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Natal, 08 de Fevereiro de 2012 | Atualizado às 14:08

Um RN rico e pobre ao mesmo tempo

Publicação: 04 de Setembro de 2010 às 00:00
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O Estado do Rio Grande do Norte é cheio de possibilidades, recursos naturais e de iniciativas no plano econômico. Todavia, ainda temos uma economia   dependente de produtos que vêm de fora para atender às necessidades. 

"De fato, somos um Estado muito comprador e pouco vendedor", constata o professor Rogério Cruz, do Departamento de Economia da UFRN. E, com base em dados disponíveis,   ele tem razão: no início dos anos de 1990, 92% de tudo o que o Estado consumia vinha de fora. Hoje, embora a situação tenha melhorado, não é possível dizer que somos um sucesso em matéria de autoatendimento. Temas como este serão analisados durante seminário que a UFRN realizará, através da Pró-reitoria de Extensão Universitária, em parceria com a TV Universitária e jornal TRIBUNA DO NORTE, nos dias 14 e 15 deste mês. No dia 20 haverá debate com os candidatos a governador.

Uma análise do Produto Interno Bruto (PIB) das cidades do RN realizada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) indica que a riqueza de alguns de nossos municípios se deve em grande parte à exploração do petróleo, pesca e geração de energia eólica.

Apesar dos valores repassados às prefeituras pela Petrobras e Grupo Iberdrola, as cidades enfrentam problemas de gestão e geração de empregos. E a grande maioria vive de transferências feitas pelo Governo Federal. No passado, o sal e a scheelita representavam a redenção da economia do RN.

Nos anos de 1970, "a aposta se voltou para a industrialização, tendo como carro-chefe o Pólo Têxtil Integrado e de Confecções, sobre o qual não tinha a menor tradição, nem domínio suficiente sobre os conhecimentos da tecnologia e das complexas relações de mercado que envolvem aquela atividade fabril", diz o professor e economista Alcyr Veras.

"Por isso - acrescenta - o resultado foi o esvaziamento da iniciativa privada, em razão da forte intervenção do Estado na economia, sobrevivendo só enquanto duraram os generosos incentivos governamentais".

 Segundo o economista, do volume de recursos que entravam no RN oriundos de verbas federais para obras e serviços, bem como o pagamento de salários dos órgãos federais, civis e militares, cerca de 70%  a 82%  retornavam a outros estados da região Nordeste e ao Centro-Sul, "onde se encontrava o berço-mãe, isto é, o lugar de origem onde aqueles produtos são gerados".

Assim, explica o professor Veras, "quando, por exemplo, alguém comprava um bem ou um artigo qualquer de consumo no comércio local, apenas 20% ou 30% do valor pago ficava no Estado e o restante voltava para o lugar onde aquele produto foi fabricado, em geral para o Estado de São Paulo".

 Hoje, a economia local   está direcionada a atividades produtivas de maior tendência de mercado e identificadas com as suas vocações naturais. Elas se resumem em quatro eixos: fruticultura; carcinicultura; turismo e petróleo. "Com exceção deste último eixo, os demais sofreram oscilações, alternando períodos de altas e baixas em decorrência, sobretudo, de problemas sazonais", diz Veras.
  
Economista enaltece legado de Cortez  Pereira

O cenário econômico atual  fez com que o professor Rogério Cruz, do Departamento de Economia da UFRN, voltasse sua atenção para o rico legado deixado pelo ex-governador Cortez Pereira. Pois, como ele mesmo explica, Cortez foi um planejador que capitaneou uma equipe criativa e apontou caminhos para se mudar a faceta existente na economia do RN nos anos 70 do século XX.

Indicado como primeiro governador "biônico" do Estado, pelo então presidente Médici em substituição a Walfredo Gurgel, Cortez Pereira "pode e deve ser alvo de reflexão, pois, ao que tudo indica, conduziu um dos governos  mais inovadores do RN", diz Rogério Cruz.

"Foi um administrador ousado e sua contribuição proporcionou muitos avanços nos anos que se seguiram", diz Rogério. " Ele tinha a perspectiva de um desenvolvimento mais geral iniciado concretamente a partir do setor agrícola, com o objetivo de formar um mercado interno sólido".

Hoje,  o fato é que o Estado não conseguiu estabelecer uma política de desenvolvimento econômico eficaz, que criasse alternativas às tradicionais formas de dependência dos recursos federais.

"Dependente dos resultados de alguns poucos segmentos - a maioria deles dedicados à exportação -, o RN parece que mudou, mas, para ficar, em essência, tudo como era antes, guardadas as devidas proporções", acredita Rogério.

Além disso, segundo Rogério, "temos um estoque de dados importante, originados de organismos governamentais, tais como o IBGE, a nos fornecer indicadores importantes. Todavia, ainda nos faltam microdados regionais, impossibilitando um refinamento de estratégias". 

