Revisitando os nutracêuticos
Publicação: 30 de Outubro de 2011 às 00:00
Dr. Jorge Boucinhas [ médico e professor da UFRN ]
A alimentação atualmente predominante (a pior de todos os tempos, característica das civilizações ocidentais modernas), é refinada, hipercalórica e desbalanceada, tendo-se mostrado a desencadeadora de doenças crônicas e redutora dos mecanismos de defesa orgânicos. Por tal, o papel da alimentação equilibrada na manutenção da saúde tem despertado interesse de toda comunidade científica mundial, a qual tem produzido inúmeros estudos com o intuito de comprovar sua atuação na prevenção e recuperação de doenças.
É premente a conscientização para uma mudança dos hábitos alimentares, de forma a melhorar as condições gerais de saúde. Curioso que mesmo os tratados médicos mais antigos já citavam a importância de uma alimentação adequada para contribuir, de forma decisiva, para o equilíbrio do indivíduo. Na verdade a coisa é tão antiga que o grande Hipócrates, dito "o Pai da Medicina", já escrevera, 5 séculos antes de Cristo, a famosa frase "seja teu alimento o teu remédio".
A idéia subjacente ultimamente tem recebido totais foros de modernidade, pois está sendo descoberto, com interesse imenso, o papel de certos elementos alimentícios como agentes profiláticos e terapêuticos em muitas enfermidades. A eles convencionou-se chamar "alimentos funcionais", também se os tendo denominado "nutracêuticos".
No Brasil, segundo a ANVISA (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), alimentos funcionais são os que produzem efeitos fisiológicos favoráveis por meio da atuação dos seus nutriente(s) ou não-nutriente(s) no crescimento, desenvolvimento, manutenção e funções outras do organismo. O alimento que alegar propriedades funcionais, afora atuar em funções nutricionais propriamente ditas deverá propiciar efeitos benéficos à saúde, e exige-se não precisar de prescrição médica para o consumo.
Estão sendo estudados por uma nova ciência, denominada Nutracêutica, que visa descobrir os compostos bioativos dos alimentos, ou seja, os elementos que são capazes de atuar diretamente na prevenção e no tratamento de doenças. Seus principais objetos de interesse têm sido hortaliças, frutas, cereais integrais e plantas medicinais. Evidências esmagadoras, partidas de estudos laboratoriais e clínicos, indicam que uma dieta neles baseada pode reduzir o risco de doenças crônicas e degenerativas, particularmente aterosclerose, baixa da imunidade, obesidade, hipertensão, alterações das gorduras sanguíneas, diabete, câncer, artrose e osteoporose. Já há bom tempo, nos idos de 1992, uma revisão de 200 estudos epidemiológicos demonstrara que o risco de câncer em pessoas que consumiam dietas ricas em frutas e vegetais foi metade do daquelas que consumiam pouco estes alimentos.
Todos os vegetais, em maior ou menor escala, podem possuir tais compostos químicos especiais (fitocomplexos), que desencadeiam expressivos processos bioquímicos, e as plantas chamadas medicinais são as que possuem maiores teores deles, podendo, em grande parte, ser usadas diretamente na alimentação.
O que torna funcional um alimento é a presença ou não de um novo grupo de compostos identificados nas frutas e nos vegetais, os fitoquímicos, que são substâncias que desempenham seu papel ajudando a promover a saúde e a prevenir doenças, oferecendo apoio ao sistema de defesa interno. Dentre eles podem ser citados os chamados compostos sulfurosos, as isoflavonas, ao isocianatos e indóis, a clorofila, os flavonóides.
Como exemplos de alimentos descobertos como funcionais, pode-se citar alho (quimiopreventivo do câncer, antibiótico, redutor do colesterol), linhaça (anti-aterogênica), tomate (protetor da próstata), brócolis (quimiopreventivo do câncer), aveia (redutora do colesterol), soja (protetora cardiovascular, aliviadora dos sintomas da menopausa), e etc, etc, etc. E importa dizer que o número de novos produtos e a descoberta de novas aplicações terapêuticas e preventivas cresce a cada dia.
A partir do próximo artigo será revisto este manancial incrível de oportunidades de melhorar a saúde de forma natural, este "Admirável Mundo Novo" (parodiando o título da obra visionária de Aldous Huxley). Até lá!