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Natal, 11 de Fevereiro de 2012 | Atualizado às 16:31

Residência médica não atrai acadêmicos

Publicação: 11 de Outubro de 2009 às 00:00
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Valdir Julião - repórter

Residência médica é, praticamente, uma atividade nova dentro da rede hospitalar do Estado, com a capacitação de profissionais de médicos recém-saídos das Universidades em três áreas distintas, uma das quais, já enfrenta um problema: a pediatria, com a falta de candidatos.

Este ano nenhum acadêmico respondeu à convocação feita pelo hospital pediátrico Maria Alice Fernandes, localizado no Parque dos  Coqueiros (zona norte de Natal), onde é feita a residência médica de pediatras. "Não entrou ninguém em 2009, quando era para termos pelo menos três residentes", informou a diretora geral da unidade hospitalar, médica Lana do  Monte Brasil.

Elisa ElsieHospital Maria Alice convocou residentes em pediatria , mas não apareceram candidatos interessadosHospital Maria Alice convocou residentes em pediatria , mas não apareceram candidatos interessados

Por isso, diz ela, atualmente não existe residente de primeiro ano no Hospital Maria Alice Fernandes, num curso que é realizado em dois anos.

No entanto,  continuou Lana Brasil, no primeiro ano da residência pediátrica, em 2006 apareceram dois candidatos, no ano seguinte e em 2008, idem.

"O problema é de mercado,  estão oferecendo poucas oportunidades aos pediatras", declarou a diretora do hospital Maria Alice, apesar de "existir uma demanda de atendimento muito grande".

 De todo o modo, ela explica que o hospital Maria Alice abriu condições para que o profissional que tem uma formação geral, "mais generalista", faça uma residência médica em pediatria, que antes ele tinha de procurar fora do Rio Grande do  Norte.

Segundo ela, em dezembro o Hospital Maria Alice Fernandes vai preparar o edital para uma nova convocação de acadêmicos de Medicina, que desejarem fazer residência em pediatria. "As provas serão em janeiro", avisa.

Lana Brasil informou ainda que o hospital Maria Alice Fernandes tem um intercâmbio com o Hospital Pediátrico Heriberto Bezerra (Hosped), vinculado à Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), com vistas à atuação dos residentes. Enquanto no primeiro hospital não existe laboratório, no outro não tem Unidade de Terapia Intensiva (UTI).

Já a prática dos residentes em cirurgia infantil é realizada no hospital Walfredo Gurgel, que foi a segunda unidade da rede hospitalar estadual a abrir residência médica, em cirurgia geral.

Presidente do Sinmed explica o desinteresse dos estudantes

O presidente do Sindicato dos Médicos (Sinmed), Geraldo Ferreira, confirma que há, realmente, "uma preocupação muito grande com aquelas especialidades clínicas, que não têm procedimentos cirúrgicos ou exames clínicos", como ocorre em relação aos pediatras.

Geraldo Ferreira reforça que essa  falta de residentes médicos não é só uma questão relacionada ao Hospital Maria Alice Fernandes,  porque no Hospital Pediátrico Heriberto Bezerra, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), também "existem dificuldades de preenchimento das vagas para a residência médica".

 Ferreira diz que o problema não é só no Rio Grande do Norte, é no Brasil todo, inclusive em outras especialidades, como neurologia e clínica médica: "O fato crucial é que esses profissionais são poucos valorizados financeiramente, pois recebem R$ 30,00 por uma consulta, enquanto um exame custa 20 ou 30 vezes mais que isso".

Para Ferreira, é preciso se fazer um trabalho muito forte de valorização do atendimento primário, "que é a consulta médica". Ele conta que em Brasília houve um descredenciamento coletivo dos pediatras e a categoria conseguiu passar o valor da consulta para R$ 80,00, "o que é mais aceitável".

