União decide cobrança de IR da poupança até sexta
Publicação: 15 de Setembro de 2009 às 00:00
Brasília (AE) - O governo pode editar uma Medida Provisória para instituir a cobrança do Imposto de Renda sobre as cadernetas de poupança a partir de 2010. A hipótese está em estudos pela área técnica. Outra possibilidade é enviar a proposta de taxação como um projeto de lei. A decisão será tomada nos próximos dias, segundo informou o Ministério da Fazenda.
Esquecida nas gavetas há quatro meses, a taxação da poupança voltou à pauta depois de uma entrevista do ministro da Fazenda, Guido Mantega, ao jornal O Globo, publicada no último domingo. Nela, ele informou que enviaria a proposta ao Congresso em breve Ontem, ao chegar ao ministério, Mantega foi questionado sobre o assunto e respondeu com um lacônico "sim".
Hoje, a poupança não paga IR. O projeto de lei prevê que quem tem acima de R$ 50 mil em caderneta de poupança vai pagar IR sobre o saldo excedente, conforme uma fórmula que combina a renda do poupador e a taxa básica de juros da economia, a Selic. De acordo com estimativas do Ministério da Fazenda, 99% dos poupadores estarão livres das garras do leão. Porém, o 1% concentra a classe média, que responde por 40% dos depósitos.
A cobrança de IR sobre a poupança foi anunciada no dia 13 de maio passado, e na ocasião a intenção era enviar a proposta o quanto antes ao Congresso Nacional. No entanto, o projeto de lei ficou parado nas gavetas do Ministério da Fazenda, porque o problema que ele procurava solucionar - uma possível avalanche de investimentos especulativos na caderneta - não aconteceu.
No início deste ano, o governo estava diante do seguinte problema: com a queda da taxa Selic, os fundos de investimento teriam rendimentos cada vez menores. Seriam taxas de remuneração parecidas com a da poupança, com o agravante que os fundos pagam até 22,5% de IR e as cadernetas, não. A tendência seria, então, os investimentos se concentrarem na poupança.
No limite, essa situação poderia gerar dificuldade para o próprio governo financiar-se, pois os fundos são os principais compradores de títulos da dívida pública. Nesse quadro, o Banco Central poderia ver-se impedido de cortar mais os juros. Daí a ideia de taxar a poupança, tornando-a menos atraente para os grandes poupadores.
Projeto
Mantega "ressuscitou" o projeto sem que a temida avalanche em direção à poupança tenha ocorrido. Em agosto, dado mais recente, as cadernetas de poupança registraram uma captação líquida positiva (depósitos maiores do que saques) de R$ 3,1 bilhões. No mesmo mês, os fundos que concorrem diretamente com a caderneta (DI e renda fixa) tiveram captação positiva, de R$ 3,2 bilhões.
Apesar da recuperação,gastos pressionam governo
Embora a perspectiva seja de recuperação e, por consequência, de uma arrecadação maior em 2010, a situação das contas públicas não é um céu de brigadeiro. O governo estará pressionado pelo aumento de gastos com o funcionalismo, o Bolsa Família, o salário mínimo e a necessidade de acelerar investimentos no ano eleitoral. Além do mais, a meta de superávit primário da União sairá dos atuais 1,4% do PIB para 2,15% no ano que vem.
Não por acaso, outra medida anunciada junto com a taxação da poupança caiu no esquecimento: a redução temporária do IR cobrado sobre os fundos de investimento. O ministro da Fazenda anunciou que a taxa cairia para 15% e informou até quanto deixaria de ser arrecadado com essa "bondade": algo entre R$ 3 bilhões e R$ 3,5 bilhões em um ano.
O "pai" da fórmula de tributação sobre a poupança, o secretário de Reformas Econômico Fiscais, Bernard Appy, não trabalha mais para o governo. Com sua saída, o projeto foi transferido ao secretário de Política Econômica, Nelson Barbosa, que não tinha grandes simpatias pelo desenho proposto.