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Natal, 24 de Maio de 2012 | Atualizado às 09:06

Redução da maioridade penal volta a ser discutida

Publicação: 03 de Novembro de 2011 às 00:00
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Os defensores dos direitos humanos de crianças, adolescentes e jovens voltam a se mobilizar em torno de uma discussão que, esperava-se, já tinha sido definida: o Congresso Nacional retomou a pauta em torno da redução da maioridade penal, como suposta solução para combater o aumento da violência no País. Aliada a proposta, uma pesquisa realizada pelo Ibope em parceria com a Confederação Nacional da Indústria - CNI, aponta que 75% dos brasileiros são favoráveis à redução. Mais uma vez tenta-se colocar embaixo do tapete um problema sério e complexo, que precisa de uma discussão mais ampla e aprofundada na busca de solução.

DivulgaçãoPoder público deve garantir ressocialização de adolescentes infratoresPoder público deve garantir ressocialização de adolescentes infratores
De acordo com levantamento da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, no Brasil hoje existem 18.703 adolescentes em conflito com a lei cumprindo medidas socioeducativas. Deste total, 12.041 em medida de internação, 3.934 em internação provisória e 1.728 em cumprimento de medida de semiliberdade. A pesquisa mostrou ainda que em 2010 houve uma quebra da tendência de queda de internações que vinha ocorrendo desde 2007, sendo registrado um crescimento de 4,5 % no numero de internações.

O fato é que, no momento em que se discutia a definição de metodologias, de políticas publicas eficientes e eficazes para tratar a questão, quando no próprio Congresso, deputados e senadores debatem o Sistema Nacional de Atendimento Sócio-Educativo e o Plano Nacional de Convivência Familiar e Comunitária, eis que ressurgem propostas mais fáceis e cômodas para tratar o problema, afinal, diminuir simplesmente a idade para que adolescentes que cometeram infrações possam ser presos, numa realidade em que as prisões estão superlotadas e não ressocializam ninguém, é a mesma coisa que afirmar que estes sujeitos não têm solução e que estão destinados à marginalidade.

Para o coordenador do Programa de Cidadania dos Adolescentes do UNICEF Brasil, Mário Volpi, "Os parlamentares estão apresentando uma falsa solução para um problema muito complexo. Os projetos focam o agravamento de pena e a redução da idade como se enviar um adolescente de 14 ou 16 anos para o sistema penal de adultos fosse resolver o problema da violência. Ao contrário, ao inserir precocemente o adolescente no sistema penal de adultos, reduz-se a perspectiva deste adolescente interromper sua trajetória no mundo do delito e alimenta-se um sistema já ineficiente, incluindo nele jovens que serão submetidos aos grupos do crime organizado. Além disso ao impor aos adolescentes um sistema de justiça dos adultos, negligencia a responsabilidade do Estado, da sociedade e da família em assegurar os direitos de cada criança e adolescente".

A mesma opinião é compartilhada pela integrante da Secretaria de Direitos Humanos, Thelma Oliveira. "O espírito do Estatuto da Criança e do Adolescente é de aposta no aprendizado a partir do erro, na perspectiva de restituir direitos e de criar de oportunidades educativas, formadoras e emancipatórias. Abrir mão disso é desistir muito rápido, é optar pela mão pesada da pura punição ao invés de apoiar e ajudar o adolescente na construção de um novo projeto de vida.

Assim, o ECA ao mesmo tempo que abre uma esperança para cada sujeito, abre uma esperança para a sociedade toda. A redução da maioridade penal acaba por criar maior vulnerabilidade e exposição ao risco de violência de significativa parcela da adolescência brasileira, antecipadamente, sem muitas vezes ter dado a chance de superação dessas condições", defende.

Ao invés de discutir pura e simplesmente a redução da maioridade penal, deveria se debater as graves violações de direitos nas unidades de internação socioeducativa. É fundamental avançar na definição de uma política de atendimento que garanta estruturas, procedimentos e recursos humanos e orçamentários adequados em todas as fases do processo, desde a prevenção, a captura, o julgamento e a ressocialização.

Levantamento da Secretaria Nacional de Direitos Humanos aponta a ocorrência de graves violações de direitos nas unidades de atendimento, como ameaça à integridade física, violência psicológica, maus-tratos e tortura, além de negligência relacionada ao estado de saúde dos adolescentes.. Há ainda denúncias de jovens privados de liberdade em locais inadequados, como delegacias, presídios e cadeias. A rede física atual, segundo o levantamento da SDH, está composta por 435 unidades, sendo 305 para atendimento exclusivo de programas.

