Andrielle Mendes - repórter
entrevista - José Lacerda e Aristotelina Pereira Rocha - autores do livro “História da Industrialização do Rio Grande do Norte: Uma história de resistência”
A história da indústria do Rio Grande do Norte é, sobretudo, uma história de resistência. A conclusão está estampada na capa do livro de José Lacerda, Aristotelina Rocha e Giovanni Sérgio, publicado em 2011, com patrocínio da Federação das Indústrias do RN. O início da atividade industrial do Rio Grande do Norte é longínquo. Remonta de 1603, ano de origem do primeiro engenho de açúcar. Mas foi a partir da década de 50 que a indústria se diversificou. Algumas atividades se expandiram e outras foram extintas, como a produção de óleo de caroço de algodão. A indústria potiguar caminha, na ótica de Lacerda, dentro do seu próprio ritmo. Para Aristotelina, o estágio atingido pela indústria potiguar condiz com a origem econômica do estado. Os dois reconhecem, na entrevista, que muitos projetos que prometiam impulsionar a indústria local ficaram pelo caminho, e ressaltam a importância de olhar para o futuro e aproveitar melhor as oportunidades.
Como se deu o processo de industrialização do Rio Grande do Norte?
Aristotelina: A criação da Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene) – autarquia vinculada ao Ministério da Integração idealizada para reduzir as desigualdades regionais - foi responsável por nosso começo.
Lacerda: Em 1950, o RN vive a expansão da mineração de scheelita, o surgimento da indústria cotonicultora, das fábricas de óleos comestíveis, das fábricas de café. Temos ainda na década de 50 o retorno da fábrica Dore para Natal e da fábrica Guararapes, que tinha se instalado inicialmente em Recife. A década de surgimento da Tribuna do Norte é uma década rica para o desenvolvimento industrial do estado. É o momento em que a agroindústria e a indústria mineral vivem seu apogeu. Na década seguinte, a indústria vai sentir os primeiros sinais de dificuldades, porque uma série de inovações tecnológicas vão surgir e vão retirar do mercado ou comprometer os nossos produtos.
O que ocorre com a nossa indústria depois de ser impactada com essas mudanças externas?
Lacerda: a tendência dela é se fragilizar. E em alguns casos, até fechar. Foi isso o que aconteceu com as nossas fábricas de óleo.
O RN não conseguiu acompanhar a modernização dos processos?
Lacerda: A gente não conseguiu desenvolver tecnologias que nos permitissem acompanhar esse processo de inovação tecnológica. Nossos produtos saiam daqui para serem trabalhados lá fora. A gente não agregava valor ao produto. O que a gente fazia era beneficiar a matéria-prima.
Esse problema foi percebido já na década de 60...
Aristotelina: Isso, nossa agroindústria não se modernizou.
Nossa indústria evoluiu ou continuamos apenas beneficiando matéria-prima?
Lacerda: Acho que teve sim uma evolução. A Sudene investiu na reindustrialização do Nordeste e acreditou que conseguiria colocar a região novamente no eixo do desenvolvimento. O RN vai criar na década de 70 o seu polo têxtil e de confecções, baseado nos incentivos da Sudene. Cria-se um território para as indústrias se instalarem e há uma certa sustentabilidade por conta disso. Quando esses incentivos cessam, essas indústrias não conseguem se manter no mercado. Elas não conseguiram inovar em seus processos e se preparar para quando esses incentivos deixassem de existir.
Lacerda: O grupo UEB (União das Empresas Brasileira), que se instalou no RN com financiamento da Sudene, criou no estado a indústria têxtil Seridó, com incentivos da Sudene. Essa e outras indústrias do ramo tem uma vida efêmera. Elas começam a funcionar em meados dos anos 70 e não chegam ao início dos anos 80.
Mas por que as indústrias não conseguem se manter no RN, depois que cessam os incentivos?
Lacerda: Justamente porque não adquirem tecnologia suficiente para competir com indústrias de outras partes do país. Você não tem o processo de modernização tecnológica que as indústrias que estão em São Paulo tem. A camisa produzida aqui fica mais cara do que a produzida em São Paulo. Antes não ficava caro, porque a empresa tinha incentivos e conseguia competir.
É uma questão do Rio Grande do Norte?
