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Natal, 24 de Maio de 2012 | Atualizado às 08:34

Primavera de Damasco e repressão

Publicação: 03 de Abril de 2011 às 00:00
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Zeina Karam - Associated Press

Damasco - Jovem e com boas maneiras, além de ter uma esposa bonita ao lado, o presidente da Síria, Bashar Assad, não parece se encaixar no estereótipo de ditador árabe. Muitos sírios, tanto dentro quanto fora do país, insistem em que ele é um reformador prejudicado por maus conselheiros a seu redor - mas a resposta de Assad ao movimento que ferveu nas últimas semanas no país poderá custar a boa vontade daqueles que ainda o veem como um instrumento das mudanças. "O povo sírio não odeia necessariamente Assad", avalia Bilal Saab, especialista em Oriente Médio na Universidade de Maryland (Estados Unidos), que regularmente desenvolve boletins sobre a situação na Síria para funcionários do governo norte-americano. "Na verdade, muitos jovens sírios amam Assad. Mas ele é a cabeça do regime sírio corrupto e impopular, então a população síria está num paradoxo", analisa.

jakub dospiva/ctkProtestos na Síria foram reprimidos com violência nas últimas semanas. Manifestantes dizem que pelo menos 130 pessoas foram mortasProtestos na Síria foram reprimidos com violência nas últimas semanas. Manifestantes dizem que pelo menos 130 pessoas foram mortas
A onda de protestos iniciada em 18 de março pode representar o maior desafio ao governante de 45 anos, desde que ele assumiu o poder há 11 anos, após a morte do seu pai, Hafez Assad, passando a comandar um dos regimes mais autoritários do Oriente Médio. No dia 31 de março, Assad indicou comitês para investigar as mortes de pelo menos 70 civis durante os levantes que pediram o fim do estado de emergência na Síria, o qual perdura desde 1963. Os protestos irromperam no empobrecido sul da Síria, atingido por uma seca há anos, em Deraa, capital da região do Hauran, na fronteira com a Jordânia.

Assad frustrou expectativas de que poderia anunciar reformas quando discursou no Parlamento no dia 29. Sua reação desapontou muitos que esperavam concessões, após os extraordinários protestos em um país onde qualquer sinal de dissidência costuma ser imediatamente esmagado. Uma das principais reivindicações dos manifestantes é justamente um fim imediato do estado de emergência, que permite ao regime deter pessoas sem a apresentação de acusações formais na justiça.

Assad parece seguir uma estratégia que falhou com os líderes da Tunísia e do Egito, derrubados por revoltas populares após terem culpado estrangeiros pelos tumultos e oferecido pequenas concessões. Alguns críticos acreditam que a montagem de comitês para estudar reformas é apenas uma técnica para provocar um impasse.

Quando o turbilhão que varre o mundo árabe chegou à Síria, isso representou um duro golpe para Assad, um oftalmologista que estudou em Londres e que em janeiro afirmou que a Síria estaria imune aos protestos, porque ele estava em sintonia com as necessidades do povo. Assad mantém um nível de apoio popular que não é pequeno por causa das suas políticas anti-Israel, que encontram ressonância entre os sírios. Ao contrário dos líderes da Tunísia, do Egito, do Iêmen e da Jordânia, Assad não é um aliado dos Estados Unidos e por isso foi poupado das acusações de se curvar aos desejos de Washington.

Poucos na Síria exigem a renúncia de Assad. Muitos pedem por reformas, pela anulação das leis de emergência e por outras medidas de restrição, além do fim da corrupção. Muitos dos manifestantes dirigiram sua ira contra o irmão de Assad, Maher, que chefia a Guarda Republicana, e também contra o primo do presidente, Rami Makhlouf, que controla a operadora de telefonia móvel, a SyriaTel, bem como outras empresas lucrativas.

Aktham Nuaisse, um ativista pró-democracia, diz que Assad pode estar começando a perder apoio. "Certamente, existem forças poderosas que limitam Assad, pessoas dentro do regime que têm interesse em que a corrupção continue, bem como a opressão e o estado de emergência", afirmou. "Mas ele é o presidente da Síria, isso não pode ser uma desculpa para não levar adiante as reformas."

