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Natal, 24 de Maio de 2012 | Atualizado às 00:39

Pior nota do Enem não desanima alunos

Publicação: 17 de Setembro de 2011 às 00:00
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Andrielle Mendes - especial para Natal

Mariana [nome fictício], oito anos de idade, quer ser médica. "Mas só tiro zero". Não gosta de ir à escola e entende pouco o que a professora diz em sala de aula. Está no 3º ano do ensino fundamental, mas ainda não sabe ler. Quando concluir o ensino fundamental, terá de se matricular na Escola Estadual Vereador João Salviano Sobrinho, único ensino médio de Fernando Pedroza, a 160km de Natal. O que preocupa sua mãe. A João Salviano Sobrinho está entre as 50 escolas com pior desempenho no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) em todo o Brasil. A escola funciona há 23 anos, tem 137 alunos, 19 dos quais deixaram a escola este ano, e 12 professores.

júnior santosA realidade da Escola Estadual Vereador João Salviano Sobrinho não é diferente das centenas de escolas estaduais do RN. Mas a unidade ganhou notoriedade por ter obtido o pior desempenho no Enem 2010 no RNA realidade da Escola Estadual Vereador João Salviano Sobrinho não é diferente das centenas de escolas estaduais do RN. Mas a unidade ganhou notoriedade por ter obtido o pior desempenho no Enem 2010 no RN
"Nosso índice de aprendizagem está lá embaixo por vários fatores. Falta interesse do aluno, a escola não tem sede própria e a família está fora da escola", enumera Joares Minervino da Costa, diretor da João Salviano há quase quatro anos.

Professores, pais e estudantes dão a mesma justificativa. Se não justifica, o perfil dos alunos explica, ao menos em parte, o desempenho baixo no Enem, na avaliação de Joares. Boa parte mora na zona rural, depende do transporte escolar, tem renda familiar baixa, e vai para escola em busca da merenda ou para não perder o Bolsa Família, cortado, caso o aluno falte várias vezes. "Para completar", em 2010, ano em que a avaliação foi realizada, o calendário escolar foi reduzido devido a incidência das chuvas. As férias foram antecipadas em três semanas. "Os alunos da zona rural deixaram de vir", relata o diretor.

Mais antiga que o próprio município - que tem 19 anos - a João Salviano não tem sede própria. Funciona de maneira improvisada no prédio da Escola Estadual Francisca Alves da Silva, que abriga o ensino fundamental. Da João Salviano mesmo, só o letreiro, quatro salas de aula (uma delas transformada em laboratório de informática) e um 'cubículo' usado como Secretaria. Não existe secretária (ou secretário), vice-diretor nem supervisor. Apenas o diretor, que decidiu assumir a escola para não vê-la fechar as portas. "Ninguém queria assumir a gestão".

Durante o dia, o prédio recebe alunos que cursam do 1º ao 9º ano do ensino fundamental.   Durante a noite, recebe estudantes que cursam do 1º ao 3º ano do ensino médio e também do Ensino de Jovens e Adultos (Eja). O prédio possui dois letreiros, motivo de conflito na cidade. Elânia Cristina já foi diretora da João Salviano. Hoje é vice-diretora da Francisca Alves. Ela defende que as duas escolas sejam transformadas em uma. O problema é escolher um dos dois nomes. "João Salviano foi uma pessoa influente. A família dele está há décadas no poder. Francisca Alves, por sua vez, foi uma grande professora". A indefinição prova que o problema da João Salviano começa pelo nome.

Pacto para melhorar desempenho

Nos últimos anos a escola recebeu inúmeras fiscalizações. Controladoria Geral da União, Superintendência do Ensino Fundamental e do Ensino Médio foram algumas das entidades que bateram na porta da escola várias vezes. "Eles fizeram a mesma coisa que vocês. No entanto, também pediram para ver a papelada", diz Joares, se referindo a 'fiscalização' realizada pela equipe de reportagem. No dia anterior a visita da equipe, representantes da Secretaria Estadual de Educação estiveram na escola. "Eles vieram saber porque o índice foi tão baixo.  No entanto, quando olharam a escola, disseram que há bem piores no estado", diz o diretor.

