Renata Moura - Repórter de EconomiaO projeto de implantar um complexo industrial para produzir energia, tinta, cimento, cloro e barrilha em Macau, detalhado pelo empresário Tersandro Milagres, em entrevista no domingo passado à TRIBUNA DO NORTE, divide opiniões no estado. De um lado, é visto de maneira positiva, por abrir perspectivas de gerar novos empregos e uma possível retomada para a Alcanorte, fábrica projetada há mais de 30 anos no RN para produzir barrilha - matéria-prima para produção de itens como vidros e detergentes - mas até hoje inativa. De outro, é considerado "inviável", por ter como espinha dorsal uma termoelétrica a gás, num momento em que o governo federal prioriza a geração de energia a partir de fontes renováveis.
Luciana Brasil
Fábrica da Alcanorte foi projetada nos anos 30 para produzir barrilha, mas até hoje está inativa
O ex-presidente da Federação das Indústrias do Rio Grande do Norte, Bira Rocha, lembra que o projeto é semelhante ao do Pólo Gás-Sal, esboçado quando esteve à frente da Fiern. No caso do Polo, a expectativa era produzir barrilha como insumo prioritário, mas também outros produtos como tintas e vernizes. O novo projeto nasceria para produzir os outros produtos primeiro e, numa terceira etapa, chegaria à barrilha. "Mas está ótimo o projeto. Merece aplauso. Só que é preciso atentar para o fato de que precisa de uma coisa básica para funcionar: o gás, para gerar vapor e energia. A Petrobras diz que não tem. Mas é preciso resolver isso. Porque, enquanto não tiver gás, não tem complexo industrial, não tem indústria".
É preciso ter um governo forte, que intervenha nisso, opina Rocha. "O governo tem que mostrar à Petrobras que a estatal também tem que atender os interesses do estado e não só o interesse dela própria", continua, se referindo ao fato de a Petrobras ter uma termoelétrica no estado e não ter o combustível necessário para abastecer o outro projeto. "A pergunta a se fazer é: o que é melhor para o estado, a Termoaçu (termoelétrica da Petrobras), ou o Complexo? Diria que é o complexo, que geraria uma série de outras indústrias no entorno, que é um projeto estruturante".
Para o secretário estadual de Desenvolvimento Econômico, Francisco de Paula Segundo, a quem o projeto foi apresentado pelo investidor no ano passado, o empreendimento seria positivo para o RN, mas é preciso que disputas jurídicas pelo controle da Alcanorte sejam resolvidas. "Fiquei encantado com o projeto porque abre a expectativa de fazer algo que tem mais de 30 anos (Alcanorte) funcionar, de gerar emprego e renda. Os olhos de que gestor não brilhariam diante disso? Mas a pendenga jurídica precisa ser resolvida. Nossa posição é que o grupo que vencê-la, que tiver um projeto sustentável, que vá trazer divisas para o estado, será apoiado. O governo está ansioso para ver aquilo funcionar".
O secretário de Energia e Assuntos Internacionais, Jean-Paul Prates, diz que, diante das disputas judiciais envolvendo a Alcanorte, a orientação da governadora Wilma de Faria é de que o caso seja estudado, que sejam compilados dados contendo o levantamento dos ativos físicos, financeiros e societários da empresa e que ao final disso tudo se obtenha o compromisso dos legítimos administradores de que irão fazer estudos de viabilidade e apresentar projetos viáveis para a revitalização da Alcanorte. "Queremos saber de fato quem fala pela empresa, quem administra, em que nós podemos ajudar e o que podemos buscar junto ao governo federal ou à Petrobras, por exemplo", explica.
O secretário avalia ainda o projeto apresentado por Tersandro Milagres como sendo "sem pé nem cabeça" e "defasado" por ser focado em uma térmica. "O projeto foi criado num momento em que o governo estava comprando energia produzida a gás, mas o próprio governo federal já tem anunciado que não incentivará mais térmicas a gás ou a qualquer combustível fóssil".
QuestionamentoO presidente da Alcanorte, Thiago de Souza Brasil Pinheiro, enviou e-mail à TRIBUNA DO NORTE questionando a legitimidade do contrato de arrendamento e os fatos detalhados pelo empresário Tersandro Milagres e por Herculano Caiado, diretor afastado da Alcanorte, que também foi ouvido para a reportagem de domingo. Segundo Thiago de Souza, Caiado não pode falar pela empresa, apresentar planos de investimento ou apoiar grupos empreendedores. Thiago de Souza reforça que a diretoria da qual faz parte foi legitimada pela justiça e que há uma decisão judicial afastando Aloísio Ramos Caiado e Herculano Ramos Caiado da administração da Alcanorte por problemas de gestão, de acordo com os agravos de instrumento de números 2009.0135508-7 e 2009.0135518-8. A reportagem tentou aprofundar a apuração sobre o aspecto judicial que envolve a Alcanorte, mas não obteve todos os dados necessários no site do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Norte até o fechamento desta edição.