Um trabalho de dar gosto
Publicação: 03 de Setembro de 2010 às 00:00
"Depois de oito anos trabalhando em São Paulo e Angola, voltei à Natal em 2009 e recebi da Editora Abril uma tarefa deliciosa: durante três meses, analisar o cardápio dos mais de 550 bares, restaurantes e lugares de comidinhas da nossa cidade e litorais norte e sul para a Veja Natal, publicação que há cinco anos tem servido como bússola para amantes da boa mesa potiguar.
Na sexta-feira costumo almoçar com os colegas ou algum entrevistado em lugares como o Buongustaio, que oferece boas saladas e carnes; num dos dois Camarões - o da Roberto Freire lançou pratos novos excelentes, como o Camarão à Flor de Sal; o Camarões Potiguar, por sua vez, continua servindo a melhor caipirinha de saquê com morango da cidade; ou no Dolce Vita, onde é possível comer uma coxa de pato ao molho de acerola ou um bacalhau com batata doce tão perfeitos que só poderiam ter sido criados por um mestre das panelas como Zé Maria, somado à simpatia da esposa Rose e ao clima aconchegando lugar.
Mesmo no happy hour de sexta continuo de olho nos cardápios. A batata recheada com camarão do Sgt Peppers é tão matadora quanto o rock do Mad Dog ou do Uskaravelho, que sempre tocam por lá. A tilápia recheada do Real Botequim só não é melhor que o chope com colarinho alto servido a todo tempo pelos garçons do butecão de luxo, que ganhou esse ano um concorrente à altura: o Saideira Lounge da Prudente. E, se a volta para casa é antes da uma da manhã, nada melhor do que o crepe Adriana Calcanhoto da Sobradinho Creperia, o Monalisa, do Douce France, ou a salada maresia da Sanduicheria Paulista.
Aos sábados, gosto de conferir os lançamentos da livraria Siciliano do Midway - estou no meio de 'Trem Noturno Para Lisboa', de Pascal Mercier -, e depois tomar um café com creme de avelã na cafeteria Santa Clara, acompanhado da torta alemã de Daguia Tortas Finas, uma das maiores confeiteiras deste Brasil. Mais do que pegar um cineminha (já está na hora de Natal ter um Espaço Unibanco de Cinema, com títulos menos comerciais do que os exibidos hoje), gosto de comprar séries de TV (depois de 'Lost', conferi 'Roma' e 'A Sete Palmos', ambas da HBO) e assistir em casa, direto, em maratonas de dois ou três dias.
No domingo, costumo pegar a estrada e visitar parentes que moram na praia de Pirangi do Norte, onde está a instituição chamada Paçoca de Pilão, comandada há 20 anos por Dona Adalva. Na volta, uma paradinha na Toca do Caranguejo, em Cotovelo ou, se ainda houver fome, a pizza maravilhosa do Piazzale, "pau-a-pau" com a da recém-aberto Páprika.
Também gosto de ir para a minha região, o Seridó, de onde veio a maioria dos donos de restaurantes de Natal. No meio do caminho, uma parada para comer o pastel de Tangará, verdadeira instituição de beira de estrada. Em Currais Novos, é quase obrigatório degustar o pão Recife da Padaria Primor, feito segundo uma receita secreta da qual só identificamos o chocolate e a canela. E não dá pra voltar de Caicó sem ter ido experimentar as delícias sertanejas do restaurante Erimetério, instalado num castelo medieval sertanejo. No estado, talvez seja o único que rivalize com o Mangai, único lugar desse mundo onde é possível comer 'axile du serpent', a velha e boa 'suvaco de cobra'."