Tradições folclóricas estão ameaçadas

Publicação: 26 de Fevereiro de 2006 às 00:00 | Comentários: 0
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Marcelo BarrosoMAMULENGUEIRO - Chico Daniel ama o que faz e sente orgulho ao ver o interesse do neto Jonatas pelos bonecosMAMULENGUEIRO - Chico Daniel ama o que faz e sente orgulho ao ver o interesse do neto Jonatas pelos bonecos

O avançar dos anos vem trazendo um grande receio entre aqueles que são os antigos representantes das manifestações folclóricas potiguares. O medo é que elas possam cair no esquecimento da população e se perder no tempo, deixando como vestígios, apenas registros históricos em livros e documentos. O papel, no entanto, talvez seja um meio um tanto frio para uma arte que só se enxerga e se é percebida de fato enquanto manifestação viva da cultura popular.

Congos, Mamulengueiros (ou como conhecido popularmente, João Redondo), Araruna, Côco de Zambê, Boi de Reis. Todos são tradições folclóricas genuinamente norte-riograndenses, embora para muitas pessoas, não passem de nomes estranhos, lidos ou divulgados esporadicamente pela mídia.

Alguns mestres de brincadeiras típicas acreditam que certas tradições vão se perder no tempo pela falta de interesse das pessoas em aprender e por falta de apoio dos governantes em mantê-las como representações da cultura local. O mestre dos Congos de Calçola de Ponta Negra, José Correia, conta - com decepção - que os jovens não estão ao menos preocupados com isso. “Os jovens só pensam em se remexer com essas músicas que tocam por aí e usar drogas.”

O congo é uma dança dramática de origem africana que narra uma peleja por conflitos de terra. Soldados, reis, príncipes e embaixadores são os personagens do folguedo. Hoje, os Congos de Calçola de Ponta Negra, que  são liderados pelo mestre Correia, contam com 16 participantes. Os soldados lutam com espadas e maracás sob o ritmo do tarol.

“Eu aprendi todos os versos originais com meu pai. As canções mais antigas e tradicionais só quem sabe no Rio Grande do Norte sou eu e,  infelizmente, meu único filho que sabia brincar, faleceu”, lamenta o mestre, recordando do pai, o mestre Sebastião Correia. “Um dos maiores mestres de Congos de todos os tempos”, ressalta o folclorista Deífilo Gurgel, que se dedica às manifestações folclóricas do Estado há 40 anos.

A tradição familiar é notável, e como não poderia deixar de ser, o pai aprendeu o folguedo com o avô. Nascido em 1906, o mestre Sebastião Correia já brincava o congo em 1912 e assim permaneceu até a morte, em 1985. “Meu avô era o comandante da brincadeira e meu pai o acompanhava. Logo cedo eu também quis aprender.” E aprendeu tanto que, na análise de Deífilo Gurgel, conseguiu superar o pai.

O mamulengueiro Chico Daniel também aprendeu a manipular seus bonecos com o pai. Com 65 anos de idade, passou a vida a brincar com o João Redondo, que é um dos principais personagens dos bonecos. Acabou dando o nome à brincadeira por boa parte das pessoas que o associavam por ser o boneco mais famoso. Na verdade, a brincadeira se chama Mamulengo, que vem de ‘mão molenga’ ou ‘mão mole’. Um teatro de fantoches no qual a história dos personagens é embalada por canções satíricas.

Para o mestre Chico Daniel, que na realidade é Chico ‘de’ Daniel, pois é filho de outro grande mamulengueiro - Daniel Ângelo da Costa Neto - a tradição permanece na família até os dias de hoje. Um dos filhos, Josivan, seguiu o caminho dos bonecos, que o levam a São Paulo de tempos em tempos. 

“Comecei observando meu pai. Quebrava uns pedaços de pau de pinhão e fingia que eram os bonecos. Mas era escondido, ele não sabia. Até que um dia minha mãe contou a ele, e eu ganhei uns bonecos de presente”, relembra o mestre, que aos 13 anos de idade já percorria as escolas e as cidades vizinhas para divertir quem passasse. “Sempre fiz por amor a essa arte, mas uma hora tive que começar a cobrar já que nunca quis estudar mesmo”, afirma ele, que começou a ganhar alguns trocados aos 14 anos de idade.

