Taxistas relatam dificuldades em se trabalhar na praça
Publicação: 07 de Fevereiro de 2010 às 00:00
Marcelo Hollanda - Repórter
Durante o último Carnatal, segundo estimativa do Sindicato dos Condutores Autônomos de Veículos Rodoviários e Táxis do RN, 80 mil corridas foram realizadas nos quatro dias da festa, tendo como destino e saída o corredor da folia.
Não por acaso, um tapete vermelho foi providenciado para pavimentar o trajeto dos foliões que iam e vinham dali, numa daquelas raras oportunidades que profissionais autônomos têm de levantar um bom dinheirinho.
Encerrada a alta temporada e tirando eventos e épocas excepcionais do ano, o que sobra para os quase três mil motoristas de taxi de Natal é, na verdade, muito pouco. Quase nada.
Dona oficialmente de 1.010 concessões de taxi, 90% disso na capital, o RN há anos persegue a ideia coerente de um taxista para cada mil habitantes. Afinal, a praça é pequena e o certo é que cada profissional autônomo tenha direito a aspirar a uma clientela em condições de financiar sua prestação de serviços, oferecendo uma qualidade em permanente ascensão.
Certo? Errado
As pouco mais de mil placas existentes - como são chamadas as concessões - abrigam quase três vezes esse número de condutores.
A estatística é outra dessas estimativas que não está em documentos oficiais - e sim no imaginário dos próprios taxistas que fazem a vida na praça.
Desde que o Sindicato dos Condutores Autônomos foi criado, em 1959, 10.600 taxistas já tiveram seus nomes nas fichas de filiação.
Desde 2000, quando a então prefeita de Natal, Wilma de Faria, impôs a obrigatoriedade de uma capacitação profissional de 50 horas para cada profissional em atividade, cinco mil pessoas receberam noções sobre legislação, direção defensiva, etiqueta e como se comportar em situações de emergência.
Segundo Ladjane Sarmento da Silveira, coordenadora de desenvolvimento profissional do Serviço Nacional de Aprendizagem do Transporte, que atende a todo e qualquer profissional do volante, a rotatividade entre os taxistas "é muito grande".
Só no Senat passam pelos cursos gratuitos por volta de 300 profissionais por ano em média. Mas, ela admite que muitos desistem ao completar os primeiros seis meses de atividade na praça.
O próprio presidente do sindicato da categoria, Alexis Manguinho Jr., que diz ter trabalhado no passado como mecânico de helicópteros no Norte do País, compara a profissão de taxista em Natal à de garimpeiro na Amazônia - aquele que faz seu almoço acocorado na beira do rio.
"Nosso taxista aqui trabalha acima de 16 horas por dia", confirma - "porque do contrário não consegue tirar o sustento", acrescenta.
Diária de um táxi é de R$ 120,00
Na cadeia alimentar do taxista, a base da pirâmide é o que na gíria dos profissionais do setor atende pelo nome de "defesa".
"É o que defende o prato de comida", explica Nivaldo Soares da Silveira, 50 anos, oito anos de praça e representante da categoria.
"Defesa", na linguagem dos taxistas, é quem não é dono do automóvel que dirige e, portanto, paga uma diária escorchante de R$ 120,00 em média para o dono da concessão para desfrutar do direito de trabalhar. "E se o sujeito atrasar por um ou dois dias o pagamento da diária mandam ele andar", conta o taxista Nicolas da Silva, representante de uma camada mais privilegiada - do profissional dono, ao mesmo tempo, do carro e da concessão. A única coisa que torna Nicolas diferente entre os iguais da sua espécie é que ele dirige o carro.
Pesquisa informal junto aos pontos de Natal indicou que, trabalhando muitas horas, é possível amealhar no final de um dia entre R$ 80,00 a R$ 100,00 - com sorte. Ao cobrar em média uma diária de R$ 120,00 de quem dirige, o "dono da placa" faz com que um mesmo carro tenha muitos motoristas diferentes, cobrindo todas as horas do dia e da noite.
Entre aqueles que são donos de suas concessões e os chamados "defesas", que segundo cálculos dos taxistas representam 70% dos profissionais em atividade, há ainda uma figura intermediária. Trata-se do profissional dono do carro (o meio de produção), mas que não é dono da concessão. Quando este autônomo se propõe a dirigir profissionalmente na praça, o documento de seu próprio veículo passa para o nome do titular da concessão.
O taxista Francisco das Chagas Alves, cujo o ponto está no Alecrim, é um dos muitos profissionais nessa condição. "É incrível a força do dono da concessão sobre o dono original do veículo", admira-se.
Nesse caso, um contrato de gaveta costuma ser feito entre concessionário e condutor, no qual geralmente o "dono da placa" se exime de qualquer responsabilidade quanto à manutenção e outros custos fixos ou eventuais do carro. "Nessas condições, o dono da concessão deixa claro que trabalha quem quer", diz Francisco das Chagas.
Concessões estão nas mãos de poucos
No "pântano" em que se transformaram as relações de trabalho no meio, ganha dinheiro "quem não trabalha e os amigos do presidente do sindicato", acusa o taxista Nícolas da Silva, com ponto na Presidente Bandeira, no Alecrim. "Posso publicar isso?", pergunta o jornalista. "Pode escrever aí", responde prontamente.
E vai mais longe: segundo ele, é notório na praça a concentração de concessões nas mãos de poucas pessoas. "Tem estrangeiros e brasileiros donos de 20, até 30 concessões e isso na minha opinião é uma forma de lavagem de dinheiro", dispara Nicolas.
Ouvindo taxistas em diferentes áreas da cidade, a TRIBUNA apurou que uma concessão de taxi em Natal pode ser facilmente vendida hoje por R$ 70 mil - mais cara que os R$ 50 mil apurados em transações no Distrito Federal, segundo reportagem recente do jornal Correio Brasiliense.
Há muitos anos não existem concessões disponíveis para novos taxis na praça de Natal. Mas vários taxistas ouvidos pela TRIBUNA afirmaram que, com dinheiro na mão, é possível acumular muitas "placas" na praça.
Na última sexta-feira, o secretário Keops Lima, de Mobilidade Urbana, não foi localizado em seu celular para comentar o assunto.
A despeito de tudo isso, há consenso que os serviços, de maneira geral, não tem causado grandes constrangimentos aos usuários. A Delegacia do Turista de Ponta Negra não tem registrado casos envolvendo taxistas como no passado, quando a presença de turistas estrangeiros era bem maior. As reclamações concentravam-se em turistas que usavam os serviços de prostitutas agenciadas por taxistas da região.
Segundo o presidente do Sindicato dos Condutores Autônomos, a frota média de taxis de Natal é de quatro anos para baixo. "Quem ainda têm carros antigos sofre a rejeição direta do consumidor e a tendência é que se retire da praça", diz Alexis Manguinho.