Legislação impõe medidas socioeducativas

"Os oito meses que passei preso quase que me enlouquecia". A frase de um adolescente que passou por medida socioeducativa de internação demonstra bem o que isso representa na vida de uma pessoa. No entanto, o Governo precisa investir e qualificar os centros de atendimento, de forma a garantir uma ressocialização adequada. As medidas socioeducativas são aplicadas pelo Estado aos cidadãos entre 12 e 18 anos incompletos que cometem ato infracional. Elas têm caráter pedagógico-educativo e visam inibir a reincidência dos adolescentes em ações consideradas inadequadas ao convívio social. A aplicação das medidas leva em consideração as circunstâncias e a gravidade da infração praticada e, dessa forma, pode ser classificada em seis diferentes grupos:

- Advertência - Repreensão verbal aplicada pela autoridade judicial, em que deve estar presente o juiz e o membro do MP.

- Obrigação de Reparar o Dano - Ocorre com fins de devolução, ressarcimento e compensação do prejuízo.

- Prestação de Serviço - O adolescente realiza tarefas gratuitaspara a sociedade. O prazo não pode ser superior a seis meses e ou ter uma jornada máxima de oito horas semanais.

- Liberdade Assistida - Impõe obrigações ao adolescente, que deve ser acompanhado em suas atividades diárias (escola, família e trabalho) de forma personalizada.

- Semiliberdade - É a privação parcial da liberdade, em que o adolescente realiza atividades externas durante o dia e é recolhido ao estabelecimento apropriado no período noturno, com acompanhamento de um orientador.

- Internação - É a mais grave e complexa das medidas socioeducativas. Ela deve ser aplicada somente nos casos de grave ameaça ou violência à pessoa, de reiteração no cometimento de infrações e de descumprimento da medida proposta anteriormente.

Debate já está no Congresso Nacional

Este ano o tema da redução da maioridade penal voltou a ser alvo de debates no Congresso. Deputados e senadores desarquivaram Propostas de Emenda à Constituição (PECs), sugerindo a diminuição da maioridade penal como estratégia para reduzir a violência no País. Levantamento realizado pela Agência de Notícias pelos Direitos da Infância (ANDI) aponta que, no Senado, dois processos tratando do tema voltaram a tramitar: a PEC 90/2003 e a PEC 20/1999.

A PEC 90/2003, de autoria de Magno Malta e outros senadores, foi desarquivada em abril de 2011 e aguarda designação do relator da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ). A proposta inclui parágrafo único no artigo 228, da Constituição Federal, para considerar penalmente imputáveis os maiores de 13 anos que tenham praticado crimes hediondos.

A PEC 20/1999, de autoria do ex-senador José Roberto Arruda, desarquivada em março deste ano pelo senador Demóstenes Torres (DEM-GO), já havia sido aprovada pela CCJ em 2007, por 12 votos a 10, com uma emenda propondo nova redação ao texto original (Substitutivo). A proposta defende a redução da maioridade penal para 16 anos nos casos de crime hediondo, tráfico, tortura e terrorismo, se atestada a plena capacidade de entendimento do adolescente sobre o ato ilícito. Uma junta designada pelo juiz seria responsável pelo laudo psicológico.

Na Câmara, em julho deste ano, o deputado André Moura (PSC-SE) apresentou a PEC 57/2011 sugerindo a redução da maioridade penal. Em fevereiro, o deputado Marçal Filho (PMDB-MS) já havia desarquivado a PEC 321/2001, com proposta similar. Outras 30 proposições com teor semelhante estão "apensadas" (tramitam em conjunto) à PEC 171/1993, de autoria do deputado Benedito Domingos (PP-DF).

Argumentos

UNICEF é contra diminuição da idade penal. Veja Argumentos:

- É incompatível com a doutrina da proteção integral, presente no ECA, na Constituição e em documentos internacionais.

- É inconciliável com o Sistema Nacional de Atendimento Socioeducativo (Sinase), um conjunto de princípios administrativos, políticos e pedagógicos que orientam medidas socioeducativas em meio aberto ou fechado.

- É inconstitucional.

- Viola Cláusula Pétrea (imutável) da Constituição.

-  Afronta compromissos internacionais, que constitucional.

- Está na contramão do que discute a comunidade internacional, que tende a diminuir a severidade das respostas penais, a fim de reduzir seus efeitos negativos.

