Polícia prende chefão do tráfico

Publicação: 11 de Novembro de 2011 às 00:00 | Comentários: 0
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Rio - O traficante mais procurado do Rio de Janeiro, Antônio Bonfim Lopes, o "Nem", foi preso ontem e da forma jamais imaginada pelas forças policiais: sem o disparo de um único tiro. A prisão ocorreu por volta de meia-noite quando o traficante tentava sair da Rocinha no porta-malas de um carro. Os policiais que faziam o cerco ao conjunto de favelas descofiaram de um Corolla, que descia o morro. Três homens estavam dentro do veículo. Um deles afirmou aos policiais ser cônsul do Congo, outro se apresentou como funcionário do consulado; já o terceiro seria advogado.

Wilton Junior/AEAntônio Nem Bonfim é transferido da sede da Polícia Federal para o complexo penitenciário de BanguAntônio Nem Bonfim é transferido da sede da Polícia Federal para o complexo penitenciário de Bangu
O suposto diplomata se recusou a sair do carro para ser revistado alegando imunidade. Os policias, que faziam uma blitz na região e já haviam parado vários carros, disseram que iriam acompanhar o veículo até a sede da Superintendência da Polícia Federal (PF), que fica na Praça Mauá, na zona portuária, região central. No caminho, o motorista do Corolla parou o veículo junto à Lagoa Rodrigo de Freitas, próximo ao Clube Naval, onde o trio tentou subornar os policiais. “Primeiro, eles ofereceram R$ 20 mil, depois, R$ 1 milhão para liberarmos eles", contou o soldado Heitor, durante reportagem veiculada pela TV Globo. Heitor é um dos agentes do Batalhão de Choque que abordou o veículo usado na tentativa de fuga do traficante.

“Nem” foi transferido da sede da Polícia Federal para o Complexo Penitenciário de Bangu, onde ficará à disposição da Justiça. Ontem, o governador do Rio, Sérgio Cabral, dizia que ele seria transferido para outro Estado. E especulações começaram a ser feitas, inclusive de que ele poderia ser transferido para o presídio federal de Mossoró, considerado um dos mais seguros do Brasil e onde está preso outro chefão do tráfico de drogas no Rio: Fernandinho Beira-Mar.

 Em entrevista à rádio CBN, Cabral declarou que o trabalho de pacificação prosseguirá pelos próximos dias e fez um apelo para que os traficantes que ainda estão na favela se entreguem sem resistir. "Esperamos que os marginais não reajam. Esperamos que eles se entreguem, para que a população da Rocinha e do Vidigal possa retomar o mais rapidamente possível a sua rotina", disse.

O governador confirmou que a Marinha já autorizou a participação de fuzileiros navais e de veículos blindados na operação de ocupação da Rocinha e do Vidigal - as duas últimas grandes comunidades na zona Sul da capital fluminense ainda controladas por traficantes.

CONGO

As embaixadas da República Democrática do Congo e da República do Congo-Brazzaville negaram ontem que tenham cônsul honorário no Rio de Janeiro. Nas duas representações, em Brasília, a informação de que um homem preso com o traficante "Nem", apresentou-se como representante de um dos dois países tomou os diplomatas de surpresa. Um cônsul honorário costuma ser uma pessoa ligada de alguma forma ao país que representa, mas não necessariamente de nacionalidade do local.

Também não é um diplomata de carreira. É apenas uma pessoa indicada pelo governo do país para servir de ligação em caso de necessidade, quando não há uma representação diplomática no lugar. Apesar de não ter nenhum tipo de imunidade diplomática, o cônsul honorário é registrado pelo país no Ministério das Relações Exteriores. Mas, na relação oficial do Itamaraty o único registrado é António José Alves Farrajota Ramos, representante honorário do Congo-Brazzaville em Fortaleza.

Polícia analisa último telefonema

Rio (AE) - Após a euforia com a prisão do chefe do tráfico da Rocinha e do Vidigal, Antônio Bonfim Lopes, o Nem, a última etapa para a ocupação dessas comunidades é a rendição de jovens traficantes que permanecem nas favelas.  O perfil violento dessas lideranças preocupa. Com a prisão de Nem, o comando do tráfico nessas comunidades está nas mãos de Leandro Botelho Nunes, o Scooby, e Jorge Araújo Vieira, o Bebezão. Os dois participaram do confronto que resultou na queda do helicóptero da PM no Morro dos Macacos, em outubro de 2009, e fugiram quando a Secretaria de Estado de Segurança instalou uma UPP na comunidade.

A polícia tenta desvendar o teor do primeiro telefonema de Nem após a prisão. Ao falar com a mãe, ele avisou que foi preso e pediu que ela não esquecesse de “levar as crianças para a escola”. Investigadores acham que isto pode ser um código para esconder alguma quantia de dinheiro ou a senha para algum recado a ser transmitido aos comparsas que permanecem na favela.

