O cenário permanece lindo. Mar azul, guarda-sóis coloridos ornando as areias, palmeiras, e o Morro do Careca ao fundo, ainda figurando como o cartão-postal mais conhecido da cidade. As belezas da orla de Ponta Negra continuam notáveis. Mas está faltando um tempero novo; um sabor que atraia novamente os bons de garfo natalenses para os ótimos restaurantes que se apresentam ao longo da avenida Erivan França. O local ainda se ressente das operações que, anos atrás, coibiram o turismo sexual na área. Alguns inconvenientes foram embora, mas ficaram outros..
Emanuel Amaral
Almoçar e curtir a paisagem praiana é uma opção da Erivan
O tempero que falta está no sentido figurado; no literal, a orla continua oferecendo cardápios eficientes, de variados sabores e boas ideias. O gourmet natalense que anda esquecido disso precisa prestar mais atenção durante o passeio na praia. Boa parte dos restaurantes da orla de Ponta Negra são jovens veteranos. Ainda conservam o mesmo padrão de qualidade da época mais badalada do local - só o público que mudou. O clima está mais tranquilo e o movimento termina cedo, por que a maioria agora é formada por restaurantes.
Que não deram certoA churrascaria Boiadeiro tem três anos de funcionamento, música ao vivo toda noite, espaço para 90 pessoas. Conta com um rodízio de carnes diário, manhã e noite, ao preço de R$25,90 por pessoa, com 15 tipos diferentes de carne, além do buffett de acompanhamentos. O público reúne casais, na maioria de turistas brasileiros e estrangeiros. O cardápio continua vasto, oferecendo picanhas, lombo recheado, massas como o nhoque com camarão, lagosta, cioba na brasa, caldos, tábuas de frios, entre outros.
"Sentimos falta do natalense. Já tentamos projetos como o Blues à Beira Mar, ano passado, mas está difícil", diz Lino Marotto, um dos sócios da churrascaria. Segundo ele, iniciativas precisam ser tomadas para chamar novamente a atenção sobre a orla. "Shows gratuitos, espetáculos teatrais, projetos musicais, são atos que poderiam lembrar que a prostituição não ronda mais por aqui, e que a orla tem muita coisa boa para oferecer", sugere. Ele acrescenta ainda inconvenientes como a passagem do carro do lixo durante o horário de almoço, que causa muita reclamação entre a clientela.
PicanhasO Picanha & Cia tem sete anos de orla. O cardápio trabalha mais de 15 tipos de picanhas diferentes, desde a padrão (na brasa ou chapa), até ao alho e óleo, acebolada, ao molho italiano, molho cheddar, poivre vert, etc. Destaca-se também o 'mistão' de carne (bovina, suína, frango), além de contra-filés, aves, peixes e camarões. As porções são para duas pessoas. A casa, espaçosa, ainda é uma das mais bem frenquentadas da área. "De outubro a janeiro, nosso público é estrangeiro. No resto do ano, são turistas brasileiros e natalenses, 90% casais. Conseguimos nos manter na crise da orla por termos um público fiel há anos", explica o administrador Aldo Moura. Ela só registra uma mudança: o público aumentou no jantar e caiu no almoço.
Bons preçosO Sobre Ondas tem 10 anos de praia. Há 10 meses está sob nova administração, a cargo do paraibano Ivandi Júnior. "Pesquisamos bastante para abrir um negócio em Natal, e a conclusão foi que Ponta Negra ainda é um dos points mais conhecidos do Nordeste. Uma pena que a orla esteja nesta fase", diz. Enquanto o poder público não toma iniciativas para "levantar o moral" da área, segundo Ivandi, o restaurante segue praticando preços compatíveis com a clientela natalense, com um menu diversificado.
O restaurante conserva opções caprichadas de bacalhau norueguês (à lagareiro, espanhol, Gomes de Sá, bacalhoada, e à Tia Micas, com posta frita), pizzas, massas, frutos do mar (lula à milanesa, peixada à escabeche, moqueca), caldos (ostra, caranguejo, bacalhau, polvo, mariscos, camarão, peixe), frango à francesa (refogado no azeite com ervas), e até uma carne de sol completa, a R$44. Para Ivandi, a orla carece de shows, limpeza, e uma apresentação mais caprichada. Bom cardápio ela já tem.
