Reprodução
Isaac Ribeiro - Repórter
Mudanças em vários aspectos da saúde da mulher foram detectadas e publicadas pela terceira edição da Pesquisa Nacional de Demografia e Saúde (PNDS), com dados importantes sobre fecundidade, intenções reprodutivas, atividade sexual, anticoncepção, assistência à gestação e ao parto e morbidade feminina. De acordo com o estudo, no espaço de uma década, as brasileiras estão começando a vida sexual mais cedo e tendo acesso maior a métodos contraceptivos, inclusive recorrendo aos programas do Sistema Único de Saúde (SUS).
A pesquisa foi financiada pelo Ministério da Saúde e realizada em parceria com o Instituto Brasileiro de Opinião Pública (Ibope) e o Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), entre os meses de novembro de 2006 e maio de 2007. Foram realizadas entrevistas com mais de 15 mil mulheres, entre 15 e 49 anos de idade, residentes em áreas urbanas e rurais das cinco regiões do País. Outros pontos observados pelo estudo foram acesso maior a medicamentos fornecidos pelo poder público, queda na taxa de fecundidade, maior assistência pré-natal e maior assistência e cobertura ao parto hospitalar.
Vários dados da PNDS estão em sintonia com a realidad
e do Rio Grande do Norte, segundo Sandra Lopes, coordenadora da organização não-governamental Bem-Estar Família no Brasil (Bemfam), que atua nas áreas de educação e planejamento familiar. Na 3ª edição do estudo, o RN apresenta dados semelhantes ao panorama nacional principalmente com relação ao início cada vez mais cedo da vida sexual das jovens brasileiras, queda na taxa de fecundidade e avanço no uso de métodos injetáveis de anticoncepção. "A Pesquisa Nacional de Demografia e Saúde é importante para definirmos novos direcionamentos de nossas ações", afirma ela.
Dados da pesquisa nacional refletem realidade potiguarOs dados coletados pela Pesquisa Nacional de Demografia e Saúde (PNDS) servem de base para ações de órgãos governamentais e de entidades que atuam na área da saúde. De posse das informações, é possível avaliar os resultados do que já foi investido e planejar novas formas de atuação e enfrentamento a problemas específicos. A ONG Bem-Estar Familiar no Brasil (Bemfam) utiliza o que é apontado pela PNDS para cruzar informações com o que se passa no Rio Grande do Norte, traçando um paralelo com outros estados e definindo áreas de atuação, mas sempre voltada para a educação e a informação.
De acordo com Sandra Lopes, coordenadora da Bemfam em Natal, há vários pontos em comum entre os dados obtidos em nível nacional com a realidade do Rio Grande do Norte (veja quadro nesta página).
O retrato do Estado está contemplado na pesquisa no tocante aos métodos de contracepção. Segundo a coordenadora da Bemfam, a procura pelos injetáveis tem aumentado em relação aos métodos tradicionais. O uso dos injetáveis em 2007 ficou em 13,4%, para os mensais, e 4,4%, para os trimestrais. Entre os tradicionais, 63,5% para a pílula e 18,3% para camisinha.
Ela avalia ter havido uma migração, entre as potiguares, dos métodos tradicionais para essa nova modalidade contraceptiva injetável. "As mulheres hoje têm mais informação sobre esse método. A praticidade e a eficácia dele são as principais razões para essa mudança. O percentual de eficácia é muito grande, além de a mulher não ter que negociar, por exemplo, o uso da camisinha com o parceiro", diz Sandra Lopes.
Outro ponto de sintonia com a PNDS diz respeito à iniciação da prática sexual, cada vez mais cedo também entre as potiguares - que vem ocorrendo, também no plano nacional, na faixa entre os 15 e os 19 anos. A Bemfam trabalha no sentido de educar e informar sobre toda a vulnerabilidade da mulher na vida sexual ativa.
Para Sandra ainda existe uma resistência dos educadores em trabalhar a questão sexual por acreditarem eles que isso incentiva o início breve da sexualidade. "Acredito que é um problema cultural mesmo, a partir de experiências próprias. A educação sexual, tratada como tema transversal nas escolas, não faz com que os alunos se iniciem mais cedo no sexo", acredita Sandra.
Fecundidade e mortalidadeEnquanto as mulheres potiguares iniciam a vida sexual cada vez mais cedo, a taxa de fecundidade vem diminuindo também no Rio Grande do Norte, da mesma forma que indica a PNDS (taxa de 1,8 filho). Pelos dados da Bemfam, desde o início de suas atividades na área de planejamento familiar até 2007, os números nesse campo só têm caído, e a informação, na opinião de Sandra Lopes, só tem ajudado às pessoas a decidirem o que querem para suas vidas, além da questão financeira. "Não existe mais a família de cinco ou seis filhos. Hoje, estão optando por ter no máximo dois filhos."
Outro problema que avança é a mortalidade feminina, ainda apontando dados preocupantes tanto na PNDS quanto nos números da Bemfam, apesar de toda informação e monitoramento. "Estamos trabalhando bastante nisso, estimulando e fazendo o pré-natal nas mulheres e monitorando-as após o parto."
A Pesquisa Nacional de Demografia e Saúde aponta um índice de esterilização de 29%. Sandra Lopes acredita que no Estado esse número seja ainda maior, já que ficaram de fora farmácias e clínicas particulares.
AtuaçãoA Bemfam foi fundada em 1965, no Rio de Janeiro, com o objetivo de trabalhar na área de planejamento familiar. Ao longo desses 43 anos de atuação, a ONG abriu representações em vários estados e expandiu suas atividades para prevenção e tratamento do câncer, DSTs e Aids, enfrentamento à violência contra a mulher, diversidade sexual, combate a mortalidade materna e atenção pós-aborto.
A Bemfam tem parcerias com hospitais, maternidades, clínicas, instituições e mais de 100 prefeituras no Rio Grande do Norte. "Quando não existiam políticas públicas sobre planejamento familiar no Governo federal, só havia a Benfam atuando nessa área. Hoje, complementamos as ações governamentais", informa a coordenadora da ONG.