- As propostas de redução da idade penal se sustentam na exceção, pois o percentual de adolescentes autores de crimes de homicídio é minoria entre os adolescentes internados no país.

- Quando aplicado, o ECA apresenta bons resultados.

- A associação da violência com elementos como a desigualdade social, o racismo, a concentração de renda e a insuficiência de políticas sociais não se resolve com adoção de leis penais mais severas, e sim exigem medidas de natureza social que diminuam a vulnerabilidade de adolescentes diante do crime e da violência.

(Fonte: UNICEF)


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comentários

cidespe@...03/11/2011 @ 00h23
O problema é colocar em prática o Estatuto da Criança e do Adolescente. Nossos políticos são, em sua maioria, cabrechos da elite dominante que acentuam a desigualdade econômica e social no país. Para essa classe é mais fácil excluir do que integrar as pessoas num processo de inclusão e de humanização. As crianças e adolescentes são alvo do descaso de nossos governantes e da classe política que só quer ganhar seu gordo salário todo mês e deixar o povo à revelia. Só é a favor da redução da maioridade penal que tem algum interesse espúrio nisso ou é alienado.
digd10@...02/11/2011 @ 23h05
Sou totalmente a favor da redução da maioridade penal. Nos países desenvolvidos menores de 18,14,13 anos vão presos. É preciso dá um basta na violência. Claro que os presídios precisam passar por uma revolução: Preso tem que trabalhar.
iara.guedes@...02/11/2011 @ 22h40
Esses nossos representantes são criaturas de uma sensibilidade ímpar. Ao invés de discutirem propostas de melhoria do ensino no país, de condições de trabalho e salários dignos, melhorias no SUS e alimentação adequada, ficam trazendo a tona uma proposta de criminalização de adolescentes que apenas sobrevivem em meio a uma sociedade que os exclui de qualquer participação e os trata como meros objetos (meninos servem ao tráfico e meninas como prostitutas). Ao invés de puní-los deveríamos lutar por mais proteção, porque a miséria que os leva ao crime tb é nossa responsabilidade.
rosevaldo.pinho@...03/11/2011 @ 12h17
Voltar a discutir a redução da maioridade é prova de que o estado democrátido de direito está sendo levado a sério, pois o estatuto do menor e adolecente, já não atende aos anseios da sociedade. O estatuto na forma que está, colocando o menor infrator fora do alcançe da justiça, torna a sociedade refém das quadrilhas que se especializaram em arregimentar menores para ssumirem a responsabilidade por delitos cometidos por maiores de idade. Por outro lado, é importante ressaltar que a simples diminuição da maioridade não soluciona o problema, devendo o estado preocupar-se em prevenir através da educação e realilitar através da promoção da qualidade de vida. Chega de hipocrisia, vamos dar um basta a impunidade e vamos debater, exaustivamente, o assunto de forma a tomar-mos uma decisão madura e consistente. Vamos reduzir a maioridade sim.
grande__m@...03/11/2011 @ 11h27
as duas rotas devem ser seguidas: forte investimento na educação das crianças e adolecentes pobres, incluindo alimentação, saúde, artes, esportes, religião e lazer de qualidade e redução da maioridade penal. Agora, jogar os adolescentes em centros de internação, nos moldes em que funcionam, é chaciná-los moralmente, fulminando suas esperanças de felicidade. Será que os Juízes das varas da criança e do adolescente já visitaram o CEDUC? Por que os Deputados, Vereadores, a Governadora e a Prefeita não põem seus filhinhos em escolas municipais? Os pobres por que nasceram, né? Azar deles.
zilime@...03/11/2011 @ 10h53
Pq gde parte dos politicos brasileiros saem p/ tangente qto aos problemas do país? Onde está o fator estruturante gerador da marginalização social de nossas crianças e jovens? Naturalmente na ausência ou deficiência estrutural, históricas, de politicas públicas adequadas nas áres de educação, esporte, cultura, lazer, profissionalização, etc, para as crianças e adolescentes e suas famílas. São responsável por isso politicos q sempre estiveram no poder e não fizeram nada, exatamente esses hoje querem atacar o problema pela consequência e não pela origem. Avaliem o passado de cada um deles...
