Isaac Lira - Repórter
A chegada do carro da reportagem atrai olhares. A logomarca do jornal estampada no carro branco, a ameaçadora câmera fotográfica, as roupas do repórter e do fotógrafo. Tudo desperta interesse. Os habitantes do Conjunto Santa Clara, no Planalto, não temem conversar com os repórteres. Querem falar. E falam sobre a realidade que os cerca. Cada um deles saiu de uma favela de Natal para morar em um dos bairros mais distantes da cidade – o Planalto – numa tentativa do poder público de “desfavelizar” Natal.
Alex régis
Criado como alternativa para a erradicação de favelas de Natal, o bairro Planalto parou no tempo. Os moradores cobram obras de infraestrutura
A área entre os bairros do Planalto e Guarapes é o ambiente da cena descrita. São bairros que tradicionalmente recebem ex-moradores de favelas de Natal para loteamentos construídos pelas sucessivas administrações da Prefeitura de Natal, desde o fim da década de 80. O cenário é sempre o mesmo: chão de terra, sem pavimentação ou asfalto, longas distâncias e falta de equipamentos urbanos para a existência digna dessas pessoas. Parafraseando o poeta João Cabral de Melo Neto, os loteamentos do Planalto são “lugares de não”. Não tem posto de saúde, não tem escola, não tem delegacia, não tem transporte, etc. Por tudo isso, não é de se estranhar a chegada da reportagem. Aqueles que nunca são ouvidos agora podem falar. E falam.
A primeira pessoa a se aproximar dos repórteres se chama Maria de Fátima da Rocha, que diz ter 40 anos, embora aparente ter pelo menos 50. Ela trabalha vendendo peixe nas muitas feiras da cidade e tem os pés feridos de caminhar até lugares distantes, como a Feira do Carrasco, nas Quintas. “Moro aqui, mas não gosto. Falta água toda semana e luz também, além de ser tudo muito longe”, fala, caminhando sobre a areia suja do Conjunto Santa Clara. A paisagem é composta por quatro fileiras de 15 casas, separadas pelo que deveria ser uma rua, mas é apenas um chão de areia fina. No alto do que parece ser uma duna, as pessoas tentam viver.
Dona Fátima mora com duas filhas na casa apertada de dois quartos, sala, banheiro e cozinha, que é exatamente igual às mais de 60 outras casas do conjunto. Uma das filhas estuda e a outra não. Ianca Rocha tem 12 anos e todos os dias caminha cerca de 1,5 km para chegar até à escola na Cidade da Esperança. A única escola com Ensino Fundamental do Planalto não tinha vaga para ela – a Prefeitura inaugurou mais uma escola no Planalto, na semana passada, mas ela só funcionará com Ensino Fundamental em 2010. Na hora de conseguir atendimento de saúde, também é preciso caminhar. Dona Fátima e suas filhas dizem ir direto para o Walfredo Gurgel quando alguém adoece. Da mesma forma, comprar comida – quando há dinheiro – é motivo para pegar a estrada. “Compramos comida na favela do Detran porque aqui no Planalto é tudo muito caro. Antes era melhor porque não pagávamos água nem luz e ainda recebíamos ajuda dos nossos vizinhos. Cada um ajudava como podia e aqui não conhecemos tanta gente como lá”, conta Ianca, do “alto” dos seus 12 anos de vida.
Não bastasse o caminho sempre longo, a estrada que leva os moradores do Conjunto Santa Clara para a cidade também é perigoso. Entre os loteamentos mais antigos, do bairro até os dois novos conjuntos (Santa Clara e Leningrado) existem terrenos baldios e locais de descarregamento de lixo. Segundo relato dos moradores, os bandidos se entocam no mato e abordam as pessoas que passam. Por conta disso, a dona de casa Juciara Saldanha está de mudança para a casa da mãe – localizada na Zona Norte – por tempo indeterminado. Ela é mãe do pequeno Maykon, de apenas um ano. O curso que faz todas as noites no Senac obrigava Juciara a voltar por volta das 22h para o Conjunto Santa Clara. “É muito perigoso e meu marido achou melhor eu me mudar com o Maykon para a casa da minha mãe por enquanto”, lamenta Juciara. O Conjunto Santa Clara foi inaugurado há quatro meses e ainda não recebeu nem a pavimentação nem a iluminação de suas vias de acesso.
Marxismo e pobreza em dois conjuntosO conjunto habitacional que precedeu o Santa Clara é o Leningrado. Os dois são como irmãos – nasceram com oito meses de diferença e por motivos semelhantes. Contudo, os dois lugares se distinguem pelo discurso. A carência é praticamente a mesma, mas os moradores do Leningrado quando falam de suas próprias mazelas utilizam palavras diferentes. “Temos que lutar para conseguir viver com dignidade. Meu marido é soldador, veja bem. E nós não temos dinheiro para comprar o portão que ele ajuda a fabricar”, diz Valdete Pereira Guerra.