Bashar  não consegue conter revolta

Bashar Assad chegou ao poder aos 34 anos, no ano 2000, logo após a morte do seu pai, Hafez Assad. Hafez governou a Síria com mão de ferro por quase três décadas, de 1971 a 2000. Ele foi eleito, embora fosse o único candidato, num sufrágio do qual participou apenas o Partido Baath, governista. O velho Hafez havia escolhido seu filho Basil para sucedê-lo, mas Basil morreu tragicamente em janeiro de 1994 em Damasco, aos 31 anos, em um acidente de automóvel.

Antes da morte de seu pai, em 2000, Bashar não havia ocupado nenhum cargo público, nenhum posto de destaque no Partido Baath e nenhuma patente militar - todos os passos então considerados necessários para a liderança na autoritária Síria. A experiência de Bashar foi estudar oftalmologia em Londres, onde conheceu sua esposa, Asma, filha de pais sírios criada na capital inglesa. Hafez, contudo, preparou os arranjos para Bashar ocupar a presidência após o desaparecimento de Basil.

Os primeiros anos do governo de Bashar são geralmente considerados otimistas. Ele, lentamente, começou a mudar a economia, que operava num estilo soviético, deixando bancos estrangeiros entrarem no país, abrindo o mercado às importações e fortalecendo as empresas privadas sírias.

Os primeiros e tímidos passos de Bashar em direção às reformas levaram ao que foi chamado mais tarde de "Primavera de Damasco" - uma época onde ocorreu um debate político e social que seria impossível nos tempos de Hafez Assad. Surgiram salões onde as pessoas discutiam essas questões, bem como arte, cultura e literatura.

O jovem e quieto Bashar trabalhava em sua vantagem. O líder alto, com uma disposição suave, detesta ser cercado por guarda-costas. Ao contrário de outros governantes árabes, Assad dirige seu próprio carro sem um comboio de guarda-costas. Ele é visto frequentemente nos arredores de Damasco com sua bela esposa Asma - que teve um perfil publicado recentemente na revista Vogue - e os três filhos pequenos do casal. Eles vivem em um apartamento no bairro de alto padrão de Abu Rummaneh em Damasco, ao invés de morar em uma mansão fortificada, como fazem muitos governantes árabes.

Mas a "Primavera de Damasco" provou ter vida curta. Em 2001, a temida polícia secreta síria começou a fazer reides nos salões, levando para as prisões vários ativistas. Nos anos seguintes, Assad cada vez mais mergulhou nos métodos autocráticos do seu pai.

Presidente acena com fim das leis de emergência

Damasco (BBC) - O presidente da Síria, Bashar Al-Assad, anunciou na quinta-feira a criação de uma comissão para estudar o possível cancelamento das leis de emergência, em vigor no país desde 1963. O comitê deve apresentar suas conclusões no dia 25 de abril, de acordo com a agência de notícias Sana. "Seguindo uma diretriz do presidente Bashar Al-Assad, uma comissão de especialistas em leis foi formada para estudar novas regras para a segurança nacional e antiterrorismo, com o objetivo de pavimentar o caminho para acabar com as leis de emergência", disse a agência.

Assad admitiu a necessidade de reformas, mas disse que elas seriam feitas de acordo com o ritmo determinado por seu governo e não sob pressão. As leis permitem ao governo deter pessoas sem acusações, restringe encontros públicos e aglomerações e movimentos de pessoas, estão em vigor desde 1963 e são, segundo correspondentes, bastante impopulares.

O anúncio ocorre um dia depois que Assad prometeu derrotar uma conspiração contra o país, no primeiro discurso desde o início dos protestos na Síria, há duas semanas. Segundo analistas, os protestos se tornaram a maior ameaça ao regime de Assad, que substituiu seu pai, Hafez, após sua morte, em 2000.

A crise começou após a prisão de adolescentes que haviam pintado frases antigoverno em um muro na cidade de Deraa, no sul do país, e se espalhou rapidamente para outras províncias.

Ativistas e grupos de defesa dos direitos humanos afirmam que entre 60 e 130 pessoas morreram nos choques com as Forças de Segurança nas últimas semanas, mas o governo estima o número de mortos em cerca de 30.

Na sexta-feira, milhares de sírios tomaram as ruas das principais cidades, desafiando as forças de segurança, que entraram em confronto com os manifestantes. A polícia usou gás lacrimogêneo e cassetetes contra os civis em várias cidades, incluindo Deraa e Latakia. Mas os protestos foram reprimidos com maior violência na cidade de Duma, ao norte de Damasco, onde pelo menos nove pessoas foram mortas, disseram uma testemunhas.

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