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Natal, 24 de Maio de 2012 | Atualizado às 09:46

Shantala: carinho ancestral

Publicação: 02 de Agosto de 2009 às 00:00
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Isaac Ribeiro - Repórter

Os benefícios das massagens terapêuticas não são exclusividade apenas de adultos. Apesar de pouco difundida em Natal, a shantala é uma técnica indiana que ao mesmo tempo em que aprofunda o vínculo afetivo entre  mãe e bebê, ainda promove melhoras na saúde da criança, evitando cólicas, distúrbios do sono, fortalecendo a musculatura e estimulando o equilíbrio e início do engatinhar.

A shantala proporciona um momento único de entrega entre mãe e filho, onde o toque da mão materna e a troca de olhares e emoções amenizam o trauma do parto e reproduzem o conforto do útero. A massagem pode ser aplicada a partir do primeiro mês de vida até a fase pré-escolar, ou até quando a criança aceitar. 

Segundo a fisioterapeuta Aline Pinheiro, para se aplicar a shantala é preciso reservar um ambiente especial, com luz branda, temperatura amena, silencioso ou com uma música incidental suave. "É importante também estar com vontade de fazer a massagem, estar calma e relaxada. Se não, você vai passar o estresse para o bebê. A shantala deve durar cerca de vinte minutos", indica Aline.

Alex RégisMassagem de origem indiana aprofunda vínculo afetivo entre mãe e filhoMassagem de origem indiana aprofunda vínculo afetivo entre mãe e filho
A endocrinologista Liz Helena explica que, além de reforçar o vínculo afetivo, cada local massageado na shantala gera benefícios à saúde do bebê. "Por exemplo, no tórax você estimula a expansão torácica e faz com que o bebê respire melhor. No abdome, estimula a maturação do intestino, fazendo que o bebê tenha menos cólica."

Apesar de contribuir bastante para humanizar o período pós-parto, a shantala não é aplicada em maternidades e hospitais infantis públicos de Natal, segundo a médica Liz Helena, que, percebendo a carência desse serviço na cidade, decidiu oferecê-lo na clínica que dirige junto com uma sócia.

"Na Maternidade Januário Cicco nosso atendimento é voltado para a saúde da mulher e o cuidado maior é com a amamentação. Como não há um setor de fisioterapia, não temos como fazer essa abordagem com as mães", afirma Lílian Lira Lisboa, do Departamento de Fisioterapia da UFRN e professora da área em universidades particulares.

Ela conta que desde 2004  a  shantala é ensinada no curso de Fisioterapia da UFRN e que atualmente a massagem integra o conteúdo do curso de Orientação a Gestantes da FARN. "A maioria tem resultados muito interessantes depois que passam aplicar."

Shantala apronfunda a afetividade

Seguindo a tradição indiana, de onde a shantala tem origem, a mãe deve ser a responsável por aplicar a massagem no bebê, já que a técnica visa aprofundar os laços afetivos ao tentar reproduzir o abrigo do ambiente intra-uterino. Mas de acordo com a endocrinologista Liz Helena, o próprio pai ou outra pessoa que cuide da criança podem aplicar a técnica e gerar os mesmos benefícios. "Na minha casa quem fazia era meu marido. Como eu passava o tempo inteiro com minha filha, então eu achei que ele deveria fazer para que aumentasse seu vínculo com ela", comenta.

A farmacêutica Luciana Zaranza, 33 anos, está frequentando as sessões de shantala da clínica de Liz Helena, aprendendo a técnica para aplicá-la em sua filha, a pequena Luiza, de apenas três meses de vida. "Sinto que ela se comunica comigo. O toque é mágico; tanto que traz benefícios primordiais para a saúde do bebê", avalia Luciana, para quem ainda havia uma grande lacuna em Natal referente à shantala. "As mães pensam sempre em oferecer o melhor para o bebê. E é muito bom curtir essa fase, pois passa muito rápido. Esses momentos não têm preço."

A fisioterapeuta Aline Pinheiro  destaca o ganho de peso entre os benefícios que a shantala proporciona. "Além de ser o momento em que o bebê passa a encarar a mãe."   

Aspectos psicológicos

A criança a ser submetida à shantala parece expressar um misto de satisfação, surpresa e prazer. Para a psicóloga Ana Flávia Oliveira, o toque, o espaço diferenciado, a música suave, o óleo aquecido, tudo isso proporciona um momento de extremo prazer para o bebê e também para a mãe - "que pode ser biológica, adotiva, ou ainda o pai, a avó ou outro ser de cuidado".

Segundo a psicóloga, a prática da shantala pode fazer com que as crianças cresçam muito mais seguras de si - pelo menos é o que relata a maioria das pesquisas sobre o tema. "A criança que é muito tocada, muito cuidada, que tem bastante contato físico com os pais, normalmente é uma criança muito mais segura."

Citando Donald Woods Winnicott, respeitado teórico da psicanálise infantil, Ana Flávia afirma que o vínculo afetivo pode ser construído independentemente de a mãe ser biológica ou adotiva.  Ela relata um exemplo próprio. "Sou mãe adotiva e essa experiência do toque é de extrema importância. A criança veio de um ambiente e do acolhimento de um útero diferente daquele toque - o bebê sente isso - e a shantala é um momento de construção dessa nova relação, desse novo toque com esse novo ser de cuidado", relata.

Cada sessão de shantala dura cerca de vinte minutos e o pacote custa R$150. As mães recebe, todas as orientações necessárias para aplicar a técnica em casa. Outras informações pelo telefone: 3211 6769.

Origens

A shantala é uma massagem indiana que foi "descoberta" para o ocidente quando o obstetra francês Frédérick Leboyer estava a passeio no sul da Índia e viu uma mãe fazendo essa massagem no filho. Ele ficou encantado com a expressão de satisfação do bebê e de felicidade da mãe; observou e conseguiu que a mãe deixasse ser fotografada no ato. Na Índia, a shantala é uma massagem tradicional, passada de mãe para filha, tão importante quanto a amamentação.

Depois de fotografar, Leboyer passou a entender a massagem; e como não tinha nome, ele batizou a técnica como Shantala, nome da mulher observada. O obstetra começou então a difundir a técnica no mundo e no Brasil chegou em 1976. "Na verdade, ele queria humanizar o pós-parto. Quando a criança nasce, ela tem uma quebra abrupta de vínculo. E principalmente aqueles que nascem de cesária", observa Liz Helena. "O parto normal promove uma massagem quando a criança passa pelo canal do parto. E a cesária já não tem."


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