O movimento nas ruas denuncia o tempo que passou. Mas também pode ser medido em números. Cada metro de tubulação para o saneamento ou melhoria no nível de qualificação, além do aumento ou diminuição da renda familiar de cada um, estará nos questionários dos 650 recenseadores responsáveis por desbravar os detalhes da população natalense no Censo 2010. Ontem, as equipes iniciaram o trabalho em Mãe Luiza, encontrando um bairro mais organizado do que o registrado no último Censo, em 2000. Mas ainda não livre de problemas.
Júnior Santos
Recenseador visita a casa da aposentada Percília Silva, que não estava informada sobre o Censo
A equipe de entrevistadores do IBGE iniciou o trabalho por volta das 10h, sob os olhares curiosos da população. A maioria não estava ciente ainda da existência do Censo. E muitos não entendem a importância do levantamento de dados. Percília Silva, de 73 anos, foi a primeira entrevistada. Espantada, Percília foi informada do motivo da visita fora de hora. Não sabia da existência do Censo e nem lembrava de ter respondido aquelas perguntas anteriormente. Assim como outros, respondeu o questionário básico. "Uma das maiores dificuldades é conseguir encontrar o responsável pela casa e ser recebido. A entrevista não pode ser feita com adolescentes ou crianças, por exemplo. O entrevistado precisa ter ciência da situação das pessoas da casa", diz Márcia Braga da Mata, responsável por um dos postos de coleta do IBGE.
O primeiro questionário, básico, é aplicado para toda a população, com cerca de 30 itens. Características da casa onde mora, saneamento, renda, nível escolar são os principais pontos aferidos na entrevista. Um segundo questionário, bem mais detalhado, será aplicado a 5% da população natalense. A cada 10 entrevistas mais simples, uma detalhada é feita. Será nesse segundo tipo de entrevista que as características mais aprofundadas devem ser levantadas. E, com isso, as mudanças mais significativas na vida do brasileiro estarão disponíveis para análise.
Tomem como exemplo o caso de Mãe Luiza. As respostas de pessoas como dona Percília são suficientes para identificar as transformações do bairro. "Tem gente aqui hoje que eu nem conheço mais", diz a aposentada de 73 anos, que vive com o dinheiro da previdência. O depoimento é um flagrante do crescimento do bairro. Analisando os dados obtidos no último Censo e nas contagens populacionais do IBGE, registra-se a tendência de aumento da população. Eram cerca de 16 mil, no ano 2000. Em 2007, a contagem chegou a 16.676. Nos anos seguintes, a projeção é que esse número tenha passado das 17 mil pessoas.
Quando se fala em infra-estrutura, o veredito é o mesmo. Em termos de saúde, por exemplo, na época da aplicação do Censo 2000, não havia ainda pronto-atendimento no bairro. Hoje existe, mas não funciona a contento, segundo moradores. "Os dois maiores problemas do bairro hoje é a falta de médicos no posto de saúde e o fechamento das turmas da noite nas escolas estaduais do bairro", diz Wlineide Nascimento, presidente do Centro Social Padre João Perestrello. No que diz respeito ao saneamento e à drenagem, problemas tradicionais, percebe-se a melhora significativa. O saneamento está praticamente concluído, assim como a drenagem (95%) e a pavimentação (98%). A segurança, outro ponto negativo tradicional e preconceituosamente ressaltado, continua como um dos principais problemas. Mas moradores asseguram que "melhorou".
De refúgio para a população de baixa renda desde o início da década de 60, passando pelo estigma da insegurança e da favela, até a década de 90, e chegando à respeitosa alcunha de comunidade em dias atuais, Mãe Luiz navega nos números do IBGE. Há necessidade de mais postos de saúde? Escolas? A renda dos habitantes tem crescido desde o ano 2000? São respostas possíveis somente com o Censo 2010. E, embora muitos dos moradores da área ainda não entendam, serão as respostas os norteadores do desenvolvimento do bairro para os próximos 10 anos. Ou assim deveria ser.
Equipes adotam simultaneidadeO início das entrevistas na zona Leste de Natal por Mãe Luiza se deve muito mais a um lance do acaso que a uma estratégia metodológica. A intenção do IBGE, de acordo com a metodologia escolhida, é realizar as visitas aos domicílios simultaneamente em todos os setores censitários. Setor censitário significa a área de responsabilidade de cada recenseador.
Para facilitar o trabalho, as cidades foram divididas em setores, onde cada recenseador precisa realizar as entrevistas até outubro. Os setores tem um número variado de domicílios. Alguns tem menos de 300 casas no itinerário e outros mais de 500. A estrutura organizacional do IBGE coloca nove recenseadores sob a responsabilidade de um supervisor. E nove supervisores sob a responsabilidade de um agente censitário municipal. Os agentes ficam responsáveis por um posto de coleta, com nove supervisores e 63 recenseadores. Natal tem oito postos de coleta, sendo quatro na Zona Norte, responsáveis também pela Zona Oeste, e quatro na Zona Sul, responsáveis também pela Zona Oeste. Munidos de coletes azuis e um computador de mão, os recenseadores fazem as visitas, fiscalizados pelos supervisores.
Um dos principais cuidados é com a veracidade das informações. Não se trata de flagrar mentiras. Mas observar se os recenseadores conseguem "pescar" as informações. A reportagem acompanhou duas visitas e percebeu a dificuldade. A linguagem utilizada pelo questionário é técnica. São vocábulos comuns aos especialistas em estatística. Mas estão distantes do cotidiano da população. Em determinado momento, o recenseador, YYY, perguntou a dona Percília: "O domicílio em que a senhora reside é próprio?". Ela demorou para entender. A substituição da palavra "domicílio" por "casa" atenuaria o problema. Em alguns momentos, houve confusão de dados, todos corrigidos após outras perguntas.
Terminada a entrevista, os dados são enviados na mesma hora para o posto de coleta e, de lá, para a central do IBGE. Não há papel no Censo 2010. Tudo é digitado em um computador de mão e enviado eletronicamente. "Esse é o primeiro censo totalmente digital do IBGE", diz Márcia Braga. O resultado do Censo 2010, pelo imediatismo da coleta, ficará pronto praticamente no mesmo dia em que for enviado o resultado da última entrevista.