Como quebrar com essa situação? O próprio Cruz considera importante que Universidades, Institutos de Pesquisa e outros organismos interessados no tema possam produzir esse tipo de dado.

Bate-papo

Rogério Pires Cruz  » Professor do Departamento de Economia da UFRN

Em sua opinião, por que ainda não conseguimos produzir alternativas econômicas mais consistentes no RN?

Temos algumas alternativas que, de fato, não deram certo, como o bicho da seda, por exemplo, mas, ao revés, também tivemos e temos experiências exitosas, como o  desenvolvimento local no Apodi, o negócio do camarão, entre outras. Para esse assunto caberia à UFRN mais estudos e novas proposições a respeito.

O senhor vê um ambiente favorável à industrialização no Estado?

Depende de que tipo de industrialização estamos tratando. Seria de produtos cujos insumos já estão disponíveis? Para essa questão, eu suponho, não necessariamente, que  seremos nós que tomaremos esse tipo de decisão, pois tanto pode vir de um planejamento governamental de nível federal, ou de capitais que aqui se instalam para abrir novas frentes de expansão - como o cimento ou ferro, em Mossoró e em Jucurutu, respectivamente.

Existem exemplos regionais ou nacionais que poderiam nos orientar na formulação de políticas para a economia local?

Sim, tal como sugeri desde o governo de Cortez Pereira nosso Estado é muito rico em experiências.

Fala-se em energia eólica, mas ainda usamos lenha na geração de energia. Qual o ponto de ajuste entre essas duas realidades?

O pobre usa lenha, é um fato. Vá até Guamaré e visite assentamentos vizinhos à moderna extração de gás natural. É a cara da dualidade básica de nossa economia. E por que isso ocorre? Porque o pobre enfrenta escassez de recursos, por cultura, por sobrevivência. Isso é uma coisa. A outra, é a matriz energética que busca diversificar as fontes, com vistas a atender, em  nível nacional, uma demanda que apresenta uma tendência de crescimento contínuo ao longo do tempo. O problema da energia eólica, enquanto um dos componentes dessa matriz, é que ainda é relativamente cara. Sobre isso prefiro ouvir os especialistas na área, inclusive os da UFRN.

O senhor diz que temos acesso a dados para realizar um planejamento - o que faltam são microdados?  No que essa falta de informações detalhadas nos prejudica?

De fato, ao menos em parte, existe a divulgação de dados, mas ainda carecemos de microdados. Nesse caso, fazemos nossas pesquisas que se voltam para espaços específicos, é assim que funciona, com ou sem financiamento. Temos que saber da existência e avaliar, por exemplo, experiências de desenvolvimento local. Então, temos interesse em conhecer uma Associação de Mulheres Destinadas a Vencer - existente em Mossoró - que, com base no trabalho feminino, no cooperativismo, no cultivo de hortaliças, tem mudado a vida de algumas tantas famílias ali existentes. Isso é ou não transformação em relação ao passado? Os dados do PIB acusam essa produção? Os dados do Censo Demográfico acusam um aumento na ocupação desse município? Enfim, por essas razões que temos também que ir em direção às especificidades, ocultas pelas informações de caráter macro. É aí que reside a riqueza do detalhamento, necessário para entender a célula-mater da economia real.

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comentários

ffabiof@...04/09/2010 @ 08h58
excelente entrevista, pela que faltou mais conhecimento por parte do reporter com o tema economia. Mas, mesmo assim, parabenizo o TN pela materia...pena que vivemos numa terra potiguara, ou seja, de NAO leitores
eduseve@...05/09/2010 @ 22h13
Há 15 anos penso sobre isto e cheguei à conclusão que para o RN (e em maior escala, o Nordeste) deixar de ser atrasado, há dezenas de itens a serem considerados, como o nível médio educacional da população economicamente ativa, mas um é fundamental: é preciso incentivar que os nossos melhores talentos trabalhem na iniciativa privada local; estimular a formação de empresas potiguares sólidas, capazes de atrair e reter esses talentos, com competência para vender produtos e serviços para fora; formar novos empreendedores com visão global; facilitar o trabalho de nossos empresários, fazer com que o povo reconheça que os empresários são os legítimos grandes líderes da humanidade, não os políticos. Enquanto as melhores cabeças do RN direcionarem seus esforços para áreas de Direito (principalmente funcionalismo público) e Medicina - áreas importantes mas apenas de apoio, pois não são elas que fazem a engrenagem da Economia girar - ou até mesmo saírem para trabalhar na iniciativa privada em outras regiões, restará ao RN discussões menos relevantes como "a falta de microdados" para tomar decisões. Se nada for feito neste sentido, o RN continuará sendo um mero balneário turístico, com meia dúzia de poços da Petrobrás e um monte de gente sugando verba do governo Federal, cuja receita vem principalmente dos "generosos" impostos pagos goela abaixo pelas empresas que se arriscam a operar na legalidade em nosso país.
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