Sem medo do Papangu

Publicação: 15 de Fevereiro de 2011 às 00:00 | Comentários: 5
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Yuno Silva - repórter

O Carnaval está chegando e logo logo as ruas serão invadidas por uma figura mascarada e misteriosa. Amado e temido, o papangu é um personagem característico do Carnaval nordestino, uma tradição secular que ainda rende muito debate sobre sua origem. Até mesmo a palavra ‘papangu’ se desdobra em vários significados: para uns o termo identifica uma pessoa desajeitada, que se veste mal; para outros uma pessoa indesejável; desprovida de beleza; também dizem que são pessoas abobalhadas, lerdas. Traduções que dependem, inclusive, da localização geográfica: no Rio Grande do Norte pode significar uma coisa e em Pernambuco outra.

fotos: divulgaçãoCom ilustrações de Cláudia Cascarelli, livro faz uma viagem pelo Carnaval nordestino, destacando a figura dos mascaradosCom ilustrações de Cláudia Cascarelli, livro faz uma viagem pelo Carnaval nordestino, destacando a figura dos mascarados
O certo é que, durante o Carnaval, a palavra converge para se referir àquelas pessoas que saem pelas ruas com fantasias que cobrem todo o corpo - e é sobre esse personagem curioso que a jornalista e escritora potiguar Goimar Dantas lança o livro “Quem Tem Medo de Papangu?”, no próximo dia 26 de fevereiro, pela Editora Cortez. A obra de 32 páginas traz ilustrações de Cláudia Cascarelli, é toda narrada em versos e é voltada para o público infanto-juvenil. “Na verdade, o tema é um gancho para falarmos de família, tradições, memórias e cultura para essa nova geração”, esclarece a jornalista.

Radicada em São Paulo e co-autora da biografia “Cortez, a saga de um sonhador”, que remonta a trajetória do norte-riograndense natural de Currais Novos e fundador de uma das principais editoras literárias do Brasil, Goimar Dantas buscou nas memórias da infância a inspiração para falar sobre a figura do papangu: “Quando tinha uns 10 anos, estava em Japi (RN) passando um Carnaval na casa da família e avistei aquela figura mascarada. Perguntei para minha avó do que se tratava e ela surpresa respondeu: você não conhece o papangu? E aquele ali é seu avô, me disse apontando para uns dos brincantes. Fiquei confusa, meu avô tinha aquele ar sisudo com os netos, sempre muito sério, e agora estava ali, brincando com todos no meio da praça”, contou a escritora.

Nascida em Santa Cruz - “pois nos anos 1970 não havia maternidade em Japi” - Dantas partiu cedo para o Sudeste com a família: passou por Minas Gerais, morou por duas décadas na cidade de Cubatão, onde seu pai trabalhou no pólo petroquímico. “Depois que de cursar Comunicação Social em Santos, vim morar em São Paulo”, explica a jornalista com mestrado em Comunicação e Letras.

Pesquisa

A pesquisa sobre a figura do papangu começou em 2007, motivada pelas “memórias infantis”. Nesse período conheceu José Xavier Cortez, quando trabalhava para a Câmara Brasileira do Livro. “Fiquei apaixonada por sua trajetória, e ainda mais empolgada quando descobri sua origem potiguar, aí embarquei no projeto de escrever sua monografia e só em 2010 retomei as pesquisas sobre o papangu”, lembra Goimar.

Garimpando informações no pouco acervo sobre o assunto, a jornalista encontrou na própria família sua principal fonte: “Sou neta e sobrinha de papangu, então conversei muito com minha família. Também tive acesso a alguns textos e pesquisas, e juntei tudo com minhas memórias afetivas”, informou Dantas por telefone. Entre a principal fonte acadêmica, a jornalista cita os artigos científicos “O híbrido papangu, do sagrado ao profano, uma possível herança do bumba-meu-boi”, de Eliana Maria de Queiroz Ramos e “Papangu como híbrido: trajetória entre a procissão e o bumba-meu-boi”, também de Eliana escrito em parceria com Betânia Maciel.