Os alunos, que poderiam reclamar das condições da João Salviano Sobrinho, concordam. Os estudantes Silvia Daniele da Silva, 16, Jonatha Max Nunes, 16, Edilânia Tamires de Farias, 17, Francisco Edvaldo de Andrade Júnior, 19, e Iraniel Silveira da Costa, 19, até fizeram um acordo. Vão se esforçar para melhorar a posição da escola na próxima avaliação nacional. "Está na mão da gente mudar este rendimento", reconhece Silvia Daniele da Silva, 16, que vai fazer vestibular para História e quer trabalhar como professora da João Salviano. Daniele tem toda razão. Está nas mãos de todos eles mudar a realidade da escola onde Mariana, a menina que quer ser médica, estudará daqui a sete anos. A tarefa parece árdua, mas possível. O atual 10º colocado no ranking nacional (que reuniu as escolas com melhor desempenho no Brasil) ocupava a 98ª posição em 2009.

Quadro de professores está completo

A estrutura física do prédio é razoável. Há janelas quebradas e goteiras no telhado. Mas nada que atrapalhe as aulas em dias de sol e noites sem chuva. A última reforma ocorreu ano passado e foi considerada apenas um paliativo. "Pintaram as paredes", resume Joares Minervino, diretor da escola. As goteiras permaneceram. O quadro de professores, por sua vez, está completo - são 12 (seis efetivos e seis temporários) - e as aulas começaram na data certa, de acordo com Joares.

Há alguns anos, a João Salviano contava com apenas quatro professores. Do total, apenas um era efetivo. O problema foi resolvido e os alunos não precisam ir para casa mais cedo.

O prédio também conta com biblioteca, laboratório de ciências e de informática. Dos três, o diretor só não abriu a biblioteca. Estava sem as chaves no momento. Os dois laboratórios funcionam há pouco mais de dois anos e estão em boas condições. Joares diz que os alunos os utilizam com frequência. A informação, porém, não é confirmada pelos alunos. Jonatha Max Nunes, 16 anos, estuda há quase três anos na escola - entrou no 1º ano do ensino médio e hoje cursa o 3º - e nunca pisou no laboratório de ciências. O laboratório de informática, segundo ele, porém, é usado com regularidade.

LABORATÓRIO

Com 23 computadores, boa parte deles de tela plana, e  banda larga, o espaço é usado pelos professores de biologia, inglês, matemática e sociologia. Não há um monitor (alguém que supervisione os estudantes) nem alguém que entenda muito de informática. "Os alunos sabem mais que os professores", diz Elânia, ex-diretora. Para montar o laboratório, direção, professores, pais e alunos realizaram um mutirão. Forraram a sala, compraram mesas e cadeiras. "Tudo com dinheiro próprio", Joares faz questão de ressaltar.

Por pouco a escola não perdeu os computadores. A Secretaria Estadual de Educação, diz Joares, queria levar os computadores para outra escola. A razão? Os computadores permaneceram encaixotados durante cinco anos. Chegaram em 2004 e só foram instalados em 2009. Os kits de ciência também permaneceram encaixotados entre 2004 e 2009. O destino dos kits, no entanto, seria o lixo. Boa parte das substâncias químicas estragou por falta de uso.

Secretária
Alunos sem preparação

A titular da Secretaria de Estado de Educação e Cultura (Seec), professora Betânia Ramalho, afirma que desconhece a situação da Escola Estadual Vereador João Salviano Sobrinho, de Fernando Pedroza, que ficou entre as 50 piores escolas do país no último Enem. "Não sei quantos alunos da escola participaram do exame. Poucos alunos devem ter participado para o resultado ser esse", disse.

A secretária considera ainda que para o resultado ter sido tão negativo, o método de ensino aplicado na escola não deve prever as questões e modo como as disciplinas são cobradas no Enem. "Acredito que os alunos não foram preparados devidamente. Precisamos verificar".




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comentários

atcalazans@...17/09/2011 @ 07h57
Essa secretária nunca sabe de nada, até mesmo de Psicologia da Educação.
garotadachuva@...18/09/2011 @ 21h48
A escola não preparou ou os nobres alunos não tiveram o mínimo de compromisso com os estudos? Sabemos bem que a maioria dos alunos estão não escola apenas p/ desrespeitar e rir da cara do professor,pois não há punição. A culpa sempre vai p/ os professores,claro. Mas não isso é de causar espanto,afinal,em se tratando de Brasil,vagabundo é tratado a pão-de-ló. Se querem obter boas notas,estudem!
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