Assim como o mestre Correia, Chico Daniel também acredita que um dia as manifestações folclóricas vivas podem ser esquecidas. “O povo não tem interesse e não temos o apoio devido dos governantes.” A filha, Francilúcia Ângelo da Costa, apesar de nunca ter seguido os passos do pai, também acha que deveria haver um maior compromisso com a manutenção do folclore local.

“Se for da vontade dele, eu dou apoio, pois também temo que essa tradição se acabe. Mas acho que para ele seguir como mamulengueiro, deveria ter ao menos o suporte do governo”, ressalva ela, considerando o retorno financeiro de um artista muito pequeno.

Jonatas mal sabe falar, mas já ganhou do avô uma mala com seu nome e seus bonecos - em tamanho personalizado, obviamente. Não está muito preocupado com o apoio dos outros. Ele quer brincar e parece já ter no sangue essa arte.

Artista cobra mais apoio e incentivo

“As pessoas estão interessadas sim. O problema é que ninguém quer bancar o trabalho da gente.” É com essa afirmação que o mamulengueiro Heraldo Lins Marinho Dantas diz ter plena certeza de que a tradição nunca irá se acabar. Para ele, essa questão de herança familiar é um tabu. “Na minha família não tem nenhum mamulengueiro. Me interessei por isso quando criança, ao assistir um show. Aquilo foi tão real para mim que morri de medo. Essa relação de amor e ódio está tão ligada que anos depois resolvi brincar com os bonecos”, relembra.

Natural de Caicó, Heraldo Lins fazia teatro amador e sempre reclamava com os colegas atores das farras que precediam as peças. Ele dizia que não era de bom senso beber antes de encenar. No entanto, nunca era levado a sério. “Então resolvi brincar com os bonecos. Ao menos eu sabia que eles poderiam me obedecer. Sem falar que sempre estariam ali quando eu precisasse”, explica, recordando que mandou confeccionar os bonecos a um mamulengueiro de Santa Cruz e começou a trabalhar com a arte profissionalmente em 1992.

“Mas os destruí em 1995, desgostoso por falta de apoio. Quando casei, meu sogro contava histórias mal sucedidas de artistas, como um mamulengueiro que foi velado em uma rede.”. Heraldo Lins conta que mais tarde, em 1997, o povo pediu que ele voltasse a brincar. E desde então permanece no ofício até os dias de hoje. “Sou um empreendedor cultural. Essa história de arte por amor é bobagem. Arte é dinheiro. O artista precisa ter retorno financeiro para aperfeiçoar o trabalho ao longo do tempo”, afirma ele.

“Todo mundo quer ver a brincadeira, mas ninguém quer pagar por ela. Esse foi um dos motivos que também me levaram a não dar aulas. Gasto R$ 300 em cada show pra receber R$ 40 a hora. Não compensa”, justifica. Para o mamulengueiro Heraldo Lins, não há risco de se perder essa tradição histórica, embora não demonstre receio caso aconteça. “Pessoalmente, não estou preocupado se isso vai se acabar ou não. Isso é um problema político e cultural. Mas acredito que não exista o risco de se perder. O mamulengo é uma brincadeira inerente ao ser humano”

Rendas trilham caminho da extinção

Além das manifestações folclóricas, outras atividades tradicionais do Estado também estão correndo o risco de serem dissolvidas com o tempo. As rendeiras, por exemplo, já são poucas e a maior parte delas já estão na terceira idade.

A rendeira Maria de Lurdes de Lima está com 71 anos de idade e lamenta o fato de as mulheres mais jovens não se interessarem pelo trabalho. Ela, que se dedica ao trabalho desde os sete anos, conta que as mais novas não querem aprender. Ela tem receio de que um dia a atividade, que é uma forte tradição potiguar, se acabe.

