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Natal, 25 de Maio de 2012 | Atualizado às 15:33

Tetos da condição humana

Publicação: 05 de Setembro de 2010 às 00:00
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Cláudio Emerenciano [ Professor da UFRN ]

As estrelas da manhã. Adornam e brilham no firmamento, enquanto as primeiras claridades salpicam o dia e a vida. Suscitando os cantos primários de aves nos jardins e quintais. Na primavera do clima temperado, a cotovia desperta casais míticos de apaixonados: Romeu e Julieta, Abelardo e Heloísa, Petrarca e Laura. Os sinos a tocar e a repicar. Os pássaros inebriam e aguçam a sensibilidade dos madrugadores. As rosas, flores e folhas, que o vento matinal sacode, distendem-se e fazem uma aspersão intensa do seu aroma. A despedida, naquele último instante, em que as faces da noite se diluem numa réstia longínqua do horizonte até desaparecer. O cantar do galo, que não é o último, mas sucede aqueles tantos que vigiam, incessantemente, o fluir da noite e a aproximação da aurora. Cantar que testemunhou a negação de Pedro e o seu arrependimento. E que freqüenta todos os tempos, culturas e povos. Conhece as grandezas e as fragilidades humanas. Sente-as pelo olhar, espelho da alma. Numa cena trágica e amarga, uma vila destruída na Primeira Guerra, na fronteira da Alemanha com a França, no livro "Nada de novo no front", de Erich Maria Remarque, o galo é o único sobrevivente da chacina. Testemunha da loucura e insensatez dos homens.

Os primeiros instantes do dia, acolhidos pela suavidade dos sopros da natureza, assumem a prerrogativa de uma metáfora. Que pode projetar sonhos, sentimentos e alegrias, ou apenas tênue ilusão, desfazendo uma perspectiva de felicidade. Foi assim, nesse mesmo contexto, que Gandhi contemplou o Oceano Índico. Nele imergiu seu pensamento, perscrutou seu espírito, buscou a Deus e iniciou a fase mais épica da "Não Violência". Infundiu em milhões e milhões a convicção de que o sofrimento, como oferta do homem a Deus e aos semelhantes, é a mais contundente forma de celebrar a identidade de uns com os outros. Rumo à libertação. Seu exemplo comoveu o mundo. Tornou-o, como disse Albert Einstein, a "voz da consciência da humanidade". Como São Francisco de Assis, nas excepcionais biografias de Chesterton e Julien Green, a fé lhe deu o conhecimento e a prática do amor, erradicando de si o medo, a dúvida e a insegurança. São Francisco foi a mais sublime "imitação do Cristo".

Há quem considere a vida uma aventura sem nexo. Movida pela fatalidade. Cada um pensa como quer. Mas os laços humanos dão sentido e força às formas de aprimoramento individual e coletivo. Quanto mais se eliminam os grilhões e a degradação do homem, mais largo é o caminho de realização dos sonhos, que se amontoam e se renovam desde o nascer dos tempos. Viver é mudar lentamente. Crescer em todas as dimensões. A substância e o sentido da felicidade repousam na partilha do que é bom para todos. Pelo menos no essencial, como dizia o gênio inimitável de André Malraux. Assegurando sua ascensão moral, cultural e espiritual. A construção da felicidade se obsta por antagonismos gerados pelo próprio homem: miséria, injustiça, violência, desumanidade, ignorância, insensatez, mentira, ódio, corrupção e felonia.

A condição humana pode ascender a patamares que a purificam. São os tetos de sua existência. De onde os homens descortinam sua própria grandeza pela prática do amor. Pelo compromisso com a verdade. Pela lucidez e racionalidade para discernir, escolher, ampliar e desfrutar os caminhos de busca sem fim da felicidade. Entardece neste setembro. As nuvens me convidam a refletir e um frio agradável me alicia. Inspiram-me. As estrelas de novo se mostram cintilantes. Os ventos que sopram do mar para a cidade me "fazem voar". Alcanço os tetos da minha imaginação. Sinto-me transportar para altitudes das quais contemplo o "lusco-fusco", a volta para casa, os enamorados que se estreitam, as crianças que riem, os idosos que se dão às mãos, o manto cinzento que, pouco a pouco, é desfeito pelas luzes da cidade, das ruas, das casas, dos edifícios, das praças, dos carros e coletivos. Acima dos tetos, a vida continua... 

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