Relatório da PF confirma a existência do Mensalão
Publicação: 03 de Abril de 2011 às 00:00
O Mensalão, esquema de compra de votos de parlamentares na Câmara dos Deputados, considerado a maior crise política enfrentada pelo governo do ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva, existiu. E quem diz isso é a Polícia Federal, em seu relatório final de 332 páginas, que encerra os seis anos de extensas investigações conduzidas por delegados, agentes e peritos especializados no combate ao crime organizado.
A informação é da Revista Época, que teve acesso ao documento e informou que a peça já está sobre a mesa do procurador-geral da República, Roberto Gurgel, e deverá seguir em breve para o gabinete do ministro Joaquim Barbosa, o relator do caso do mensalão no Supremo Tribunal Federal (STF). O presidente Luís Inácio Lula da Silva é citado no relatório como um dos beneficiários do esquema, uma vez que o então segurança, Fred Godoy, que trabalha com o líder petista desde a campanha de 1989, confessou à PF que recebeu R$ 98 mil de Marcos Valério. Disse que se tratava de pagamento dos serviços de segurança prestados a Lula na campanha de 2002 e durante a transição para a Presidência.
A equipe comandada pelo policial Luís Flávio Zampronha, delegado que coordena o caso desde o início e integra a divisão de Repressão a Crimes Financeiros, vasculhou centenas de contas bancárias, esmiuçou dezenas de documentos internos das empresas envolvidas no esquema e ouviu cerca de 100 testemunhas. O trabalho se deu face determinação do ministro Joaquim Barbosa. O objetivo era produzir provas acerca dos pontos que não haviam sido contemplados nas investigações da CPI dos Correios e da Procuradoria-Geral da República.
Entre as principais dúvidas do ministro estavam se o mensalão foi financiado com dinheiro público, se houve mais beneficiários do valerioduto, e qual era o limite da influência de Marcos Valério no governo petista. A resposta da PF às duas primeiras perguntas é sim, sem dúvida. A resposta à terceira: Nenhum.
Além do envolvimento de Lula, os peritos da PF verificaram que direta ou indiretamente, seja por meio de assessores ou de familiares, em campanhas políticas ou no exercício do mandato, há outros envolvidos que ainda não apareceram nos holofotes, mas que receberam dinheiro do valerioduto. É o caso do ministro do Desenvolvimento, Fernando Pimentel, do PT, e o líder do governo no Congresso, o senador Romero Jucá, do PMDB. Descobriu-se também, ou se conseguiu confirmar, a participação de mais sete deputados federais, dois ex-senadores e um ex-ministro. São eles: os deputados Vicentinho (PT/SP), Jaqueline Roriz (PMN/DF), Benedita da Silva (PT/RJ), João Magalhães (PMDB/MG), Lincoln Portela (PR/MG) e José Mentor (PT/SP); o prefeito de Osasco, Emídio de Souza; o ex-senador Mário Calixto; o ex-senador Mário Calixto; o ex-ministro do PSDB, Pimenta da Veiga. Além deles também aparece no novo relatório o ex-presidente da Codefat (Conselho Deliberativo do Fundo de Amparo ao Trabalhodor), Lourival Dantas; dos jornalistas Gilberto Mansur e Luiz Lanzetta; o empresário e genro do ex-senador Marco Maciel (DEM/PE), Domingos Guimarães; e do ator Paulo Betti.
Ainda segundo a revista, das dezenas de novos beneficiários identificados, o mais representativo é Freud Godoy. O segurança pessoal de Lula ficou conhecido na campanha de 2006, quando recebeu de Lula a alcunha de Aloprado, em razão de seu envolvimento com a turma que foi presa num hotel de São Paulo, tentando comprar um dossiê contra o tucano José Serra. Freud não é apenas segurança de Lula. É amigo do ex-presidente, relação que nasceu nos anos 80 e sobrevive até hoje. Até o episódio dos aloprados, onde quer que Lula estivesse, lá estava Freud. Em 1998, Freud profissionalizou seus serviços e criou uma empresa. No escândalo dos aloprados, descobriu-se que essa empresa, a Caso Comércio, recebeu R$ 98 mil da SMP&B, uma das agências de Marcos Valério. O pagamento dera-se em 21 de janeiro de 2003. Diante das operações bancárias nas contas do publicitário, poderia haver uma explicação plausível e legal para a transação. Algum serviço poderia ter sido prestado normalmente. Quando essa informação veio a público, porém, Freud e Marcos Valério silenciaram sobre o motivo do pagamento.
Os delegados da PF foram atrás de Freud - e ele narrou, em depoimento, que o dinheiro serviu para cobrir parte dos R$ 115 mil que lhe eram devidos pelo PT, em razão dos serviços prestados durante a campanha presidencial de 2002. Segundo Freud, tratava-se de despesas de "segurança, alimentação, transporte e hospedagem de equipes de apoio".
O relatório da Polícia Federal confirma, assim, as investigações da CPI dos Correios e do Ministério Público. Foram cinco partidos, dezenas de parlamentares, centenas de contas bancárias, investigadas e analisadas pelos agentes da PF.