Agora você já pode ler a tribuna em versão FLIP
Ir para página inicial
  • Natal - 23°Natal - 23°

Viver

Natal, 25 de Maio de 2012 | Atualizado às 08:47

Piratas na dianteira

Publicação: 02 de Fevereiro de 2012 às 00:00
tamanho do texto A+ A-

Yuno Silva - repórter

A produção franco-belga "O Artista", indicada em dez categorias no Oscar 2012, ainda não foi lançada oficialmente no Brasil, mas uma cópia legendada com qualidade satisfatória já circula sem cerimônia nas bancas de Natal. Grande aposta da Academia para este ano, o filme só desembarca no país no próximo dia 10 de fevereiro. E ele não é o único concorrente ao maior prêmio da indústria cinematográfica à venda no comércio paralelo de DVDs 'genéricos': em cartaz nos cinemas da capital potiguar, "J. Edgar" com Leonardo DiCaprio e "Os Descendentes" com George Clooney também figuram entre as opções; da mesma forma "A Separação" (iraniano indicado ao Oscar de filme estrangeiro) ,"Cavalo de Guerra" e "Drive" - o segundo ainda não foi exibido nas telas natalenses e o terceiro só chega aqui dia 24.
Ana SilvaFilmes que ainda nem estrearam em Natal, e alguns no Brasil, como O Artista, Drive e A Separação já podem ser adquiridos no mercado pirata.Filmes que ainda nem estrearam em Natal, e alguns no Brasil, como O Artista, Drive e A Separação já podem ser adquiridos no mercado pirata.

Da lista dos 63 pré-indicados ao Oscar, pelo menos 45 estão disponíveis na internet, com legenda e tudo. Uma coisa é certa: se há procura, há demanda, e ela é intensa. E mais: a oferta é sortida e o produto (testado na hora!) está enquadrado em duas categorias distintas: cópia 'original' do DVD e cópia da internet, que nem sempre traz opções de se assistir o filme em versão dublada ou legendada, e geralmente a qualidade das imagens é sofrível. Os preços variam entre R$ 2 e R$ 5, e, por mais que se negue, a prática já está incorporada ao cotidiano. "Estou aqui prestando um serviço cultural ao democratizar o acesso a esses filmes", disse o camelô Henrique (nome fictício), 27, que há quatro vende os 'genéricos' na banquinha montada no centro de Natal. Contraditório emenda: "Sei que é proibido, que é pirataria, mas é uma maneira honesta de garantir o sustento."

A justificativa do vendedor é prontamente defendida pela dona de casa Joana dos Santos, de 39 anos, que procurava desenhos animados para os dois filhos. "Compro toda semana. Tem lugar que compro cinco (filmes) por dez (reais). Quanto custa um ingresso de cinema?", pergunta. Ela nunca foi ao cinema mas já viu mais filme que muito cinéfilo.

Independente de ser contravenção punida por lei específica, o mercado de filmes piratas é um fenômeno mundial difícil de ser controlado. Basta circular pelo centro da cidade, entre 18h e 19h, para conferir os lançamentos nas lonas estendidas nas calçadas. No Alecrim, nos pontos de ônibus de grande movimento ou nas calçadas em frente às agências bancárias da Av. Eng. Roberto Freire são outros pontos certeiros para se servir nas 'megas stores' temporárias de DVD pirata.

E nem mesmo o aviso gravado antes dos filmes dando conta de que esse tipo de produto danifica os equipamentos diminui o consumo. "Isso é um mito. Não há contato mecânico, a leitura é ótica, e a única diferença entre um DVD original e uma cópia é a qualidade da gravação e da mídia (do disco) em que o filme é gravado", garante Wanderley Grilo do Vale, técnico em eletrônica há 22 anos.

SOFISTICAÇÃO DA OFERTA

Vários fatores alimentam esse comércio, entre eles o valor dos ingressos dos cinemas, as poucas opções em cartaz, a popularização dos aparelhos DVD, a rapidez com que os filmes chegam às bancas e o catálogo diversificado de produções que não são exibidas na telinha nem nas telonas. Também é interessante perceber que as opções 'genéricas' transcenderam a reprodução de grandes sucessos de Hollywood e os populares filmes pornográficos: hoje há bancas especializadas que conseguem qualquer título, mesmo aqueles só lançados em VHS. O nível de sofisticação é tão grande que é possível comprar a coleção completa de Stanley Kubrick, Luis Buñuel ou Ingmar Bergman. Os filmes ainda disputam a preferência da clientela com novelas e séries completas, animações e DVDs de shows.

LOCADORA VIRTUAL PODE SER A SOLUÇÃO

Resolver o problema da maneira tradicional, fiscalizando e tentando coibir, está provado que não adianta e os distribuidores já queimam as pestanas para saber como contornar a situação. A potiguar radicada no Rio de Janeiro Isabelle Cabral, da Pipa Distribuidora, responsável pela circulação de filmes nacionais como a comédia "Elvis & Madona" e o documentário sobre a banda Novos Baianos "Filhos de João, O admirável mundo novo baiano", ambos já exibidos nos cinemas locais e encontráveis nos camelôs de Natal, acredita que uma das saídas seja a implantação de uma locadora virtual.

