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Natal, 22 de Fevereiro de 2012 | Atualizado às 23:53

Um ator de carisma

Publicação: 25 de Janeiro de 2012 às 00:00
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Yuno Silva - repórter

Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência. Ou não, como diria Caetano! O fato é que a minissérie "O Brado Retumbante" (TV Globo), no ar desde o último dia 17 de janeiro, sacode os bastidores da política nacional com suas referências verossímeis de uma realidade estampada diariamente em capas de jornais. Mensagens subliminares à parte, a obra de ficção tem a pretensão, segundo o diretor Ricardo Waddington e o autor Euclydes Marinho, de "(re)aproximar o público da política".
Fábio RossiAtor da Cia La Mínima, Domingos Montagner mostra seu vasto repertório de ator em personagens marcantes como o presidente do Brasil, Paulo Ventura, e o cangaceiro Capitão Herculano.Ator da Cia La Mínima, Domingos Montagner mostra seu vasto repertório de ator em personagens marcantes como o presidente do Brasil, Paulo Ventura, e o cangaceiro Capitão Herculano.

No ar até esta próxima sexta-feira (27), em um horário para notívagos - antes do Jornal da Globo - o programa apresenta uma situação no mínimo improvável: Paulo Ventura (vivido pelo ator Domingos Montagner, 49) é um advogado desanimado com a vida pública de deputado federal, homem comum que acaba se tornando presidente da República após uma manobra 'suspeita' de políticos que pretendem usá-lo como fantoche. Mas o 'plano' não sai como esperado, e Ventura se vê obrigado a enfrentar uma série de escândalos - um teste e tanto para seu caráter.

Casado com uma natalense, a produtora Luciana Lima, Domingos Montagner é circense, ator de teatro de rua e esteve em Natal há pouco mais de uma década participando do projeto Na Rua da Casa (da Ribeira). No verão deste ano só não esteve no RN em férias com a família devido as gravações da minissérie. Considerado um dos artistas em franca ascensão na televisão após interpretar o Capitão Herculano na novela Cordel Encantado, Montagner concedeu a seguinte entrevista exclusiva, por telefone, ao VIVER:

Seu personagem em O Brado Retumbante é uma colcha de retalhos de vários políticos, como encara Paulo Ventura?

Quando li a sinopse logo percebi que a essência do personagem não é política. O Paulo Ventura é um advogado extremamente rígido, ético, que fica indignado com os desmandos e acaba se envolvendo, investigando e meio por acaso se transforma em político. A política é o meio que ele descobre para colocar em prática o que não poderia fazer apenas como advogado, então o propósito dele é ético e não político e isso faz toda a diferença.

Havia um norte para a construção do personagem?
O mote principal aparenta ser simples: o que aconteceria se uma pessoa comum chegasse a presidência da República? Como ele lidaria com os conflitos éticos e as situações políticas? Então a construção do personagem partiu desses preceitos. Paulo Ventura é uma pessoa falível, que está aprendendo a lidar com a exposição da vida particular e a rápida repercussão de tudo o que faz - inclusive os deslizes. Tem um ponto de vista humano e não foi criado inspirado em alguém específico.

O diretor Ricardo Waddington e o autor Euclydes Marinho afirmam, na página eletrônica da minissérie, que O Brado almeja reaproximar o público da política. Acredita nisso também?

Apesar do horário não ser tão abrangente quanto das novela, só o fato de colocar no ar uma minissérie com esse tema já considero como ponto positivo. O assunto é adulto, com discussões maduras, e criar uma ficção com essa abordagem aproxima da televisão pessoas que têm outro perfil.

Já ouviu comparações do seu personagem com o senador mineiro Aécio Neves?

Engraçado que outro dia fizeram essa mesma pergunta [risos], acho normal as pessoas procurarem relacionar o novo com algo que já é conhecido. Há essa necessidade de se apoiar em alguma referência. É uma minissérie de ficção, vão acontecer muitas coisas ainda que vão surpreender, e não lembra em nada o Aécio Neves. Não deixa de ser uma forçada de barra, mas vejo como algo natural do tipo: 'e aí, vamos comparar ele com quem?'

DivulgaçãoDomingos como o Capitão Herculano em Cordel EncantadoDomingos como o Capitão Herculano em Cordel Encantado
Você acabou de participar de uma novela (Cordel Encantado, como o cangaceiro Capitão Herculano) com grande destaque, já faz participações em outras minisséries. Quais as diferenças entre os tipos de produção?