Para quem não reconheceu, as palavras de Valdete exalam marxismo. Não é por acaso. Ela é a presidente da Associação de Moradores do Conjunto Habitacional do Leningrado e integrante do Movimento de Luta em Bairros, Vilas e Favelas (MLB). O MLB quer a revolução socialista, mas enquanto o proletariado não toma o poder, eles pleiteiam luz, água, segurança, escola e posto de saúde. A pavimentação já existe. “Conseguimos com muito esforço, com muita luta, que a Prefeitura fizesse o calçamento depois de um ano de criação do Conjunto. Isso aqui parece mais um depósito de pobre”, afirma Valdete.
Uma outra integrante do MLB, chamada Rejane Brito, é quem mostra na prática o que o discurso de Valdete tenta dizer. Energia não há em todas as casas e as mais novas precisam “puxar” dos postes. “Cada um contribuiu com R$ 5 para puxar a energia. O que estamos fazendo é roubar energia e é claro que eu não quero roubar energia, mas também não posso viver no escuro”, fala Rejane.
O problema da distância também persiste. As crianças do Conjunto Leningrado precisam percorrer dois quilômetros de estrada carroçável até o bairro Guarapes para estudar. Para ir ao médico, o destino é o mesmo: caminhar até o Guarapes. “Eles acham que é só dar uma casa, mas isso não resolve o problema do pobre. Muitas dessas pessoas preferiam ficar nas favelas porque o poder público dá a casa, mas não dá condições do pobre viver com decência”, reclama Rejane.
Sem estrutura, famílias voltam para local de origemPara o professor da UFRN, Ademir Araújo, doutor em Geografia Urbana, as favelas não serão erradicadas de Natal com a simples remoção. Segundo Ademir, desde o fim da década de 80 que o bairro Planalto recebe loteamentos com casas para moradores de favelas, que sempre voltam ou para o local de origem ou para novas favelas. “As favelas sempre voltam porque o problema real não é resolvido. Primeiro não se dá condições para essas pessoas sobreviverem e depois não se dá um novo uso para o terreno que antes abrigava a favela”, explica.
Como exemplos, o professor cita a favela do Detran, a favela do Fio, as favelas em Mãe Luiza e em Ponta Negra. Todas em algum momento dos últimos 20 anos já foram “erradicadas”. E sempre voltam. “O bairro Planalto e a Zona Norte são os locais para onde tradicionalmente são realocadas essas pessoas, que acabam abandonando, vendendo ou trocando as casas que receberam do Governo, sem nenhuma punição”, aponta. E complementa: “As pessoas tendem a ficar onde têm mais condição de sobreviver. Quando elas se mudam para um desses loteamentos, perdem os vínculos com amigos e parentes, ficam distantes dos locais onde costumavam conseguir dinheiro, etc. Acaba piorando a situação, em muitos casos, e por isso elas voltam para a favela”.
Além disso, o movimento de “desfavelização” ainda obedece, de acordo com o professor, a critérios do mercado imobiliário. “Quem quer morar perto de uma favela? Ninguém. Existe um estigma muito grande nisso e a proximidade de um local como esse acaba desvalorizando um empreendimento. Como o setor imobiliário tem um grande poder de barganha, fica mais fácil remover essas pessoas”, afirma Ademir. Das últimas seis favelas erradicadas, quatro ficam em locais “nobres”. Duas em Ponta Negra (Alagamar e Pião), uma em Mãe Luiza (Luiz Gonzaga) e uma em Candelária (Via Sul). A outra fica na Zona Oeste (Favela do Detran).
MilagreA secretária de Habitação e Regularização Fundiária de Natal, Diana Mota, discorda da forma como os moradores dos conjuntos habitacionais do Planalto veem a remoção da favela para o bairro. Segundo Diana, a erradicação das favelas é um serviço de extrema importância para Natal e a demora para equipar os dois conjuntos com infraestrutura mínima se deve a problemas de regularização fundiária.
“É um milagre termos erradicado seis favelas esse ano. Se não há estrutura nos conjuntos é porque quando chegamos na secretaria os terrenos estavam irregulares. Para construir qualquer coisa num lugar como esse é preciso ter a terra toda regularizada. Esse é o motivo da demora”, afirma Diana Mota, acrescentando que espera que no primeiro semestre do próximo ano sejam iniciadas as obras no Conjunto Santa Clara e Leningrado. “Temos reuniões desde o início do ano com todas as secretarias envolvidas. O projeto para aquela área inclui escola, posto de saúde, etc. Mesmo assim não acho que essas pessoas estejam vivendo mal, porque antes elas viviam em situação de completo risco”, encerra Diana.