Valdir Julião - repórter
Residência médica é, praticamente, uma atividade nova dentro da rede hospitalar do Estado, com a capacitação de profissionais de médicos recém-saídos das Universidades em três áreas distintas, uma das quais, já enfrenta um problema: a pediatria, com a falta de candidatos.
Este ano nenhum acadêmico respondeu à convocação feita pelo hospital pediátrico Maria Alice Fernandes, localizado no Parque dos Coqueiros (zona norte de Natal), onde é feita a residência médica de pediatras. "Não entrou ninguém em 2009, quando era para termos pelo menos três residentes", informou a diretora geral da unidade hospitalar, médica Lana do Monte Brasil.
Elisa Elsie
Hospital Maria Alice convocou residentes em pediatria , mas não apareceram candidatos interessados
Por isso, diz ela, atualmente não existe residente de primeiro ano no Hospital Maria Alice Fernandes, num curso que é realizado em dois anos.
No entanto, continuou Lana Brasil, no primeiro ano da residência pediátrica, em 2006 apareceram dois candidatos, no ano seguinte e em 2008, idem.
"O problema é de mercado, estão oferecendo poucas oportunidades aos pediatras", declarou a diretora do hospital Maria Alice, apesar de "existir uma demanda de atendimento muito grande".
De todo o modo, ela explica que o hospital Maria Alice abriu condições para que o profissional que tem uma formação geral, "mais generalista", faça uma residência médica em pediatria, que antes ele tinha de procurar fora do Rio Grande do Norte.
Segundo ela, em dezembro o Hospital Maria Alice Fernandes vai preparar o edital para uma nova convocação de acadêmicos de Medicina, que desejarem fazer residência em pediatria. "As provas serão em janeiro", avisa.
Lana Brasil informou ainda que o hospital Maria Alice Fernandes tem um intercâmbio com o Hospital Pediátrico Heriberto Bezerra (Hosped), vinculado à Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), com vistas à atuação dos residentes. Enquanto no primeiro hospital não existe laboratório, no outro não tem Unidade de Terapia Intensiva (UTI).
Já a prática dos residentes em cirurgia infantil é realizada no hospital Walfredo Gurgel, que foi a segunda unidade da rede hospitalar estadual a abrir residência médica, em cirurgia geral.
Presidente do Sinmed explica o desinteresse dos estudantesO presidente do Sindicato dos Médicos (Sinmed), Geraldo Ferreira, confirma que há, realmente, "uma preocupação muito grande com aquelas especialidades clínicas, que não têm procedimentos cirúrgicos ou exames clínicos", como ocorre em relação aos pediatras.
Geraldo Ferreira reforça que essa falta de residentes médicos não é só uma questão relacionada ao Hospital Maria Alice Fernandes, porque no Hospital Pediátrico Heriberto Bezerra, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), também "existem dificuldades de preenchimento das vagas para a residência médica".
Ferreira diz que o problema não é só no Rio Grande do Norte, é no Brasil todo, inclusive em outras especialidades, como neurologia e clínica médica: "O fato crucial é que esses profissionais são poucos valorizados financeiramente, pois recebem R$ 30,00 por uma consulta, enquanto um exame custa 20 ou 30 vezes mais que isso".
Para Ferreira, é preciso se fazer um trabalho muito forte de valorização do atendimento primário, "que é a consulta médica". Ele conta que em Brasília houve um descredenciamento coletivo dos pediatras e a categoria conseguiu passar o valor da consulta para R$ 80,00, "o que é mais aceitável".
Esses profissionais, segundo Ferreira, não estão tendo nem como manter um consultório particular, pois tem aquela premissa de que, num prazo de 30 dias, o paciente que foi consultado a primeira vez pode "fazer o retorno" mais de uma, duas e até dez vezes e não se cobra nada por uma nova consulta, que torna o valor da primeira insignificante, "quase uma gorjeta".
"Tudo é uma questão de economia de mercado, na hora que se valorizar o profissional, ele vai aparecer no mercado", disse Ferreira, que explicou não ser essa uma questão só do poder público, mas também do sistema privado de saúde: "Os planos de saúde também remuneram muito mal".
Ferreira acha que a situação desses profissionais "precisa ser revertida urgentemente", para que o mercado fique mais atrativo - "senão quem vai pagar o preço é a sociedade".
