Agora você já pode ler a tribuna em versão FLIP
Ir para página inicial
  • Natal - 27°Natal - 27°

Hot Site

Natal, 24 de Maio de 2012 | Atualizado às 10:20

Um Estado atrativo mas que não se diferencia

Publicação: 07 de Agosto de 2009 às 00:00
tamanho do texto A+ A-

Contar uma história da indústria do Rio Grande do Norte, não é tarefa fácil. De acordo com o professor do Departamento de Economia da UFRN e doutor em Economia pela Unicamp, Odair Lopes Garcia, aqui não há um trabalho de formação econômica como em outros Estados. Daí a dificuldade. Mesmo assim, com o auxílio do professor, a entrevista a seguir expõe um pouco do que poderia ser colocado como história da indústria potiguar e uma breve análise da atual situação. A indústria do Rio Grande do Norte será o primeiro tema da edição 2009 do projeto "Motores do Desenvolvimento do Rio Grande do Norte", a ser realizado dia 17 de agosto, no auditório da Casa da Indústria. "Motores do Desenvolvimento" é uma promoção do jornal TRIBUNA DO NORTE, Federação das Indústrias do Rio Grande do Norte, Federação do Comércio e RG Salamanca. 

Quando começa a indústria no Rio Grande do Norte?

Se fôssemos construir uma história da indústria a gente teria que levar em conta alguns elementos que tem a ver com a própria formação econômica do Estado, que teve um período ligado à produção de algodão. Então, houve o surgimento de várias atividades que poderiam ser classificadas como industriais e que tinham ligação com o algodão. Toda a cadeia produtiva que ia desde o beneficiamento do caroço, tirar o óleo do caroço, o beneficiamento da fibra, entre outros, tudo isso foi envolvido com a produção do algodão, que vai até meados da década de 50.

Junior SantosOdair Lopes Garcia, doutor em Economia pela UnicampOdair Lopes Garcia, doutor em Economia pela Unicamp
E começa quando?

Aí é que está. Você não tem isso. Quando o algodão se torna importante para a economia do Estado, lá pela década de 20, de 30, você tem o início dessa indústria. Mas o que tem essa indústria? Essa indústria é muito específica e muito localizada que tem a ver com outros dois fatores.

Quais?
O primeiro é o relativo isolamento do estado com relação aos demais. Não havia meios de comunicação, de tal maneira que os mercados eram protegidos naturalmente pelas barreiras geográficas. Não tinha estrada que ligasse, por exemplo, os mercados do Nordeste com o Sul. Funcionava como se fossem ilhas isoladas. E que tinham alguma comunicação entre si. Por exemplo, a gente tinha mais contato com Pernambuco do que com o Ceará. Porque a produção e o que era importante na nossa economia estava mais localizado na região sul do Estado do que na Norte. E também tem, além dessas questões geográficas, o fato de que somos um estado periférico, de uma região periférica, de uma economia periférica. Quer dizer, se fôssemos estabelecer hierarquias, estaríamos no rabinho. Porque tem diferentes níveis de subordinação, de tal maneira que o processo de industrialização do Estado, fica restrita à extração e a algum beneficiamento para ser exportado para algum centro, como matéria-prima.

Não conseguimos estruturar a cadeia?
Exatamente. Porque somos uma economia pequena. Então, todas as determinações que se tem, são dependentes. Isso determina o grau de articulação da indústria. Os graus de subordinação dependem das políticas nacionais. Na verdade houve algo muito importante antes disso, que foi o processo de substituições de importações que o Brasil adotou a partir da década de 50.