Lacerda: é uma questão do Nordeste. Agora dependendo de cada estado, você vai ter um comportamento diferente. Tem estado que existe mais. Outro tem uma indústria que se modernizou. Tem as exceções. A Guararapes, por exemplo, conseguiu sobreviver. Não é um processo generalizado.
Que setores mais se destacaram ao longo da história da indústria no RN?
Lacerda: a indústria têxtil foi a que mais avançou.
Aristotelina: até o estado foi considerado referência em indústrias têxteis no Nordeste.
Lacerda: Mesmo assim não se conseguiu manter este polo com a mesma dinâmica com a qual ele foi criado. Você percebe que a Coteminas reduz sua atividade no estado e planeja usar a área para outro fim. Você tem esse momento de apogeu, e depois de dificuldades e de queda da indústria do estado. O que temos hoje é uma indústria mais diversificada, com mais acesso às tecnologias, e consequentemente mais capacidade de se manter no mercado. Temos indústrias se mantendo apesar das crises, como é o caso da indústria salineira. Outro fato interessante é o retorno da indústria de mineração. Temos novos minérios sendo extraídos, como o ouro, e temos o minério de ferro. A grande questão do minério de ferro é que nós não temos uma logística para escoar a produção. Estamos trazendo em caminhões para o Porto de Natal, que também não é está adequado para fazer a exportação desse minério. Essas são as dificuldades que a nossa indústria se defronta.
Há alguma atividade industrial que entrou em declínio por falta de incentivo?
Lacerda: eu não colocaria dessa forma, porque daria a entender que essa indústria só anda se ela tiver uma muleta, se tiver incentivo. E perceba, o Estado perdeu a capacidade de ser o provedor dessas situações, de ser o provocador do desenvolvimento, pelo menos no mesmo nível que foi no passado. O Estado perdeu sua capacidade de investimento, de ser uma espécie de articulador e financiador de determinados projetos. Nós tínhamos o projeto do Polo Gás-Sal, que foi um dos projetos que há três décadas alimentam o sonho de redimir o estado em termos de economia. O estado fez alguns investimentos, equipamentos chegaram a ser adquiridos e montados, até vila foi construída, no entanto isso, o polo, não se concretizou.
Que outros projetos que prometiam impulsionar a indústria local ficaram pelo meio do caminho?
Lacerda: A gente teve vários sonhos, mas não teve condições de executar a maioria deles. Acredito que a realidade de hoje não elimina, mas reduz a possibilidade desse tipo de intervenção e depois eu acho que gente está chegando a um tipo de capitalismo, que se você tiver o mercado, você vai terminar tendo as condições de produzir.
O mercado consumidor é determinante, mas o Estado não pode criar um ambiente favorável para que as indústrias se instalem aqui?
Lacerda: O estado já faz alguma coisa, dentro das suas limitações. O estado, por exemplo, tem o Proadi, que beneficia 112 empresas. Essas 112 empresas criaram mais de 30 mil empregos. E há mais 33 solicitando o Proadi e 10 solicitando prorrogação do programa.
O que atravanca a economia do RN?
Lacerda: Eu não consigo ver a indústria potiguar atravancada. Você tem uma indústria para esse tempo de história. Comparar Rio Grande do Norte com Pernambuco e Ceará não é um bom comparativo. Esses estados se industrializaram muito antes.
Aristotelina: a origem da formação econômica desses estados é diferente e distante.
Lacerda: Esses estados tem um capital importante, que é o capital humano. As universidades chegam primeiro lá. Isso faz uma diferença muito grande.
Dá para começar a criar isso no RN?
Lacerda: Nós estamos criando. A gente está participando desse momento. O nosso avanço é proporcional às nossas condições.
Vocês conseguem visualizar soluções que possam impulsionar a nossa indústria?
