísa Cortês, 10, é uma das crianças que não vê a hora de crescer. No quarto da menina ainda existem algumas bonecas e ursos de pelúcia guardados dentro do baú da cama, mas ela não troca uma boa maquiagem e salto alto pelos brinquedos velhos. Como presente de dia das crianças, Luísa pediu um aparelho de mp4. A intenção, é claro, é estar na moda.

Ela sabe que a escola é lugar para estudar e fazer esportes, mas nas horas vagas, o passatempo preferido fica por conta da televisão, do computador e do Shopping. Na TV, o programa preferido é a novela "Malhação", que trata a vida de adolescente numa escola de classe média. É de lá que Luísa tira muitas de suas vontades. "Eu fico com vontade de fazer o que eles (personagens) fazem, ir para as festas, imitar as roupas, o cabelo", contou a menina. No Shopping, além do privilégio de "sair sozinha com as amigas para o cinema", Luísa aproveita para mostrar a paixão pelas roupas. Apesar de ter um estilo próprio, ela adora tirar fotos com os novos modelitos que chegam às lojas.

A mãe, Télia Cortês, conta que se não fosse pelos limites impostos pela família, a menina só sairia de casa bem arrumada e maquiada. "Eu tento dar uma freada nas  vontades dela, porque ela quer sempre sair vestida como uma mulher mais velha, ir para a escola cheia de maquiagem. Quando ela pede, eu passo um lápis no olho, mas só. Eu acho que tem hora para tudo".

Mas Luísa não é a única. As amigas Vanessa Medeiros (8), Isabela Leite (9) e Evellyn Beatriz (11) não abandonaram o elástico, a corda e o bambolê, mas não querem mais saber das bonecas. "As minhas estão todas guardadas no quarto da minha mãe, eu não vejo mais graça de brincar com elas. Prefiro jogar basquete ou vôlei", disse Vanessa. Evellyn confessou a vontade de ir para festas quando vê as primas mais velhas se arrumando.

Apesar de demorarem mais a amadurecer, os meninos não fogem à regra. Pedro Paulo Protásio, de 10 anos, é um dos que não deixa de estar com os amigos para sair com os pais. "Ou ele quer ir sozinho para o Shopping ou quer estar na internet", contou a mãe, Juliana Protásio. O menino é também mais uma constatação de que o esporte vem ganhando cada vez mais o lugar dos brinquedos, já que ele pediu como presente uma  raquete de tênis. "Eu acho que essas mudanças são naturais, as crianças estão mais evoluídas com televisão e internet, mas eu faço questão de ficar observando ", afirmou a mãe.

Segundo a pedagoga Cláudia Santa Rosa, o avanço da tecnologia representa uma influência direta em todo esse processo.

Pais facilitam a troca de fases

Em muitos casos, os próprios pais facilitam a troca de fases dos filhos. Alguns pedem que as crianças pulem o ano escolar por acreditar que ela já está apta para os assuntos da nova série, outros facilitam o acesso a "materiais" de adolescentes (celular, maquiagem) e outros se esquecem de impor limites e ter um pouco de controle sobre as atividades dos filhos.

 Segundo a psicóloga especialista em Gestalt-Terapia Infantil,  Ádria Tabosa, os pais são modelos para os filhos e, por isso, têm papel fundamental nesse processo.  "A criança aprende, inicialmente, pela imitação dos comportamentos dos adultos com quem ela convive e que são referência afetiva para ela. Então cabe ao adulto orientar essas práticas de maneira natural, sem reprimir nem supervalorizar nenhuma delas, mostrando à criança que cada fase tem seu encanto e que chegará o momento em que ela poderá usar aquilo tudo".

A pedagoga Cláudia Santa Rosa explicou que os pais não precisam ficar o dia inteiro ao lado dos filhos se souberem ensinar as coisas certas. "O importante não é aquele pai que pode passar todo o tempo ao lado da criança, mas a qualidade dessa relação. Se a mãe tiver pouco tempo por dia para conversar com o filho, mas fizer bem nesse tempo que estiverem juntos, a relação está indo bem. Há famílias que investem no respeito e no cuidado nessas diferentes fases da vida do filho", acrescentou.

O mesmo vale para os educadores. Como a escola funciona hoje como a segunda casa dos pequenos, é imprescindível que ela também trabalhe no sentido de valorizar cada fase, incentivando brincadeiras e jogos próprios. Mas a psicóloga aconselha que ela seja sempre uma participante ativa nesse processo, escolhendo, selecionando o que faz, quando faz e com quem faz.

E as crianças que não passam por todo o processo de aprendizagem e experiências da infância podem ter problemas lá no futuro. Segundo Ádria Tabosa, cada caso poderá ter desdobramentos diferenciados, mas, de uma maneira geral,  a criança que pula fases poderá chegar na fase adulta sem o amadurecimento necessário. "Essas crianças tendem a se tornar adultos mais infantilizados, com comportamentos que traduzem uma busca da infância que não foi vivida. É um comportamento que normalmente causa dor e angústia já que não se pode retroceder no tempo e resgatar a infância perdida", explicou.


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