Ilmo Gomes
Corpo do ex-prefeito Antônio Veras chegou na manhã deste sábado ao Itep de Caicó para o velório e posterior sepultamento
F. Gomes - Especial para a TN
O bando que agiu na tarde de sexta-feira no município de Janduís tinha a intenção de matar toda a família do ex-prefeito de Campo Grande, Antônio Veras.
Pelo menos foi o que comentou um membro do grupo familiar que pediu para não ter o nome revelado na reportagem. É que na sexta-feira uma neta do ex-prefeito, filha de Túlio Veras, estava aniversariando, completando sete anos de idade e no dia seguinte, seria o aniversário de Antônio Veras.
O plano seria reunir a família logo na sexta-feira à noite na fazenda Monte Alegre. Mas Hécia Maria, nora de Antônio Veras pediu ao marido Túlio Veras que ficasse em Caicó onde se reuniriam para um jantar e no sábado seguiriam para a fazenda.
"Antônio Veras concordou e o restante da família ficou em Caicó", disse o familiar.
O ex-prefeito mesmo tendo sua base política e de propriedades rurais em Campo Grande, residia com sua esposa , dois filhos e uma neta na Rua Visitador Fernandes no centro da cidade de Caicó.
Em 2003 após perder dois irmãos, Vicente e Cézar Veras, de forma semelhante, em emboscadas e vítimas de muitos disparos de armas de diferentes calibres, passou a contar com segurança de policiais militares cedidos pela Secretaria de Segurança Pública.
O ex-prefeito contava com o apoio de oito homens. Mas há pouco mais de um ano o Ministério Público questionou a situação e os policiais foram retirados da segurança de Antônio Veras. Posteriormente houve um entendimento contrário e a Secretaria de Segurança determinou que policiais voltassem a atuar junto a Antônio Veras.
O corpo de Antônio Veras, juntamente com os dos dois policiais militares, Jacson Cristino Dantas e Solano Costa de Medeiros chegaram em Caicó procedentes do ITEP de Mossoró por volta das 7 horas e 30 minutos deste sábado.
O velório do ex-prefeito de Campo Grande teve início às 8 horas e 15 minutos na Funerária Santa Clara, na Avenida Rio Branco. Às 15h30 houve missa de corpo presente na Catedral de Sant'Ana e em seguida ocorreu o sepultamento no cemitério Campo Jorge na zona Norte de Caicó.
Não foi possível ver o rosto de Antônio Veras porque a cabeça dele foi totalmente esfacelada.
Antônio Veras marcado para morrerAntônio Francisco Nóbrega Martins Veras teve o nome envolvido nas investigações em torno do assassinato de José Reis de Melo, conhecido como Zé Vieira, morto a tiros em 2006. O ex-prefeito de Campo Grande acusava o agropecuarista como envolvido nas mortes dos seus irmãos. Em 2006 Zé Vieira foi morto numa fazenda situada no município de Campo Grande por um grupo armado que cercou sua casa e atirou tentando matar todos os familiares que se encontravam no local. José Reis de Melo tombou morto.
Na última entrevista concedida por Antônio Veras no programa Comando Geral da Rádio Caicó AM, em 2009, se defendendo das acusações pelo assassinato de Zé Vieira, ele falou sobre a possibilidade de ser assassinado.
"Eu não paro de pensar como eu vou sobreviver, eu não paro de pensar. Quando explode uma situação dessa que jogam na imprensa de maneira diferente do que está no inquérito eu fico preocupado. Por que? Será que os resquícios da quadrilha não aproveitam uma situação dessa para armar uma parada? Eu não sei, isso é uma guerra. Eu não faço a guerra, eu vivo por circunstância da natureza dentro dessa guerra", narrou.
Quadrilha Na ocasião o ex-prefeito Antônio Veras se disse vítima de uma quadrilha, mas declarou que não tinha medo de morrer. "Eu não temo, eu acho que quem nasce tem um final que é a morte. Agora eu não quero a morte de briga, eu quero a morte de natureza de saúde", citou.
O ex-prefeito Antônio Veras sem citar nomes se referiu ao grupo antes liderado por José Valdetário Benevides como debilitado. "Eu acredito que a quadrilha está muito debilitada porque os cabeças estão presos, outros morreram em combate com a polícia, não foi com a nossa família. Os que morreram foram brigando com a polícia, é muito ruim brigar com a polícia, mas eles achavam que eram donos da metade do mundo. Agora quem não se preocupa com uma situação dessa?", citou na ocasião Antônio Veras.
