Psicodermatologia: alopatia areata I
Publicação: 12 de Fevereiro de 2012 às 00:00
Rita de Cássia M. de Medeiros Homet Mir - psicodermatologista
"A multidão dos que não viveram o suficiente... Não é de uma carpideira que precisam, é de um adivinho. Precisam de um Édipo que lhes explique seu próprio enigma, cujo sentido não detém... É preciso ouvir palavras que jamais foram ditas,que ficaram no fundo dos corações ( perscrute o seu coração: elas estão lá ); é preciso fazer com que os silêncios da história falem. "
Jules Michelet ( citado por Joyce McDougall em Teatros do Corpo )
No artigo anterior comentamos a Acne sob um aspecto mais humano. Tentarei manter hoje esta mesma visão ao abordar a alopecia areata. Do mesmo modo não me deterei na etiopatogenia clínica, diagnósticos e diagnósticos diferenciais e tratamento, tanto tópico como sistêmico. Como conceito, segundo o Professor Dr. Rubem David Azulay, a Alopecia Areata caracteriza-se pela perda rápida e completa de pêlos em uma ou mais áreas do couro cabeludo ou em outras regiões (barba, perna,sobrancelha,etc.), medindo de 1 a 5 cm; a pele é limpa, sem menor vestígio inflamatório, e,na periferia, os pêlos destacam-se com facilidade e apresentam-se como pontos de exclamação ( pêlos telogênicos ). Na maioria das vezes, há regressão espontânea com repilação dentro de alguns meses; de outras vezes, entretanto, o processo progride atingindo todo o couro cabeludo ( alopécia total ) ou todo o corpo ( alopécia universal ).
Nosso objetivo é sempre tentar unir uma lesão orgânica a um ACONTECIMENTO PSIQUIÁTRICO, mesmo que este esteja RECALCADO, ou não tenha sido objeto de uma CATARSE ou seja , que tenha sido "trabalhado "até o surgimento de um "insight",o conhecimento profundo ( digo de forma alegórica que insight é aquela "luzinha" que se acende na cabeça do professor Pardal ). Pois bem, esta "luzinha" é a que traz o auto e alo conhecimento, quer dizer, a COMPREENSÃO do ACONTECIMENTO. Por isto, Cristo disse que só o conhecimento liberta. Sócrates, Buda, Freud, Pierre Marty, Joyce McDougall, Viktor Frankl, os existencialistas, os humanistas como Carl Rogers e os adeptos da Teoria Cognitiva, todos baseiam sua "praxis" sobre esta assertiva.
Eu sempre tentei, na minha prática médica, seguir este pensamento, porém reitero que nossa conduta era buscar, à exaustão, uma causa orgânica, pela bioquímica e outros exames complementares, pois mesmo tendo atuado como psiquiatra, seguia também a máxima de não psicologizar todos os casos: uma tentação a qual não podemos ceder de forma leviana.
Comentarei um caso que considero ilustrativo. M.V.R.,55anos de idade, sexo feminino, dona de casa, casada, apresentou placas de alopecia arredondada em todo o couro cabeludo, tornando-se quase total. Foi submetida a vários exames laboratoriais, onde não foi detectada nenhuma causa orgânica que pudesse ser responsável pelo quadro clínico. Relata que perdeu sua mãe quando nasceu e que foi criada pela avó materna. A infância foi feliz, apesar de, como narra a paciente, sentir tristeza, pois queria saber como era a sua genitora. É casada há trinta e um anos e diz que não é feliz com seu marido, pois o mesmo é dominador, não dispensa erros, nunca lhe deu liberdade para ter iniciativa e que tem a impressão dele ser o seu "carcereiro". Diz, ainda, que seu marido não gostava quando ela ficava grávida, mas que tiveram doze filhos e que há mais ou menos um ano, uma das filhas solteiras ficou grávida e que ele, o marido, culpou-a (a mãe ), "como sempre ", pelo "erro da filha" e que, a partir daí, começou a apresentar insônia. Queixa-se de que, até hoje, os problemas dos filhos são levados para casa e que o marido, atualmente, "não pega nem em sua mão "pois" sente medo de contrair a sua doença ".
A paciente chorou muito durante a entrevista e mostrou sentimento de menos valia.
Dada a evidência de depressão pela história clínica e excluída a hipótese de doença orgânica, foi administrado um psicofármaco com efeito antidepressivo e ansiolítico. Iniciamos concomitantemente,um trabalho psicotepêutico visando fortalecer o seu ego,reduzir a sua tendência à culpabilidade. Convidamos os filhos a participar de algumas orientações já que o marido se negou a comparecer.
Após três meses de tratamento, a paciente apresentou início de repilação em todo o couro cabeludo, que se completou ao cabo de seis meses. COMENTÁRIO: Observa-se que a paciente relatou uma vida conjugal repleta de queixas e vivências depressivas, com forte conteúdo castrativo. No entanto, o quadro dermatológico da paciente só veio à tona após mais ou menos trinta anos desse casamento, devido a um fato novo e agravante: a gravidez de uma filha solteira, fato que abalou as estruturas familiar e pessoal da paciente, pois esta foi verbalmente culpada, pelo marido, do ocorrido ( a gravidez da filha, de não lhe ter dado educação suficiente ). Assim sendo, cremos na importância da vivência de conteúdos negativos da paciente, mas o fato desencadeante, a gravidez da filha, é que , finalmente, precipitou os sintomas.
Em artigos anteriores falei que o organismo se deprime como um todo; diria que além desta afirmação, o EFEITO LIBERADOR e COMPREENSÃO de determinadas causas de Afetos Congelados são fatores primordiais na cura psicossomática,ou seja, procurarmos entender o momento deste SALTO MISTERIOSO do psiquismo sobre o corporal e ajudarmos o paciente a fazer exatamente o inverso, " converter em psíquico, em representações e em palavras aquilo que DRAMATIZOU em seu corpo.
Sabiamente, nosso filósofo cristão Teilhard de Chardin disse: "Salve-se quem souber" e Freud afirmou: "Ser consciente para sobreviver". No próximo artigo falarei de dois casos clínicos de alopecia areata infantil. Dois casos comoventes. Desejo feliz domingo e, se Deus assim o permitir, nos reveremos com a segunda parte deste artigo.