“Tive três filhas e quis ensinar todas, mas apenas uma se interessou. A mais velha. Cheguei a bater em uma delas porque ela se recusava a aprender. Mas hoje entendo que precisa vir da vontade da pessoa. Eu mesma só aprendi porque quis. E me dedico até hoje porque gosto e porque fui criada nesse ambiente”, explica Dona Maria, como é conhecida pelas pessoas. Ela conta que tem muitas netas e apenas uma, de 13 anos, se interessou em aprender. “Ela chegou a trabalhar uns três dias, depois desapareceu. Um dia a chamei e ela disse que estava assistindo televisão e que depois viria. Até hoje não voltou”, disse Maria, achando graça.

Ela não culpa os jovens de não estarem interessados em aprender. “Eu faço isso por amor, mas também por falta de opção. Sou filha de pescador e na minha época não havia tantas oportunidades como hoje. É claro que eles não vão querer se interessar, afinal, o retorno financeiro não vale à pena. Se eu dependesse de comer desse trabalho, já estava morta”.

Uma resistência enfraquecida

“A manifestação viva é muito mais interessante do que um simples papel. Quando comecei a estudar o folclore potiguar, não me limitava aos livros. O interesse em conhecer de verdade está em ver e sentir a emoção do folguedo. Viver as canções”, diz o folclorista Deífilo Gurgel. Segundo ele, essas manifestações podem se acabar sim, e se está cada vez mais próximo disso, mesmo que os registros históricos sempre permaneçam.

Para ele, a espontaneidade já acabou, embora aqui e ali ainda persistam algumas tradições por resistência de alguns representantes da cultura popular que ainda sobrevivem. “Na década de 20, Câmara Cascudo (Luís da Câmara Cascudo, potiguar considerado uma das maiores autoridades em folclore nacional) disse que em 20 anos, se os governos não tomassem providências para preservar essas manifestações, elas estariam acabadas. E embora já tenha quase um centenário e isso não tenha acontecido de fato, há algumas questões que são mais fortes hoje em dia. Naquela época não havia tantos apelos lúdicos em meios de comunicação de massa”, diz ele, citando programas de televisão como novelas e reality shows.

“O povo era obrigado a ir para o meio da rua se distrair. Era uma época de grandes autos populares. As Bandeirinhas em Touros no meio do ano; os Congos, o Boi e a Chegança no final do ano. O povo não tinha isso o tempo todo, então aguardava o ano todo para ver. Era a diversão de todos. Não havia TV, rádio e cinema, principalmente no Nordeste, onde tudo isso chegou com um pouco de atraso”, conta ele, mostrando que atualmente todas as manifestações sofrem com o impacto dos meios de comunicação de massa.

Na avaliação do folclorista, não há dúvidas de que os grupos folclóricos possam se dissolver com o passar dos anos e isso já vem acontecendo. Ele cita o exemplo dos Congos de Saiote de São Gonçalo do Amarante. “O mestre João Menino morreu e o grupo se desfez. Depois de muito tempo foi organizado um outro. Mas não tinha a mesma beleza e brilho de antes. Eles não tiveram estímulo para continuar”, recorda. Deífilo cita também o exemplo do mamulengueiro José Relâmpago. “Como nenhum filho quis aprender, com a morte do pai, o grupo se acabou.”

“Poucas são as pessoas que têm a sensibilidade cultural em apreciar e se divertir com os folguedos. No entanto, deve-se haver um esforço por parte do governo para não deixar a memória viva da cultura se esvaecer com o tempo”, diz ele, sugerindo que fosse construída uma Vila intitulada Chico Santeiro, pela qual todas as manifestações folclóricas tradicionais pudessem ter o espaço de divulgação. “É o meu sonho”, diz.

“É preciso preservar. Isso é o que temos de mais autêntico e mais nosso. O maior exemplo disso foi o recebimento da medalha de honra da Comenda de Mérito em Cultura Brasileira que a romanceira potiguar Dona Militana recebeu. Quantos doutores no RN receberam um mérito do tipo? Até hoje, nenhum.



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