Esses profissionais, segundo Ferreira, não estão tendo nem como manter um consultório particular, pois tem aquela premissa de que, num prazo de 30 dias, o paciente que foi consultado a primeira vez pode "fazer o retorno" mais de uma, duas e até dez vezes e não se cobra nada por uma nova consulta, que torna o valor da primeira insignificante, "quase uma gorjeta".

"Tudo é uma questão de economia de mercado, na hora que se valorizar o profissional, ele vai aparecer no mercado", disse Ferreira, que explicou não ser essa uma questão só do poder público, mas também do sistema privado de saúde: "Os planos de saúde também remuneram muito mal".

Ferreira acha que a situação desses profissionais "precisa ser revertida urgentemente", para que o mercado fique mais atrativo - "senão quem vai pagar o preço é a sociedade".

Segundo Ferreira, no âmbito da saúde pública, por exemplo, "nem plantão de neurologia tem mais no Hospital Walfredo Gurgel, onde um paciente que chega com problema neurológico é atendido, inicialmente, por um clínico geral. "O neurologista vem e atende no outro dia", diz ele, porque existe deficiência de profissionais dessa especialidade em Natal. "E a pediatria está cada vez mais escassa de profissionais, se não houver atrativo econômico, lamentavelmente a perspectiva é de ter cada vez menos", finalizou.

Coordenador defende capacitação técnica dentro dos hospitais

O coordenador da residência médica do Hospital Walfredo Gurgel, cirurgião Henrique José Mota, considera muito importante  que o profissional médico, recém-saído das Universidades, passe por uma capacitação técnica dentro dos hospitais, antes de ingressar no mercado de trabalho.

Henrique Mota diz que isso já é uma exigência da sociedade atual, pois quem tem um parente enfermo quer vê-lo entregue a um profissional competente e capacitado.

Para Mota, alguns atributos exigidos de um profissional, como humanidade e prestação de um bom atendimento, são adquiridos durante a formação pessoal e familiar do indivíduo, mas tem coisas que só a capacitação técnica pode oferecer a esse profissional.

Com a experiência adquirida ao longo do exercício da profissão, segundo Mota, o médico vai adquirindo o conhecimento técnico necessário para atender melhor o seu paciente. "Mas ele tem de ter um treinamento, apesar do curso de Medicina ser muito puxado, o prazo é muito curto", avalia ele, quando há necessidade do profissional ter uma qualificação na prática, dentro dos hospitais.

Segundo Mota, o desenvolvimento científico e tecnológico exige cada vez mais preparo dos profissionais, que "precisam se manter atualizados", inclusive no manuseio de modernas máquinas hoje usadas no campo da Medicina.

Em janeiro, avisou ele, serão abertas mais seis vagas para a residência de cirurgia clínica no Hospital Walfredo Gurgel. "As provas são elaboradas em conjunto", disse Mota, a respeito do concurso para residência do HWG e mais os hospitais Psiquiátrico João Machado e Pediátrico Maria Alice Fernandes.

Mota diz que o sistema público de saúde não exige tanto, mas, pessoalmente, ele acha que o médico contratado, por exemplo, para prestar serviço no Programa Saúde da Família (PSF), devia obrigatoriamente participar de uma capacitação, "pois existe a residência comunitária".

A diretora geral do Hospital Maria Alice Fernandes, médica Lana Brasil, vai além, achando que devia ser exigida a presença de um pediatra no PSF, coisa que hoje não é exigida. Uma criança que precisa de atendimento do PSF, segundo ela, é examinada por um clínico geral, "que não é especialista em atendimento infantil".

Primeira residência teve início em 2005

A primeira residência médica a ser implantada pela Secretaria Estadual de Saúde Pública (Sesap) foi a de psiquiatria, em 2005, no Hospital João Machado, situado  na avenida Alexandrino de Alencar, no Tirol. O curso tem duração de três anos e caminha para a formação da oitava turma.

Já a segunda residência médica no Estado também foi implantada no ano de 2005 no Hospital Walfredo Gurgel para o curso de cirurgia geral .