Bom, primeiro que na minissérie o produto está acabado, pronto, você sabe como começa e como termina, o ator sabe exatamente como desenhar a curva dramática. Já a novela é uma obra aberta, depois que está no ar tudo pode acontecer... há um roteiro mas ninguém segura a história. Na novela a velocidade de gravação é alucinante, a produção em escala industrial, no caso das minisséries as gravações são mais tranquilas, temos menos cenas. Eu já tinha feito participação no Divã (minissérie) e ali já vi a diferença no ritmo de produção. Quanto ao cuidado técnico e estético, vejo o mesmo grau nos dois. O Cordel teve um cuidado visual grande.

Ventura está diretamente ligado às personagens de Alinne Rosa (da banda Cheiro de Amor) e da potiguar Marina Elali. Como é contracenar com atores estreantes?

Achei muito interessante a proposta dos diretores em trazer artistas não muito conhecidos do grande público, se formos bem boa parte do elenco da minissérie tem esse perfil. Dessa maneira a história acaba funcionando melhor, a comunicação com o público é mais eficiente e direta sem as barreiras impostas por referências anteriores. E o fato de serem artistas não-atores confere um frescor à minissérie, é interessante ver a forma como atuam sem os vícios dos mais experientes. Ainda incluo nessa lista o (ator baiano) Geronimo Santana, que faz o senador marido da Alinne.

E sobre sua primeira novela, Cordel Encantado, como acabou acontecendo de você entrar no elenco?

Tinha feito uma participação no seriado Força Tarefa e a minissérie  A Cura, que são do mesmo núcleo de produção do Divã, do Cordel e d'O Brado Retumbante, e quando fui fazer testes para participar do Divã (com a Lília Cabral) me convidaram para fazer também para a novela. Fiquei  surpreso de ter sido escalado, demorei um pouco para aceitar que iria fazer novela.

Sua origem é circense, de teatro de rua. Como anda o trabalho com o grupo La Mínima?

Continuo firme. Minha formação é no circo, sou palhaço, foi lá que aprendi o que sei, é minha escola e minha família. Eu e o Fernando Sampaio continuamos apresentando nosso repertório, a diferença é que agora tive que preparar uma pessoa para me substituir em determinadas ocasiões. É complicado isso de encontrar alguém de confiança que faça a dupla funcionar, que saiba um pouco de música e malabarismo. Mas continuo na criação junto com o Fernando. Estamos entrando em temporada em São Paulo, paralelamente trabalhamos na montagem de "Mistério Bufo", do  Darío Fo com direção de Neide Veneziano.

A La Mínima tem planos de nova turnê aqui pelo Nordeste?

Sim, queremos subir este ano. Já estamos articulando quatro datas para o espetáculo "A noite dos palhaços mudos" por aí: uma no RN, outra no CE e duas em PE.

AS SÉRIES POLÍTICAS NA TV

"O Brado Retumbante" recoloca a temática política no centro das atenção, a exemplo de outros programas que também abordaram o assunto em outros momentos (por vezes cruciais) da recente história brasileira. Temporalmente contextualizados, ou não, os folhetins suscitam uma reflexão cuidadosa sobre o que retratam, como retratam e quando retratam.

Em 1989,por exemplo,às vésperas da primeira eleição direta para presidente após duas décadas de ditadura Militar, foram ao ar as novelas "Que Rei Sou Eu?"e "O Salvador da Pátria"- a primeira apresentava a figura de um nobre honesto (interpretado por Edson Celulari) que reivindicava o trono contra um mendigo alçado à rei que se tornou corrupto; já no segundo caso o homem humilde (o Sassá Mutema de Lima Duarte) se torna um político poderoso que sucumbe às tentações da corrupção.Na época, compararam Collor e Lula aos personagens.

Três anos depois,em 1992,em pleno processo de impeachment, foi ao ar "Anos Rebeldes",de Gilberto Braga e e Sérgio Marques.A trama tem como pano de fundo a resistência política de jovens que lutam por liberdade, justiça e democracia durante o conturbado período da ditadura Militar. Antes,em 1986,Gilberto Braga já tinha escrito "Anos Dourados",ambientada na segunda metade dos anos de 1950,quando o Brasil atravessava um período de otimismo sob o comando de Juscelino Kubitschek.

Juscelino volta ao ar em "JK"(2006), que remonta a trajetória política do estadista. Já "Agosto", de 1993, retrata o período que culMina com o suicídio de Getúlio Vargas.

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