O baile de formatura do curso de Administração da Universidade Potiguar (Unp), realizado no último sábado não foi o mesmo. Isso porque uma das formandas, Juliana Nobre, não pôde ir. Ela estava no hospital Walfredo Gurgel, cuidando do noivo, Fernando José Soares Lima, de 31 anos, que havia sido internado em estado grave no final da tarde do dia anterior, após ser atingido por um policial militar na estrada para Macaíba, na Grande Natal. Fernando Soares perdeu o rim direito, uma parte do intestino, do fígado e a vesícula com o tiro.
Emanuel Amaral
Fernando Soares perdeu o rim direito, uma parte do intestino, do fígado e a vesícula, em razão do tiro disparado pelo policial
O caso aconteceu por volta das 16h50, quando Fernando José, que é supervisor de vendas, voltava do ensaio do baile de formatura, realizado no Canaã Recepções. Ele conduzia o veículo Gol de cor chumbo e estava atrás de outros dois veículos, que também estavam no ensaio. Juliana Nobre estava com as amigas em um carro logo atrás do noivo.
"Vi uma viatura da Polícia Militar, mas não parei. Passei despercebido. Eles também não estavam fazendo barreira policial alguma, nem pediram para parar. Depois que passei por eles foi que ouvi os disparos. Um, por sinal, acertou o retrovisor do carro. Puxei o freio de mão na hora. Houve então mais um disparo em seguida, com o carro já parado, que entrou pela mala, perfurou o banco traseiro, o meu banco e me atingiu", contou Fernando José. A bala que acertou o supervisor de vendas - disparada por uma pistola .40 - só parou embaixo do volante do veículo.
Depois de baleado, Fernando José afirmou que os policiais mandaram ele descer do carro com a mão na cabeça, porém, ao verem que o tinham atingido, se desesperaram. "Eles ficaram nervosos, disseram que tinham feito besteira e acertado 'o cara' errado assim que viram o crachá da empresa em que trabalho, que eu estava usando naquele momento", contou Fernando, revelando que no momento em que era socorrido, um dos PMs ainda afirmou "nós vivemos no fio da navalha, é muito nervosismo". "Como se isso o desse o direito de atirar em qualquer um", respondeu Fernando a ele.
Os policiais militares o levaram para o hospital Walfredo Gurgel e ele precisou passar por uma cirurgia para conter a hemorragia. "Eles se preocuparam em me socorrer porque perceberam que era um trabalhador e não um bandido. Graças a Deus estou vivo e tenho várias testemunhas que podem provar que não fiz nada de errado no momento da abordagem", afirmou Fernando.
Ainda internado no hospital, mas já sem risco de morte, o supervisor de vendas afirma que espera justiça. "Assim que sair daqui, vou procurar meus direitos. Quero que o responsável pague. Quero indenização, porque ninguém vai me trazer de volta os órgãos que perdi", afirmou.
Policiais procuravam quadrilhaSegundo o major Francisco Canindé Espínola, comandante do 9º Batalhão da Polícia Militar, de onde eram os policiais envolvidos no caso, as viaturas estavam à procura de três homens que haviam praticado um sequestro relâmpago próximo à entrada para o conjunto Cidade Satélite. Os bandidos estavam em um Siena preto e haviam assaltado e roubado um outro veículo - um Sorento prata, achado no mesmo dia, abandonado.
Após um alerta do Centro Integrado de Operações de Segurança Pública (Ciosp), para atender à ocorrência, algumas viaturas do 9º Batalhão foram em busca dos envolvidos na região. "Nós recebemos um chamado do sargento Pedro, que estava na viatura 934, pedindo reforço porque estava perseguindo um Gol. Atendemos o pedido e, em questão de instantes, recebemos um outro chamado da viatura 932 já para dizer que estava levando uma pessoa baleada para o hospital Walfredo Gurgel", contou o major Espínola. O comandante do 9º Batalhão informou ainda que a Polícia Militar fez tudo para atender o supervisor de vendas rapidamente e, inclusive, descartou a versão dada inicialmente por Fernando Soares, de que o PM responsável pelos disparos teria fugido. "O sargento Pedro assumiu a autoria dos tiros. Afirmou que tentou acertar o pneu do veículo. A armada dele foi levada para a perícia, ele foi com o rapaz ao Walfredo Gurgel e, logo em seguida, prestou depoimento sobre o ocorrido".
O major Espínola afirmou ainda que tudo que podia ser feito de maneira legal os PMs fizeram. "Fernando foi socorrido, a área foi isolada para não haver contaminação, chamamos o delegado de plantão e o Instituto Técnico-Científico de Polícia (Itep) para o local. E, inclusive, tivemos que insistir para que eles comparecessem", afirmou o major.