A residência médica do HWG tem uma duração de dois anos, com uma carga horária que varia de duas a três mil horas por ano. A carga horária semanal é de 60 horas, as quais são divididas da seguinte forma: 80% de prática e 20% de teoria.

Ao sair do HWG, o médico-residente está capacitado para realizar procedimentos de média e alta complexidade e, de acordo com o tempo de residência, os alunos são classificados como R1 (primeiro ano de residência) ou de R2 (quando estão no segundo ano).

No primeiro ano de prática, o residente faz procedimentos de menor complexidade, como pequenas cirurgias de sutura e drenagens torácicas, enquanto no segundo ano, ele já pode fazer cirurgias de média complexidade e auxiliam nas operações de alta complexidade.

Em dois anos de residência, o médico faz um "rodízio" pelos diversos departamentos do Hospital Walfredo Gurgel, atendendo pacientes no ambulatório, enfermarias de clínica médica e de clínica cirúrgica, na neonatologia, pronto-socorro e UTI.

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comentários

coeli0507@...11/10/2009 @ 17h11
O Hospital de Pediatria Professor Heriberto Ferreira Bezerra (nome correto) do Hospital de Pediatria da UFRN foi citado algumas vezes na matéria. A direção desse Hospital Universitário foi procurada para esclarecimentos??? Vocês têm certeza que sobra vaga de residência nesse???
cosmos.jr@...11/10/2009 @ 19h24
A verdade "verdadeira" mesmo, é que a medicina e o exercício dos profissionais médicos estão cada vez mais mercantilistas.Na busca do status plantado pela sociedade, aqueles que optam pela medicina não mais o fazem pela vocação nem pelo sacerdócio, nem pela dedicação ao próximo.O que conta mesmo é a busca do status social e financeiro prometido desde o início no seio familiar, na sociedade e dentro das Universidades. Não é a toa a dificuldade em se encontrar um profissional que seja realmente motivo de elogios por parte das pessoas que por ele são atendidas. A falta de perfil e de identificação com a função que exercem, torna o exercício profissional muitas vezes um peso a ser carregado nas costas pelo resto da vida. Mas o status está grantido. Até o fim da vida.
sandro-sanches@...11/10/2009 @ 21h54
Medico hoje só lembra do juramento no dia da formatura depois. Dinheiro,dinheiro,dinheiro, dinheiro.
lsbmile@...11/10/2009 @ 22h39
A residência de pediatria, em todo Brasil, não atrai mais acadêmicos de medicina por que é uma especialidade desvalorizada pelo Governo público e também pela própria sociedade. De qualquer forma, gostaria de informar que o Hospital Professor Heriberto Ferreira Bezerra (Hospital de Pediatria da UFRN) citado na matéria, tem residência pediátrica de excelente qualidade há muitos anos e que, no último ano, preencheu todas as vagas disponibilizadas para residentes do primeiro ano (R1).
lsbmile@...11/10/2009 @ 22h33
Todas as profissões fazem juramentos no dia de sua formatura, mas nenhuma, com certeza, jura se sujeitar a trabalhar de forma indigna e com remuneração vil, sem ter o direito de lutar por melhorias!!! Quem é pediatra, ama o que faz! Pergunte a qualquer pediatra por que escolheu esta especialidade e a resposta será: "por amor". Nós amamos o que fazemos, nosso papel é de proteção total e incondicional às crianças, mas não somos obrigados a aceitar tanta injustiça salarial. Por isso, muitos de nós estão se afastando desta linda profissão, mas não por falta de amor e sim por que temos que pagar aluguel, casa, alimentação para nós e nossos filhos, escola e outras coisas mais. Não somos mágicos!
lsbmile@...11/10/2009 @ 22h22