julguilherme@...03/11/2011 @ 09h16
O Sistema é falho e ainda coloca a mão na cabeça de um menor infrator! Isso tem que mudar. Error tem que pagar. Não é justo os direitos humanos dá apoio a um desumano que mata um cidadão de bem que o verdadeiro humano e a família não recebe nenhum apoio não. Já o Estatuto é um verdadeiro cobertor para o menor infrator como fosse o coitadinho da história. Esta Lei não é justa para que é certo. Então, cadeia neles!!! Porque não tem programa que recupere desumano não.
frank23112003@...03/11/2011 @ 11h31
E muito bonito falar que as crianças são usadas para o crime por causa da miséria nas comunidades, se isso fosse verdade não tinha crianças que estão nas escolas, se educando e aprendendo a ser um cidadão de bem. Quando a semente e ruim não tem jeito. Falar de respeito às crianças e adolescentes como os representantes dos direitos humanos e muito bonitos, gostaria de saber como eles se sentia se um filho ou qualquer pessoa de sua família fosse uma vitima de assalto, estupro ou assassinado de um menor. Como eles reagiriam? Culpa o governo só e fácil demais, quando uma educação começa em casa com os pais.
jps.fisica@...03/11/2011 @ 14h22
Esse negócio de medidas sócio-educativas é balela, isso não funciona. Nosso país não alcançou nem está nem perto de ter educação compatível com tais medidas. Países bem mais desenvolvidos e mais ricos que o nosso tem lei de maioridade entre 14 e 16 anos, mas o Brasil, o Brasil gosta de aparecer, e gosta de aparecer nas piores coisas. Por exemplo, o ECA fede, este estatuto é uma porcaria, é uma fábrica de assassinos legalizados, sob a égide do estado brasileiro! Os pretensos juristas pseudo intelectuais que idealizaram tal porcaria, não são intelectuais mas, sim, um monte de estrume.
nestor.souza1@...04/11/2011 @ 06h32
CONCORDO PLENAMENTE COM O LEITOR frank23112003@... SE A MISÉRIA FOSSE JUSTIFICATIVA PARA ESSE TIPO DE PROBLEMA AS PESSOAS QUE RESIDEM NOS LOCAIS MENOS FAVORECIDOS DO PAÍS A EXEMPLO DO SERTÃO NORDESTINO TODOS SERIAM MARGINAIS, NO ENTANTO NA PRÁTICA NÃO É ISSO QUE TEMOS VISTO. AQUELES QUE NÃO QUEREM MUDANÇAS NO ATUAL CÓDIGO DOS "ABORRECENTES", OU TEM RABO PRESO OU ESTÁ GANHANDO ALGUMA COISA. CHEGA DE HIPÓCRISIA. NÃO SÓ DEFENDO A REDUÇÃO DA MAIORIDADE PENAL COMO O CUMPRIMENTO DA LEI.
paineto@...04/11/2011 @ 06h00
Aos hipócritas que são contra a redução da maioridade penal eu tenho uma indagação: SÓ ACREDITO EM VCS QUANDO TIVEREM UMA MÃE, UMA IRMÃ OU UM FILHO ASSASSINADO CRUELMENTE POR UM MENOR...só assim terei certeza que vcs são convictos em seus argumentos. Os adolescentes sabem muito bem o que fazem, são cruéis na hora de matar, sabem fazer sexo, sabem votar, então porque não podem pagar por seus crimes??? MEDIDAS SOCIOEDUCATIVAS são transformam um monstro numa pessoa de bem, isso é conversa fiada. E o ECA é igual a sua sigla, um ECA de nojo.
edna71oliveira@...04/11/2011 @ 00h17
Isso é um descalabro!!! Nem em hospital se mistura criança e adolescente com adulto. Esses adolescentes vão fazer graduação, mestrado e doutorado em criminologia dentro dos presídios do Brasil. Ai sim vai virar tudo um inferno, sangue novo com vontade de mostrar serviço. Deus ajude a sociedade brasileira.
sumaiaferreira@...04/11/2011 @ 16h30
Concordo com todos os argumentos da unicef do eca e etc,porém a de se observa que as leis de defesa da criança e do adolescente foram criadas p/ garantia de direitos e proteção desses,o que ñ é isso que acontece só vimos a lei existir de fato quando é pra por na rua um marginal assassino desfasado de adolescente que sem e piedade tira a vida de alguém; arrasta bebê pela rua ate a morte, estupra,roubam, agride sem nenhum sinal de arrependimento. sou a favor da redução da maioridade porém ñ devemos aceitar a hipocrisia desses governantes que são os maiores contribuintes dessas violências.
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