Em Berlim, onde participa de um congresso, o secretário de Estado de Segurança, José Mariano Beltrame, declarou que gostaria que Nem prestasse depoimento revelando detalhes sobre o esquema de corrupção que garantiu seu reinado por quase uma década na maior favela da zona Sul do Rio. “Gostaria muito que o Nem falasse. Ele tem prestação de contas a dar sobre corrupção de agentes públicos. Isso seria um passo importante ao combate ao tráfico de drogas. Ele conhece os meandros de corrupção”, disse Beltrame.

O secretário, no entanto, evitou fixar data para a conclusão das operações na Rocinha e no Vidigal. “Esta operação, que se iniciou há dez dias, ainda não terminou. As informações e os dados que conseguirmos é que vão definir data e horário. Ainda esperamos outros resultados”, explicou o secretário.

O comandante do Estado Maior Operacional da PM, coronel Alberto Pinheiro Neto, revelou que uma cisão entre os traficantes antecipou a saída dos criminosos. “Houve discussões entre traficantes da Rocinha e os criminosos de outras favelas que estavam na comunidade”, disse Pinheiro Neto. Na quarta-feira à tarde, as prisões de bandidos escoltados por cinco policiais ocorreram após o grupo de traficantes do Morro do São Carlos, liderados por Anderson Rosa Mendonça, o Coelho, e por Sandro Luís de Paulo Amorim, o Peixe, desconfiar das ordens de Nem, que falava em resistir à ocupação policial, mas tramava a própria fuga.

Advogados do tráfico podem ser expulsos da OAB

Rio (AE) - Portadores de inscrição na seção fluminense da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-RJ), os três homens presos com o traficante Nem, já respondem a processo administrativo e poderão ser expulsos da entidade.  A OAB-RJ instaurou ontem processo de suspensão preventiva contra eles - que não tiveram a identidade revelada pela Polícia Federal. Caso venham a ser excluídos da entidade, os três ficarão proibidos de exercer a advocacia.

O presidente do Tribunal de Ética e Disciplina da entidade, João Baptista Lousada Câmara, explicou que o processo de suspensão contra os três homens será julgado na próxima quinta-feira. Posteriormente, os autos deverão ser remetidos para o conselho seccional da OAB-RJ - que poderá propor, em até 90 dias, a exclusão e o cancelamento da inscrição dos três. “Estou esperando o material chegar da Polícia Federal”, disse Lousada Câmara. “Os três terão direito de defesa plena. O nosso dispositivo é quando o ato praticado pelo advogado gera repercussão prejudicial à advocacia”.

As embaixadas da República Democrática do Congo e da República do Congo (Brazzaville) - duas nações africanas distintas - negaram ter representações diplomáticas no Estado do Rio. Um dos advogados presos com Nem chegou a se apresentar como “cônsul honorário do Congo no Rio” e recusou-se a ter seu carro revistado por ter imunidade diplomática - segundo a polícia.

De acordo com o Ministério das Relações Exteriores, a embaixada do Congo (Brazzaville) enviou nota negando qualquer relação com o homem preso com Nem. Por telefone, funcionário da Embaixada da República Democrática do Congo informou à reportagem também não ter representação no Rio, mas ressaltou que os diplomatas do país esperariam notificação da Polícia Federal para se manifestar oficialmente.

Nem atua há dez anos no tráfico

Rio (AE) - Preso pela primeira vez, apesar de atuar havia uma década no tráfico da Rocinha, Antônio Francisco Bonfim Lopes, o Nem, tem 35 anos e uma única condenação, a oito anos e quatro meses de prisão, por associação para o tráfico, segundo o Tribunal de Justiça. A ele são atribuídos ainda os crimes de homicídio, sequestro e lavagem de dinheiro.

“Nem” entrou para o crime para pagar uma dívida que contraíra com traficantes da Rocinha. Assumiu a chefia em 2005, como sucessor de Erismar Moreira, o Bem-Te-Vi, depois de sua morte. Foi quando deixou de lado a postura assistencialista e passou a ser mais violento e autoritário, inclusive coagindo a população a votar em seus candidatos durante eleições.

A polícia esteve perto dele várias vezes, mas, graças à rede de policiais a quem pagava propina, ele se informava sobre as operações e, protegido por seu “exército particular”, armado de fuzil, escapava. Vivia encastelado no alto da favela, numa casa com três andares, TV de plasma, academia de ginástica, piscina e uma bela vista para o mar. Para passar despercebido, “Nem” procurava mudar sempre o corte e a cor do cabelo.

Ele determinou a execução e o esquartejamento de inimigos. Entre suas vítimas estariam a modelo Luana Souza, de 20 anos, e uma amiga dela, Andressa Oliveira, de 25. Luana seria namorada de um policial, por isso teria sido assassinada. As duas sumiram em maio e os cadáveres nunca foram achados.

Estima-se que sua quadrilha tivesse 200 integrantes no morro, onde foi montada uma refinaria de cocaína, de onde saem cerca de 200 quilos de cocaína por semana - por sua localização, em São Conrado, facilmente acessível por cariocas e turistas, a Rocinha sempre teve as bocas de fumo das mais rentáveis do Rio. Em abril, foram apreendidas lá três toneladas da droga. A ação mais ousada foi a invasão do hotel Intercontinental, vizinho ao morro, durante uma fuga de um baile funk, em agosto de 2010.



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