Eu não entendo como alguns imaginam que o médico, após longos e penosos anos de formação contínua, podem sobreviver do sacerdócio. Até os padres recebem remuneração da igreja... Em qualquer lugar do mundo, a mesma sociedade que cobra do médico qualificação de ponta, atualização contínua, conhecimento e cultura, dentre outras coisas, valoriza o ato médico de forma digna, dando a este profissional todas as condições para desenvolver habilmente sua profissão. No Brasil, a grande maioria dos médicos se transformou em verdadeiros peões de branco, trabalhando incessantemente sem uma remuneração justa, fazendo com que algumas especialidades sejam menos procuradas.
egrojsevla@...12/10/2009 @ 08h54
- Esta dificuldade em suprir a residência médica e a falta do profissional médico em determinadas áreas que são menos atrativas geograficamente poderia ser solucionada, de forma efetiva, na mediada em que o governo federal e estadual que bancam a formação de nível superior, impusesse uma condição compulsória, para que todos os que cursassem estas instituições “pagassem” os seus estudos com a prestação de serviço em local público a ser determinado pela necessidade e de acordo com cada especialidade médica.
cecilia.mosca.spatz@...12/10/2009 @ 08h43
Infelizmente são pouquíssimos os médicos que fazem seu trabalho com amor. Lógico que eles também precisam viver e exercer uma profissão apenas por idealismo fica, com o passar do tempo, difícil. Mas este é um fenômeno que pode ser observado não apenas na medicina, mas em outras profissões como, advogado (o mercado tá inflacionado com tanto profissional), fisioterapeuta, psicólogo e etc.
misternet!@...12/10/2009 @ 08h30
Admitindo-se como verdadeira a informação contida na matéria de que os médicos recebem 30,00 por consulta, e admitindo-se também que o médico igual a qualquer trabalhador mortal trabalhe dois expedientes de 4 horas, e admitindo-se também que o médico atenda a cada 4 horas 8 pessoas, sendo uma pessoa a cada meia hora, teremos então esse médico ganhando em 22 dias de trabalho, um salário de 10.560 reais.Mesmo admitindo-se que os custos com consultório e impostos cheguem a 30 % dos "ganhos", o médico ficaria com mais de 7.000 reais líquidos ao mês, uma remuneração ganha por menos de 5 % dos trabalhadores do Brasil.Não posso concordar portanto que os médicos ganhem mal. Acho mais real os objetivos de exigirem um tratamento diferenciado em consequência da lógica estabelecida e baseada realmente no status e na mercantilização, como escreveu o Cosmos.Na verdade, os especialistas, beneficiados pela mercantilização, muitas vezes conseguem auferir numa única cirurgia o valor que ganhariam em dez dias de consultas.Como consequência, a lógica dos ganhos diferenciados e mercantilizados há muito derrotou qualquer discurso em defesa de "salários dignos para profissionais que defendem a vida humana". Os médicos se acham melhores do que todos os demais profissionais, pois são educados e formados com essa equivocada concepção, o dinheiro está falando cada vez mais alto e não vejo no horizonte qualquer possibilidade de mudança, a não ser para pior. Essa lógica está cada vez mais exacerbada. Infelizmente!!
coeli0507@...12/10/2009 @ 09h57
MisterNet resumiu muito bem a realidade. Uma coisa é certa!!!! Médicos!!!! pelas colocações feitas aqui é necessário repensarem seus valores, ações pois a opinião pública já mudou!!!! Mas médicos colegas de pediatras sabem que tem enfermaria pediátrica sem PEDIATRA!!! Para não ter gastos com contratação para elaborar escala. E olha que estamos em plena campanha de volorização do profissional pediatra com a chamada de "quem entende de criança é o pediatra". Mas o Conselho Regional de Medicina fiscaliza as Unidades Básicas que estão sem pediatras e suspendendo muitas vezes as poucas possibilidades dessa criança ter assistência básica, porém não menos importante que assistência especializada.
jennerazevedo@...01/11/2009 @ 13h51
a residência de pediatria oferece 8 vagas na UFRN e 14 pessoas fizeram prova.porque dizem que não tem gente pra fazer pediatria?
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