Lacerda: Eu acho que não há nenhuma fórmula abracadabra. Eu acho que o estado tem que estar antenado para aproveitar as oportunidades. Às vezes perdemos porque partimos muito tarde. O grande papel das pessoas que pensam o estado é ter esse olhar, para a gente chegar junto.
entrevista - José Lacerda e Aristotelina Pereira Rocha - autores do livro “História da Industrialização do Rio Grande do Norte: Uma história de resistência”
A história da indústria do Rio Grande do Norte é, sobretudo, uma história de resistência. A conclusão está estampada na capa do livro de José Lacerda, Aristotelina Rocha e Giovanni Sérgio, publicado em 2011, com patrocínio da Federação das Indústrias do RN. O início da atividade industrial do Rio Grande do Norte é longínquo. Remonta de 1603, ano de origem do primeiro engenho de açúcar. Mas foi a partir da década de 50 que a indústria se diversificou. Algumas atividades se expandiram e outras foram extintas, como a produção de óleo de caroço de algodão. A indústria potiguar caminha, na ótica de Lacerda, dentro do seu próprio ritmo. Para Aristotelina, o estágio atingido pela indústria potiguar condiz com a origem econômica do estado. Os dois reconhecem, na entrevista, que muitos projetos que prometiam impulsionar a indústria local ficaram pelo caminho, e ressaltam a importância de olhar para o futuro e aproveitar melhor as oportunidades.
Como se deu o processo de industrialização do Rio Grande do Norte?
Aristotelina: A criação da Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene) – autarquia vinculada ao Ministério da Integração idealizada para reduzir as desigualdades regionais - foi responsável por nosso começo.
Lacerda: Em 1950, o RN vive a expansão da mineração de scheelita, o surgimento da indústria cotonicultora, das fábricas de óleos comestíveis, das fábricas de café. Temos ainda na década de 50 o retorno da fábrica Dore para Natal e da fábrica Guararapes, que tinha se instalado inicialmente em Recife. A década de surgimento da Tribuna do Norte é uma década rica para o desenvolvimento industrial do estado. É o momento em que a agroindústria e a indústria mineral vivem seu apogeu. Na década seguinte, a indústria vai sentir os primeiros sinais de dificuldades, porque uma série de inovações tecnológicas vão surgir e vão retirar do mercado ou comprometer os nossos produtos.
Júnior Santos
José Lacerda Alves Felipe é subsecretário de Planejamento do Governo do Estado e pesquisou Estudos Urbanos e Regionais
José Lacerda Alves Felipe é subsecretário de Planejamento do Governo do Estado e pesquisou Estudos Urbanos e RegionaisO que ocorre com a nossa indústria depois de ser impactada com essas mudanças externas?
Lacerda: a tendência dela é se fragilizar. E em alguns casos, até fechar. Foi isso o que aconteceu com as nossas fábricas de óleo.
O RN não conseguiu acompanhar a modernização dos processos?
Lacerda: A gente não conseguiu desenvolver tecnologias que nos permitissem acompanhar esse processo de inovação tecnológica. Nossos produtos saiam daqui para serem trabalhados lá fora. A gente não agregava valor ao produto. O que a gente fazia era beneficiar a matéria-prima.
Esse problema foi percebido já na década de 60...
Aristotelina: Isso, nossa agroindústria não se modernizou.
Nossa indústria evoluiu ou continuamos apenas beneficiando matéria-prima?
Lacerda: Acho que teve sim uma evolução. A Sudene investiu na reindustrialização do Nordeste e acreditou que conseguiria colocar a região novamente no eixo do desenvolvimento. O RN vai criar na década de 70 o seu polo têxtil e de confecções, baseado nos incentivos da Sudene. Cria-se um território para as indústrias se instalarem e há uma certa sustentabilidade por conta disso. Quando esses incentivos cessam, essas indústrias não conseguem se manter no mercado. Elas não conseguiram inovar em seus processos e se preparar para quando esses incentivos deixassem de existir.
Lacerda: O grupo UEB (União das Empresas Brasileira), que se instalou no RN com financiamento da Sudene, criou no estado a indústria têxtil Seridó, com incentivos da Sudene. Essa e outras indústrias do ramo tem uma vida efêmera. Elas começam a funcionar em meados dos anos 70 e não chegam ao início dos anos 80.
Mas por que as indústrias não conseguem se manter no RN, depois que cessam os incentivos?
Lacerda: Justamente porque não adquirem tecnologia suficiente para competir com indústrias de outras partes do país. Você não tem o processo de modernização tecnológica que as indústrias que estão em São Paulo tem. A camisa produzida aqui fica mais cara do que a produzida em São Paulo. Antes não ficava caro, porque a empresa tinha incentivos e conseguia competir.
É uma questão do Rio Grande do Norte?
