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Natal, 04 de Fevereiro de 2012 | Atualizado às 12:49

"Resolvi investir nas pessoas"

Publicação: 18 de Novembro de 2009 às 00:00
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Isaac Lira - Repórter

Célio Turino lembra praticamente de todos os locais que visitou no Brasil. Quando fala sobre os Pontos de Cultura - programa que ele desenvolve no Ministério da Cultura desde 2004, a convite do então ministro Gilberto Gil - Célio trata as cidades e as pessoas que compõem essa teia fértil de fazeres e saberes. "O grande diferencial dos Pontos de cultura é que eles trabalham com algo que já existe, que já foi gestado naturalmente. É como se nós apenas estivéssemos irrigando", explica.

No último fim de semana, Célio esteve em Natal para participar do I Fórum dos Pontos de Cultura do RN e para lançar o seu livro "Pontos de Cultura: o Brasil de baixo para cima". O livro trata justamente da experiência de Célio do MinC. Numa conversa com a TRIBUNA DO NORTE, o historiador  fala dos aspectos sociopolíticos dos pontos de cultura. E afirma que o programa está dando voz a quem nunca teve.

Emanuel AmaralCriador do projeto Pontos de Cultura para o MinC,  historiador Célio TurinoCriador do projeto Pontos de Cultura para o MinC, historiador Célio Turino


Como surgiu a ideia dos Pontos de Cultura?
Célio Turino - Eu fui secretário de cultura em Campinas e lá nós implantamos uma rede de casas de cultura. Eram 13 no total. E era um programa interessante que envolvia a estruturação de espaços comunitários, com uma biblioteca de 500 títulos, com agentes comunitários, oficinas, etc. Eu era bem jovem nessa época e imaginava que o programa ia prosperar bastante, mas não foi o que aconteceu. Depois que mudou o governo, as casas foram se acabando. Nessa época, eu saí, fui fazer outras coisas na minha vida. Nunca pensei que 12 anos depois eu seria convidado a trabalhar no Ministério da Cultura e pudesse retomar. A ideia original era construir centros de cultura com pré-moldados e fazer as chamadas bases para o desenvolvimento da cultura.

Mas as ideias evoluíram de uma outra forma...
Era uma determinação do presidente Lula a construção de centros culturais Brasil afora, principalmente nas periferias. Mas essa ideia privilegiava somente a estrutura. Você construía uma casa e depois quem mantinha? E a atividade cultural permanente? E quem já fazia cultura naqueles locais, era desconsiderado? Isso é muito comum em política pública. Você investe na construção de um prédio, vai lá, põe a placa de inauguração. Mas e depois? Por conta disso, eu propus mudar o foco. Parei com a ideia da estrutura e resolvi investir nas pessoas. Afinal, quem faz cultura?  Não é o governo, são as pessoas, é a sociedade. E essa é a ideia, que é muito simples. Mas que avançou muito. Nós temos hoje mais de 2,5 mil pontos de cultura em todo o país. Temos pontos de cultura em aldeias indígenas, em pequenos municípios, aqui mesmo no Rio Grande do Norte em mais de 60. E são lugares que o Governo e o Estado não chegavam antes, muito menos com políticas culturais. Para você ter uma ideia, nós passamos pelo Rio Grande do Norte há dois meses com a Caravana Cultural e fomos a Currais Novos. Eu comentei com uma amiga minha, que trabalha na Companhia de Abastecimento e ela disse: "Há uns dez anos eu só ouvia falar em Currais Novos quando o Governo ia distribuir cesta básica".  Hoje, eu chego lá e tem uma faixa: 'Currais Novos faz cinema'. Ou seja, existem filmes sendo produzidos em Currais Novos e por gente de Currais Novos. Nós temos grupos de cultura tradicional e de cultura contemporânea. É um outro Brasil que vai florescendo com muita força. Por isso o título do meu livro: "Brasil de baixo pra cima".

Que estrutura?
A estrutura da política, das grandes instituições. Porque a história que a gente tem do Brasil é que apesar dessa terra ser muito  rica e dadivosa, o que acontece é que o povo é muito maltratado. Isso porque nós temos uma elite que não olhou pra dentro, que só olhou pra fora, de gente que mandava engomar roupa na França. Mas isso provocou que foi se criando uma rede de relações sociais por baixo muito diferentes. O povo brasileiro é muito empreendedor, muito solidário e criativo. É exatamente isso que fez com que o país não se esgarçasse tanto. E nesses últimos tempos essa relação social diferenciada tem florescido. E o ponto de cultura é um indicativo dessa pujança.

Emanuel AmaralCriador do projeto Pontos de Cultura para o MinC,  historiador Célio TurinoCriador do projeto Pontos de Cultura para o MinC, historiador Célio Turino


Que experiências de pontos de cultura o senhor presenciou que mais lhe tocaram?
Eu coloco várias no livro, inclusive essa de Currais Novos. Mas, além do Seridó, coloquei as minhas visitas ao Parque Nacional do Xingu, a visita aos "achanincas" na fronteira, que é uma tribo indígena. Tem filmes sendo produzidos pelos índios, com cineasta indígena e na língua dos índios. As pessoas mal sabem disso. Aqui na Zona da Mata, no canavial, em Pernambuco, na cidade de Aliança, Estrela de Ouro, etc. Há um estúdio de gravação muito moderno nessa cidade, com filmes sendo produzidos com atores de lá, e diretores de lá. Lá no Cariri, em Nova Olinda, tem uma fundação (Fundação Casa Grande) que tem estúdio de TV, que tem rádio. Eu começo o livro com a minha viagem ao Cariri, para Santana do Araripe e Nova Olinda. Uma das ideias que eu desenvolvo no livro é a do silenciamento. A maioria da sociedade foi silenciada. Por isso, eu peguei o Cariri, porque Cariri significa silencioso. Eu vou contando a história dos povos a partir desse vale do silêncio. E são histórias em favelas e morros. Conto a história de um grupo no Vale do Jequitinhonha, que excursionou com Milton Nascimento e cada um ganhou R$ 2 mil de cachê. E o que eles fizeram com o dinheiro? Deram de contrapartida para fazer um ponto de cultura e conseguir um cinema para a cidade. Esse dinheiro no Vale do Jequitinhonha para um menino de 16 anos é uma boa quantia, mas eles preferiram doar o dinheiro para a cidade. É justamente o contrário do que acontece em muitas relações políticas no Brasil. Tem gente que abre a casa para fazer ponto de cultura. A dona Edna, lá da periferia de Maceió, numa vila de pescadores, transformou a casa dela em ponto de cultura. Ela mora somente em um quarto com banheiro, porque o resto da casa é biblioteca, oficina de artesanato etc.

Os pontos de cultura têm sido estadualizados. Não sei se o senhor ficou sabendo, mas aqui no Rio Grande do Norte os pontos tiveram um atraso de sete meses na liberação do dinheiro. A burocracia ainda é um problema?
Eu fiquei sabendo e é sim. Infelizmente, o Estado brasileiro ainda não está preparado para esse tipo de relação, então é comum haver atrasos. No entanto, a estadualização é um passo necessário para dar mais força ao projeto.

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comentários

dlucass2006@...18/11/2009 @ 04h34
Em recente viagem que fiz ao Belém do Pará, passei por Fortaleza, Terezina e Maranhão. Todos os Estado procuram o caminho do progresso e seu desenvolvimento econômico. O que vejo no nosso Estado é só política, política suja e mais nada. Essa mazela é culpa do eleitor que não têm uma definição de futuro e não sabe o que é qualidade de vida.
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