O restaurante Parada Obrigatória tem 11 anos de Ponta Negra, e já viu a orla em várias fases. "Hoje, meu público é 90% turista. O natalense vem mais em grupos, em datas festivas. Eu sinto que o natalense está louco para voltar à orla, mas ainda tem aquela ideia negativa na cabeça. É preciso divulgação, mais apoio do poder público", diz o proprietário Dionísio Schutz, gaúcho. A casa é arejada, e tem um caprichado cardápio de frutos do mar. Dionísio destaca a cioba inteira na brasa, o camarão à moda da casa (gratinado ao queijo catupiry), lagosta grelhada com frutas, além de uma pizzaria à noite, e happy hour com bruschetas, tábuas de frios, carne de sol e camarão.
Traslado para facilitarO Rio Restaurante (antigo Botero), lançou mão do serviço de translado próprio para atingir o público turístico. Segundo o maître Josinaldo Farias, as agências de turismo boicotam a orla de Ponta Negra. "Tivemos que correr atrás. O turista vem, prova nossa comida, vê que o ambiente é familiar, e desfaz aquela imagem que a agência passou", diz. A casa é espaçosa, arejada, decorada com imagens cariocas, e o cardápio foca o internacional. Destacam-se a lagosta grelhada, o filé bernaise (molho sueco), camarão ao chef (flambado na cachaça, com molho bechamel), filé de peixe ao molho de camarão. Os drinques são vários, como o 'Rio Cocktail', um misto de licor de pêssego, vodka, cointreau, groselha, guaraná e suco de laranja. Cai muito bem neste calor atual.
Barraca do CaranguejoA Barraca do Caranguejo, que começou na praia e há dez anos se tornou restaurante, está com planos de se reformular para renovar o público. "Faremos mudanças no piso e adega, e vamos divulgar melhor nossos preços, os mais acessíveis da orla", diz o sócio e gerente Márcio Souza. O carro-chefe da Barraca ainda é seu rodízio de camarão, ao preço de R$25,90, com 16 opções de camarão. Acompanha um buffett de saladas e pratos quentes, com escondidinho de camarão, moqueca de peixe, purê, arroz com brócolis, entre outros. A casa tem outros pratos, como a caldeirada de frutos do mar, carne de sol na brasa com coalho, e o meca grelhado ou na brasa. O local tem uma vantagem em relação aos outros restaurantes da área: o estacionamento próprio.
Turistas brasileirosO Cactus, tradicional point de turistas escandinavos, também mudou de perfil: hoje, os turistas brasileiros imperam. "É uma pena que muitos natalenses ainda não saibam que há uma casa de pratos mexicanos em Natal", diz o gerente Marcondes Brito. Além de tacos, quesadilas e burritos, o restaurante tem pratos caprichados como o peixe à moda (posta de meca grelhada com alcaparras), e a sinfonia de frutos do mar (lagosta, camarão, ostras, etc). Segundo o gerente, "a classe média natalense preferiu ficar trancada no shopping. Os taxistas e ambulantes tomando a calçada também não ajudam".
Tranquilo, a nova casaO Tranquilo Bar e Restaurante é o mais novo da orla. Aberto em novembro de 2009, é parte integrante do hotel Don Limpone. O ambiente é bem decorado, espaçoso. O menu mistura internacional e regional, com direito a alguns petiscos suecos - como o 'toast skaagen' (camarões com cebola, cream cheese e pão frito com rum) e o 'köttbullar' (bolos de carne com batatas cozidas em molho apimentado). Entre os destaques, o badejo ao chef (grelhado, com mexilhões e vinho branco), massas ao molhos de salmão, brócolis, castanha, salsa e parmesão, além de picanha e filé mignon com especiarias. A proprietária Maria de Souza afirma: "esquecer a orla é um erro. Ponta Negra é linda, e ainda é referência".