Buscando as origens

“Quem tem medo de Papangu?” traz informações sobre o surgimento, o desaparecimento e o posterior resgate da tradição surgida em Pernambuco no século 19. Nos primórdios, os papangus ajudavam a organizar as procissões católicas de Cinzas e, com seu chicote estalando no ar, disciplinar a garotada que, eventualmente, estivesse atrapalhando o andamento das cerimônias religiosas. “Em 1831, os papangus foram banidos desses eventos, pois eram vistos com um quê de morte e tirania. O tempo passou e diversas cidades voltaram a dar espaço aos papangus, que reapareceram como brincantes carnavalescos, completamente dissociados das procissões”, explica a autora.

Hoje, com máscaras e vestimentas cada vez mais bonitas e elaboradas, eles existem em profusão no município pernambucano de Bezerros, onde são as principais estrelas do Carnaval daquele município do interior pernambucano.

Por outro lado, em cidades como Japi (RN), onde ainda vive boa parte da família materna da autora, os papangus prosseguem utilizando indumentárias e acessórios rústicos. Lá, a alegria da garotada que corre pelas ruas e praças atazanando os papangus ainda é instigada pelo improviso, pelas palhaçadas e mímicas engendradas por esses carnavalescos, que, ali, se comportam como misto de palhaço e bicho-papão, atraindo a curiosidade das crianças.

“Embora a atuação resistente de alguns papangus seja símbolo da força das festas e tradições da cultura popular nordestina, é possível enxergar nestes mascarados certa sintonia com as principais características da Commédia Dell’arte, surgida na Itália em meados do século XIX”, diz Goimar Dantas.


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Comentários

  • amauryoqueiroz

    Parabenizo a jornalista e escritora pela iniciativa de escrever um livro, em versos, sobre o assunto. Quem é pernambucano, como eu, sabe bem o que representa a figura do papangu no carnaval, sobretudo na cidade de Bezerros-PE. Resido em Natal desde 1971 e sou irmão de Eliana Maria de Queiroz Ramos, autora dos artigos cientificos citados acima e que serviram como fonte de pesquisa para a elaboração do livro. Caso a jornalista Goimar Dantas, tomando conhecimento deste comentário, deseje estabelecer contato com minha irmã, que reside em Recife, para colher mais informações sobre o tema, coloco-me à disposiçao e autorizo o fornecimento a ela do meu e-mail. Faltou apenas citar, na matéria, o local de lançamento do livro. Grato, Amaury Queiroz.

  • carloseufrasio305

    Lendo esta, me ví, vivendo de fato, o Carnaval do pasado. Na minha infância, durante o Carnaval, a figura do \"PAPANGÚ\", era, sem sombras de dúvidas, um marco nesta. Agora, com o desejo de se revitalizar o Carnaval do passado, mnada mais importante neste, do que a figura do PAPANGÚ. espero, que durante os dias de Carnaval, possa eu, me deparar com alguns destes, para fazer destes, belos registros fotográficos. Quem sabe, não possam essas fotos, serem motivos de uma Exposição Fotográfica, que à tempo, desejo realizar, acerca dos Carnavais tantos realizados em nossa cidade. Por enquanto, as vêzes que tenho saído para fotografar durante tal festa, as fotos em sí, não deixam de serem elas, importantes à tal feito. Agora, ainda em relação à tal exposição, confesso, não sei exatamente, quando realizar esta. Isso, depende de muita coisa, inclusive, dinheiro para tal.

  • lourdesfil

    Sou fã de Papangu, desde cedo mostrei a meus filhos e sobrinhos, esta figura cultural do nosso carnaval.Eles se vestiam de Papangu no carnaval da praia de Pipa.Tive a oportunidade tb de conhecer os Papangus da cidade de Bezerros-PE. Parabéns pela reportagem e lançamento do livro.

  • eliana_queiroz144

    Adorei saber desta publicação e já encomendei o livro. Comunico também que trabalho com folkcomunicação e no dia 11 de março, às 15 h, na sala de Seminários do Prédio de Educação da Universidade Federal Rural de Pernambuco em Dois Irmãos, no Recife, estarei defendendo a minha dissertação de mestrado sobre as estratégias de comunicação atreladas ao Papangu de Bezerros, que este ano inclusive estão sendo homenageados pela Escola de Samba Império da Tijuca no Rio de Janeiro e também em Uruguaiana, no Rio Grande do Sul.

  • maryanecostarodrigues

    Legal,eu adorei.