O que significou isso?
Significou que o país fechou o mercado nacional e passou a dar subsídios ou algum tipo de incentivo para que as empresas passassem a produzir o que a gente importava em território nacional. Onde essas empresas vão se localizar? Onde o mercado consumidor for maior. Então, tem essa política e tem a abertura das comunicações, com a construção das estradas, que permitem conexões  de mercados com características de produtividades e poder de capital diferentes. De tal maneira que nesse processo de ligação você destrói a parte da industrialização que fica localizada na parte mais periférica.  Se pegarmos os planos da Superintendência para o Desenvolvimento do Nordeste (Sudene), logo que foi criada - e o órgão foi criado para isso - os primeiros planos privilegiavam a infraestrutura e uma única atividade industrial foi localizada: a indústria têxtil de Pernambuco.

O senhor fala sobre história, mas este perfil permanece no Estado até hoje?
Em função dessas determinações. Se a gente fosse estabelecer períodos, haveria o do processo de substituições de importações que só vem acabar com o Collor, quando ele abre às importações. Mas antes você tem a Sudene. Neste período, houve certa industrialização porque tivemos uma fase de muitos investimentos. Teve a construção de muitas empresas do setor têxtil, de confecções cuja característica era ser de capital local. Muitas delas fracassaram na década de 80, com a crise econômica. Mas também houve o nascimento de empresas fortes, como a Guararapes. Quando começa a década de 80, há uma redução do lucro e do nível de receita do imposto de renda, o que reduz o volume de recursos para a própria Sudene. Como a Sudene tinha dado mais ou menos certo, reivindicou-se a criação de novas superintendências de desenvolvimento - como Sudam - e o dinheiro foi minguando. O papel importante da Sudene foi ficando frágil. E entra o papel dos estados, que ao verem que os recursos para a industrialização já não eram suficientes, começam a criar seus próprios programas de incentivo. Os estados começam a ter uma política ativa. Aí vem uma terceira fase, quando os estados começam a criar suas próprias leis de incentivo. Nesse processo desaparecem as empresas que foram constituídas na época da Sudene e vem empresas com o mesmo tipo de atividade, mas de capital nacional e menos sensíveis aos problemas conjunturais.

Por que as empresas vêm para cá hoje?
As empresas não vem para cá só por causa do incentivo. Elas vem por conta disso e porque a pressão internacional, a concorrência, faz com que as empresas que são mais intensivas de mão-de-obra queiram se deslocar para lugares nos quais os salários são mais baixos. Isso ocorre aqui e em qualquer lugar do Nordeste.

O Estado é atrativo à indústria?
Com certeza.

Por quê?
Ele é atrativo por uma série de razões. O problema é que ele é atrativo, mas não se diferencia muito de outros espaços. Se olharmos a estrutura industrial do Nordeste, ou pelo menos dos estado mais próximos, há muita semelhança. As mesmas atividades importantes aqui são importantes na Paraíba e em Alagoas.

Haveria como classificar a economia do Rio Grande do Norte?
Se pegarmos uma série histórica, a gente cresceu muito bem e mais que todo mundo. Mas,  a gente partiu de um ponto em que éra-mos muito pequenos. Apesar de correr muito, não crescemos o suficiente para ter um peso específico razoável. Então, hoje em dia temos menos de 1% do Produto Interno Bruto (PIB) do País. Mas crescemos mais que os outros, como a Paraíba.

Qual o maior problema enfrentado pela indústria potiguar?
Tem que pensar em que tipo de indústria está se falando. Porque as grandes empresas passam por flutuações, problemas conjunturais, mas conseguem se manter crescendo. Já os pequenos, esses reclamam muito da falta de crédito. Ou porque não tem acesso ou porque o crédito é muito caro. Seria interessante se houvesse um plano de desenvolvimento. Algo que me preocupa muito é a distribuição muito desigual da riqueza produzida no estado. Todas as atividades modernas, dinâmicas, estão concentradas no litoral e mais especificamente no litoral norte. Então, acredito que seria possível traçar um plano para tentar desenvolver essas outras áreas. 

Publicidade
  • 600 caracteres
  • separar os emails por vírgulas
  • 600 caracteres
  • Encontrou algum erro nesta matéria? Envie pra nós.

  • 400 caracteres
Publicidade
Tribuna do Norte