Tráfico humano

Publicação: 2014-03-21 00:00:00 | Comentários: 0
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Pe. João Maria do Nascimento
Coordenador de Campanhas, na Arquidiocese de Natal

O tema da Campanha da Fraternidade deste ano traz uma grande preocupação dos dias atuais. O Brasil está entre os dez países do mundo que vive essa terrível forma de ameaça à vida que é o tráfico humano. Enquanto estamos vivendo várias formas de avanços da civilização no progresso e tecnologias, podemos perceber que quase nada foi pra frente e vivemos ainda com atividades que, aos olhos de Deus, são abomináveis, pois se trata de degradação da vida humana, tendo em vista que somos imagem e semelhança de Deus. O tráfico humano não pode ser aceito e nem se tornar comum e nem muito menos passar indiferente aos nossos olhos uma vez que rouba o que o ser humano tem de mais importante e mais precioso que é a sua dignidade.

 Mas, o que é tráfico humano? É um crime que atenta contra a dignidade da pessoa humana, já que explora o filho e a filha de Deus, limita suas liberdades, despreza sua honra, agride seu amor próprio, ameaça e subtrai a vida, quer seja da mulher, de homens ou crianças. As modalidades do tráfico correspondem a quatros formas de cruel realização. A primeira delas é o tráfico para o trabalho (trabalho escravo). Essa prática vem disfarçada e se mostra como uma alternativa, pois, em tempos difíceis, uma proposta de trabalho é sempre bem-vinda.  Inicialmente, tudo parece um verdadeiro ‘conto de fadas’; é o trabalho que caiu do céu: com ele, vou ganhar bem, ter casa, comida e roupa lavada. Daqui se originam tantas formas inaceitáveis de desrespeito para com o trabalhador através da negação das condições mínimas de trabalho, asseguradas pela CLT que, entre outras coisas, estabelece que ninguém pode ser remunerado com um valor inferior a um salário mínimo.

Uma outra modalidade é a do tráfico para a exploração sexual (homens e mulheres, crianças e adolescentes). A indústria do sexo movimenta milhões e milhões de dólares em todo o mundo. Essa prática explora principalmente as mulheres e, hoje, a elas se associa um elevado número de crianças e adolescentes, vítimas da pedofilia. São irmãos nossos obrigados a se prostituírem par manter uma forma desonesta de sobrevivência às custas da venda de seus corpos.

A terceira modalidade é a do tráfico de crianças para adoção ilegal. A adoção só pode ser efetivada dentro da legalidade, mas há muitas pessoas que se beneficiam desta prática para tirar proveito, muito embora muitos acreditam estar fazendo um favor ou praticando um ato bom. Tratam-se de ações ilegais e desprovidas de transparência, motivadas pelo interesse financeiro. A este crime se associa o tráfico de pessoas com vistas a extração de seus órgãos, que reduz a pessoa humana a uma mera mercadoria, comercializada inteira ou em partes para a satisfação da ganância e dos interesses financeiros de terceiros. Tudo isso é abominável aos olhos de Deus, que é o senhor da vida!

No Brasil, há bancos de doação de órgãos onde as pessoas voluntariamente se declaram doadoras e as famílias tomam ciência desta decisão, mas já no mundo do tráfico não se espera o trâmite legal e as pessoas se acham no direito de mutilar ou até mesmo matar para dar aos outros a possibilidade de viver. Tudo isso envolve uma rede criminosa muito bem articulada, empenha na realização de atividades tão ignóbeis, que reclamam da parte dos cristãos um posicionamento de oposição. Diz-nos o protocolo de Palermo: “O recrutamento, o transporte, a transferência, o alojamento ou o acolhimento de pessoas, recorrendo à ameaça ou uso da força ou a outras formas de coação, ao rapto, à fraude, ao engano, ao abuso de autoridade ou à situação de vulnerabilidade ou à entrega ou aceitação de pagamento ou benefícios para obter o consentimento de uma pessoa que tenha autoridade sobre outra para fins de exploração.”

Na maioria das vezes, mulheres e crianças, são levadas para fora do país, onde são prostituídas, violentadas e vendidas por preços altos. A face mais visível do problema é o turismo sexual e o embarque de mulheres dos países de origem para os países receptores em busca de oportunidades de trabalho em casas noturnas e boates. E também, a venda de órgãos, adoção ilegal, pornografia infantil, às formas ilegais de imigração com vistas à exploração do trabalho em condições análogas à escravidão, ao contrabando de mercadorias.

Portanto a Igreja ouvindo esse chamado conclama todos os fiéis e a toda sociedade para erradicar esse mal e a nos conscientizarmos de que é para liberdade que Cristo nos libertou.



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