Lacerda: é uma questão do Nordeste. Agora dependendo de cada estado, você vai ter um comportamento diferente. Tem estado que existe mais. Outro tem uma indústria que se modernizou. Tem as exceções. A Guararapes, por exemplo, conseguiu sobreviver. Não é um processo generalizado.
Júnior Santos
Aristotelina Pereira Barreto Rocha é professora da Escola Agrícola de Jundiaí e desenvolveu estudos em Dinâmica Regional e Econômica do RN
Aristotelina Pereira Barreto Rocha é professora da Escola Agrícola de Jundiaí e desenvolveu estudos em Dinâmica Regional e Econômica do RNQue setores mais se destacaram ao longo da história da indústria no RN?
Lacerda: a indústria têxtil foi a que mais avançou.
Aristotelina: até o estado foi considerado referência em indústrias têxteis no Nordeste.
Lacerda: Mesmo assim não se conseguiu manter este polo com a mesma dinâmica com a qual ele foi criado. Você percebe que a Coteminas reduz sua atividade no estado e planeja usar a área para outro fim. Você tem esse momento de apogeu, e depois de dificuldades e de queda da indústria do estado. O que temos hoje é uma indústria mais diversificada, com mais acesso às tecnologias, e consequentemente mais capacidade de se manter no mercado. Temos indústrias se mantendo apesar das crises, como é o caso da indústria salineira. Outro fato interessante é o retorno da indústria de mineração. Temos novos minérios sendo extraídos, como o ouro, e temos o minério de ferro. A grande questão do minério de ferro é que nós não temos uma logística para escoar a produção. Estamos trazendo em caminhões para o Porto de Natal, que também não é está adequado para fazer a exportação desse minério. Essas são as dificuldades que a nossa indústria se defronta.
Há alguma atividade industrial que entrou em declínio por falta de incentivo?
Lacerda: eu não colocaria dessa forma, porque daria a entender que essa indústria só anda se ela tiver uma muleta, se tiver incentivo. E perceba, o Estado perdeu a capacidade de ser o provedor dessas situações, de ser o provocador do desenvolvimento, pelo menos no mesmo nível que foi no passado. O Estado perdeu sua capacidade de investimento, de ser uma espécie de articulador e financiador de determinados projetos. Nós tínhamos o projeto do Polo Gás-Sal, que foi um dos projetos que há três décadas alimentam o sonho de redimir o estado em termos de economia. O estado fez alguns investimentos, equipamentos chegaram a ser adquiridos e montados, até vila foi construída, no entanto isso, o polo, não se concretizou.
Que outros projetos que prometiam impulsionar a indústria local ficaram pelo meio do caminho?
Lacerda: A gente teve vários sonhos, mas não teve condições de executar a maioria deles. Acredito que a realidade de hoje não elimina, mas reduz a possibilidade desse tipo de intervenção e depois eu acho que gente está chegando a um tipo de capitalismo, que se você tiver o mercado, você vai terminar tendo as condições de produzir.
O mercado consumidor é determinante, mas o Estado não pode criar um ambiente favorável para que as indústrias se instalem aqui?
Lacerda: O estado já faz alguma coisa, dentro das suas limitações. O estado, por exemplo, tem o Proadi, que beneficia 112 empresas. Essas 112 empresas criaram mais de 30 mil empregos. E há mais 33 solicitando o Proadi e 10 solicitando prorrogação do programa.
O que atravanca a economia do RN?
Lacerda: Eu não consigo ver a indústria potiguar atravancada. Você tem uma indústria para esse tempo de história. Comparar Rio Grande do Norte com Pernambuco e Ceará não é um bom comparativo. Esses estados se industrializaram muito antes.
Aristotelina: a origem da formação econômica desses estados é diferente e distante.
Lacerda: Esses estados tem um capital importante, que é o capital humano. As universidades chegam primeiro lá. Isso faz uma diferença muito grande.
Dá para começar a criar isso no RN?
Lacerda: Nós estamos criando. A gente está participando desse momento. O nosso avanço é proporcional às nossas condições.
Vocês conseguem visualizar soluções que possam impulsionar a nossa indústria?
Lacerda: Eu acho que não há nenhuma fórmula abracadabra. Eu acho que o estado tem que estar antenado para aproveitar as oportunidades. Às vezes perdemos porque partimos muito tarde. O grande papel das pessoas que pensam o estado é ter esse olhar, para a gente chegar junto.