Corpo de soldado foi velado em Castelo BrancoO soldado Jacson Cristino Dantas, 36 anos, teve seu corpo velado na residência dos familiares no Bairro Castelo Branco. Em seguida foi levado para a capela de Nossa Senhora da Conceição no quartel do 6º Batalhão de Polícia Militar para missa de corpo presente. O enterro ocorreu no cemitério São Vicente de Paulo, no bairro Paraíba.
Das três vítimas, Jacson Cristino foi o que sofreu menos disparos. Morreu sentado no banco de passageiros ao lado de Antônio Veras. Jacson ingressou na Polícia Militar em 1997, trabalhava na guarda do 6º BPM e na segurança de Antônio Veras nos momentos de folga. O soldado Solano Costa de Medeiros, 34 anos, foi admitido na PM em 2000. Seu corpo foi velado até o meio-dia na capela do batalhão e em seguida levado para Jardim do Seridó para passar alguns momentos na casa de familiares e em seguida ser sepultado. A cabeça de Solano também foi esfacelada. O corpo dele foi encontrado fora do carro. Presume-se que ele foi o único a reagir.
O tenente-coronel Antônio Cipriano de Almeida, comandante do 6º Batalhão de Polícia Militar, emocionando lamentou a morte dos policiais. "Um momento muito difícil, dois companheiros que morreram, muito difícil", citou.
O comandante declarou que já existe uma linha de investigação em torno do episódio. "As linhas são aquelas que todos já conhecem. A primeira linha em virtude da inimizade que existia entre ele com outras famílias e eu acredito que o delegado encarregado vai trabalhar inicialmente nessa direção. Mas ainda é muito cedo, os dados estão começando a chegar e no decorrer dessa semana é que deve surgir uma linha definitiva para as investigações", assinalou o tenente-coronel Antônio Cipriano.
Polícia acredita em ligação de crimesA polícia não tem dúvidas de que a morte de Antônio Veras está ligada às execuções dos irmãos dele, Cezar e Vicente Veras. E trabalha com a possibilidade de ter sido praticada por homens ligados à quadrilha dos Carneiro. Depois que os dois primeiros irmãos foram mortos, José Reis de Melo, o "Zé Vieira", envolvido nos crimes junto com Valdetário Carneiro, foi executado. Antônio Veras chegou a ser indiciado pela morte de Vieira.
"Tem muitos bandidos que vinham praticando assalto a ônibus e outros crimes na região. A quadrilha é grande", disse o delegado Maurílio Pinto, que acompanha há anos as brigas entre famílias no Oeste do Estado. O delegado chegou a trabalhar na prisão dos irmãos Antônio Maia dos Santos, o "Baianinho", e Antônio Nicolau, o "Neném", pelos assassinatos de Cézar e Vicente.
"Foi um trabalho muito bem feito. Prendemos os dois irmãos ao mesmo tempo. Um na Bahia e outro no Pará", contou Maurílio. O delegado lembrou que dois membros da quadrilha dos Carneiro estão soltos: João Benevides Carneiro, o "Branquinho Carneiro" e Emerson Fitipaldi Carneiro, o "Merson", cuja filha foi raptada esta semana em Apodi, com três dias de nascida. A menina foi encontrada logo depois.
Outro importante membro da quadrilha continua sendo procurado pela polícia em vários estados do país. Tetsumi Kitayama Benevides, hoje com 30 anos, é filho de Valdetário Carneiro, mas Maurílio não acredita que ele tenha envolvimento na execução de Antônio Veras. "Tetsumi está em outro Estado. De vez em quando aparece notícia dele ter estado por aqui, mas é difícil", disse. A elite das polícias Civil e Militar está envolvida na investigação e prisão dos executores do ex-prefeito de Campo Grande. "Estamos trabalhando duro para resolver este caso", disse o delegado geral, Elias Nobre.
Antônio Veras se via ameaçado de morrer da mesma forma que os irmãos foram assassinados. No ano de 2003 ele deu uma entrevista a um jornal e disse "Este grupo tem uma forma, uma maneira marcante de agir que é esfacelando a cabeça das pessoas e as atacando no caminho", exatamente como aconteceu com ele.