Segundo Ferreira, no âmbito da saúde pública, por exemplo, "nem plantão de neurologia tem mais no Hospital Walfredo Gurgel, onde um paciente que chega com problema neurológico é atendido, inicialmente, por um clínico geral. "O neurologista vem e atende no outro dia", diz ele, porque existe deficiência de profissionais dessa especialidade em Natal. "E a pediatria está cada vez mais escassa de profissionais, se não houver atrativo econômico, lamentavelmente a perspectiva é de ter cada vez menos", finalizou.
Coordenador defende capacitação técnica dentro dos hospitaisO coordenador da residência médica do Hospital Walfredo Gurgel, cirurgião Henrique José Mota, considera muito importante que o profissional médico, recém-saído das Universidades, passe por uma capacitação técnica dentro dos hospitais, antes de ingressar no mercado de trabalho.
Henrique Mota diz que isso já é uma exigência da sociedade atual, pois quem tem um parente enfermo quer vê-lo entregue a um profissional competente e capacitado.
Para Mota, alguns atributos exigidos de um profissional, como humanidade e prestação de um bom atendimento, são adquiridos durante a formação pessoal e familiar do indivíduo, mas tem coisas que só a capacitação técnica pode oferecer a esse profissional.
Com a experiência adquirida ao longo do exercício da profissão, segundo Mota, o médico vai adquirindo o conhecimento técnico necessário para atender melhor o seu paciente. "Mas ele tem de ter um treinamento, apesar do curso de Medicina ser muito puxado, o prazo é muito curto", avalia ele, quando há necessidade do profissional ter uma qualificação na prática, dentro dos hospitais.
Segundo Mota, o desenvolvimento científico e tecnológico exige cada vez mais preparo dos profissionais, que "precisam se manter atualizados", inclusive no manuseio de modernas máquinas hoje usadas no campo da Medicina.
Em janeiro, avisou ele, serão abertas mais seis vagas para a residência de cirurgia clínica no Hospital Walfredo Gurgel. "As provas são elaboradas em conjunto", disse Mota, a respeito do concurso para residência do HWG e mais os hospitais Psiquiátrico João Machado e Pediátrico Maria Alice Fernandes.
Mota diz que o sistema público de saúde não exige tanto, mas, pessoalmente, ele acha que o médico contratado, por exemplo, para prestar serviço no Programa Saúde da Família (PSF), devia obrigatoriamente participar de uma capacitação, "pois existe a residência comunitária".
A diretora geral do Hospital Maria Alice Fernandes, médica Lana Brasil, vai além, achando que devia ser exigida a presença de um pediatra no PSF, coisa que hoje não é exigida. Uma criança que precisa de atendimento do PSF, segundo ela, é examinada por um clínico geral, "que não é especialista em atendimento infantil".
Primeira residência teve início em 2005A primeira residência médica a ser implantada pela Secretaria Estadual de Saúde Pública (Sesap) foi a de psiquiatria, em 2005, no Hospital João Machado, situado na avenida Alexandrino de Alencar, no Tirol. O curso tem duração de três anos e caminha para a formação da oitava turma.
Já a segunda residência médica no Estado também foi implantada no ano de 2005 no Hospital Walfredo Gurgel para o curso de cirurgia geral .
A residência médica do HWG tem uma duração de dois anos, com uma carga horária que varia de duas a três mil horas por ano. A carga horária semanal é de 60 horas, as quais são divididas da seguinte forma: 80% de prática e 20% de teoria.
Ao sair do HWG, o médico-residente está capacitado para realizar procedimentos de média e alta complexidade e, de acordo com o tempo de residência, os alunos são classificados como R1 (primeiro ano de residência) ou de R2 (quando estão no segundo ano).
No primeiro ano de prática, o residente faz procedimentos de menor complexidade, como pequenas cirurgias de sutura e drenagens torácicas, enquanto no segundo ano, ele já pode fazer cirurgias de média complexidade e auxiliam nas operações de alta complexidade.
Em dois anos de residência, o médico faz um "rodízio" pelos diversos departamentos do Hospital Walfredo Gurgel, atendendo pacientes no ambulatório, enfermarias de clínica médica e de clínica cirúrgica, na neonatologia, pronto-socorro e UTI.