"Não tem como se proteger. Para termos uma ideia da dimensão dessa 'guerra' contra a pirataria, é só ver o esquema montado para lançar 'Tropa de Elite 2'. Só foram feitas cópias em 35 mm, armazenadas em um depósito guardado por seguranças armados", contou Isabelle, lembrando que o primeiro filme chegou antes nos camelôs antes de ser lançado nos cinemas. "Acredito que não foi uma jogada de marketing, mas, contraditoriamente, o episódio acabou sendo interpretado com esse viés." Segundo ela, o diretor José Padilha garante que o desempenho do primeiro Tropa de Elite nos cinemas teria sido melhor. "O recorde de bilheteria do TE2, que teve mais 12 milhões de espectadores, se deve muito a popularização do primeiro: quem assistiu TE1 em DVD pirata teve que ir ao cinema", analisa.

Isabelle Cabral contou que há várias formas de um filme 'vazar' antes de ser distribuído em DVD: "Às vezes o filme sai direto do laboratório onde está sendo feito, sem falar que muitos festivais pedem cópias em DVD para a seleção e sei que essas cópias acabam circulando ou mesmo são replicadas. Apesar de enviar junto um termo de compromisso, sei que é difícil controlar."

Se a proposta de uma locadora virtual realmente vingar, em um futuro próximo poderemos baixar ou mesmo assistir online (por streaming) filmes originais a preços competitivos. Talvez seja essa a melhor opção para resolver a proliferação dos 'genéricos' na esquina mais próxima. 

PROTO-LOCADORA JÁ OPERA NO BRASIL

Uma espécie de proto-locadora virtual já está em funcionamento no Brasil desde setembro de 2011, operada pela empresa Netflix (www.netflix.com). Criada em 1997, a empresa disponibiliza em torno de 17 mil títulos online que o cliente pode acessar pagando uma taxa mensal de R$ 15. Além de assistir ao catálogo virtual, a Netflix ainda empresta até quatro filmes em DVD por mês - entregues em casa via correio. Novos pedidos só serão atendidos quando o cliente devolver, também pelo correio, os DVDs emprestados anteriormente.


Publicidade
  • 600 caracteres
  • separar os emails por vírgulas
  • 600 caracteres
  • Encontrou algum erro nesta matéria? Envie pra nós.

  • 400 caracteres

comentários

pepelegamba@...02/02/2012 @ 12h46
"o mercado de filmes piratas é um fenômeno mundial difícil de ser controlado". Não é isso. A "propriedade" intelelectual é que é uma impostura, uma violência, e como tal difícil de ser aplicada. Discriminar minorias já foi legal (Alemanha, Africa do Sul, para ficar nos casos mais emblemáticos) e ainda é "legal" alhures, e daí ? Na hora de democratizar a cultura vamos apoiar as leis patrocinadas pelos poderosos das corporações de estúdios ou o bem estar comunitário? Na hora desses absurdos, de que lado ficar? Na Africa do Sul de antanho vc respeitaria a lei, vc promoveria o apartheid?
nitinha-dinarte@...02/02/2012 @ 11h51
DVDs piratas? piratas uma ova! piratas são os sites e lojistas gatunos que vendem o DVD a preço extorsivo (geralmente entre 40 e 50 reais - às vezes mais), tornando o acesso a cultura proibitivo para quem não é abonado, como as pessoas de menor poder aquisitivo. O DVD genérico ou alternativo vem prestando, sim, inestimável serviço na divulgação da arte e da cultura para o povo. E agora, dê licença, vou ali na esquina comprar o meu, baratinho, dois real...
igorgois@...02/02/2012 @ 16h24
acredito que a Pirataria no Brasil é culpa dos altos preços e impostos. é só cada um olhar pro seu computador, quantos programas originais vc tem instalado no seu PC?? a gente já usa a palavra "crack" com naturalidade. um Autocad (progama usado na engenharia e arquitetura) por exemplo custa R$8.364,00. Ano passado teve concurso pra Arquiteto na prefeitura de São Gonçalo e o salário era de R$900,00. Então o que a maioria dos arquitetos e engenheiros aqui de Natal fazem?? Dowloads ilegais do programa. Pra corrigir este problema, tem que rolar preço justo.
jpedrosmed@...02/02/2012 @ 19h26
Como todos já comprei dvds piratas, confesso. Como tb já comprei muitos originais. A internet mudou isso durante um bom tempo mas agora com a queda do megaupload e outros, deixou de ser opção confiável. Só que os próprios piratas cairam de qualidade. hoje qualquer curioso baixa ou copia um filme e sai vendendo dvds. É raro encontrar um dvd do jeito que gosto: copiado do original, com boa qualidade e som original, já que detesto dublagem em geral mal. Detesto dvd pirata de má qualidade, q é a maioria hoje à venda.
atendimento@...02/02/2012 @ 20h26
A Netflix não entrega em casa. Quem entrega em casa é a Netmovies :)
karen-sa@...03/02/2012 @ 16h28
Tem o que fazer não é Yono? Graças a pirataria não tenho que ficar refem dos cinemas de Natal que só tem passado lixo. Da última semana para cá que melhorou. Virou puxa saco mesmo né? Quem te viu quem te ver, vendido para o sistema!
yuno.silva@...08/02/2012 @ 13h31
oi karen-sa, se você ler novamente a matéria vai notar que não foi emitido juízo de valor: é apenas uma constatação de que há muito mais opção nas bancas de DVD que nos cinemas. Não entra no mérito da legalidade ou ilegalidade, não fala dos direitos autorais desrespeitados, não diz se é bom ou ruim (essa análise cabe ao leitor). abraços
Publicidade
Tribuna do Norte