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Natal, 24 de Maio de 2012 | Atualizado às 10:20

Vagabundo em Paris

Publicação: 12 de Fevereiro de 2012 às 00:00
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José Arno Galvão - Advogado

Conscientemente ou não, todos nós alimentamos algumas fantasias e, às vezes,  temos a felicidade de vê-las satisfeitas. Nada a ver com essa história de colecionar calcinhas, que, dizem, era a fantasia encantada de Wando, cantor recentemente falecido.

Na primeira vez em que estive em Paris, como todo turista que se preza, fui ver a Torre Eiffel na companhia de Gracinha, minha primeira mulher, e de Vanya, minha filha caçula, a quem tinha ido encontrar em Londres e que, por sinal, aniversariou ontem. De lá, ao invés de ir em direção ao Campo de Marte, fomos no sentido contrário e, atravessando a Ponte de Iena, chegamos aos Jardins do Trocadéro, subimos a escadaria que permite uma visão magnífica da Torre e nos deparamos com a Praça do Trocadéro.

Ali, veio-me à lembrança um romance policial escrito por Helen MacIness, escritora americana de origem escocesa. Certa fase da estória passa-se em Paris e alguns movimentos ocorrem exatamente na Praça do Trocadéro (Demorei a entender o motivo dessa denominação de origem claramente espanhola na capital francesa até saber que refere-se à conquista de uma fortaleza espanhola desse nome). Mas, voltando à minha viagem, ao ver-me diante da praça, com a lembrança do romance viva na memória, procurei logo identificar o local preciso da ação, o Café Kléber. Lá estava ele. Fui para lá, sentei-me, pedi "une bière, s'il vous plait" ao garçom e só sai quando terminei, sob protestos de minhas acompanhantes.

E, a partir daí, a cada vez em que lá voltei mais um encantamento. Não me perguntem o que me encanta em Paris: simplesmente, não sei. Sei que a cidade tem uma, como dizer?, uma certa aura, alguma coisa que encanta e atrai mesmo a quem não é dado a passeios pela literatura, pelas artes ou pela música. Como explicar a movimentação daquele grupo de estrangeiros, de origem marcadamente anglo-saxã, do qual fazia parte Hemingway e ao qual, a acreditar na narrativa desse autor em "Paris é uma festa", nenhum nativo foi admitido?

Pois é, sou encantado por Paris. Mas, ao contrário de Daladier, tive a chance de me dar o presente de passar alguns dias não vou dizer "flanando", melhor fica admitir que era vagabundagem mesmo.

Havia recentemente readquirido a condição de solteiro e aproveitei para gozar um pouco mais do prazer de estar só comigo mesmo. Já não me bastava morar sozinho em uma casa enorme com a companhia exclusiva de Maira e de Kelly, duas cadelinhas yorkshire. Queria conhecer-me no mundo e conhecer mais o mundo também, sem intermediários.

E lá me fui, levando na bagagem uma tradução de um romance de Louis Aragon, "O camponês de Paris". Antes havia combinado com Vaneska, minha filha mais velha, para encontrá-la no Porto, em Portugal, para de lá subirmos em direção a Ponte de Lima, na terra do vinho verde. Cheguei a Paris numa tarde quente do verão de 2005 e fui de cara topando com um motorista de taxi que, ao ouvir meu francês com sotaque nordestino, perguntou-me logo: "Brasileiro?". E tome conversa, em português mesmo que o cara era de Portugal.

Foram onze dias fantásticos, Presenciei a Festa da Música (Fête de la Musique), algo que me deixou de queixo caído. Andava pelo Boulevard Saint Michel quando deparei-me com um conjunto de rock. Assisti um pouco, desviei da multidão que se comprimia em torno, tomei uma ruela e... topei-me com outro conjunto musical. O jeito foi sentar em um bistrô, pedir uma cerveja e curtir o som. Quando cansei, resolvi sair a pé em direção à Praça da Bastilha, perto do meu hotel. E por onde andava, novos conjuntos tocando músicas de diversas origens e de rítmos diferentes. Fiquei andando pela rua até depois de meia noite, ouvindo música.

Fui ver a cidade lá de cima da colina de Montmartre, entrei na igreja, rezei e fiz algo que hoje não teria coragem de fazer: contornei a colina por trás da igreja e continuei a pé até a estação terminal de metro da Praça de Itália. Aliás, andar a pé era meu forte: comprei um daqueles livrinhos com mapas dos bairros de Paris e mandei-me atrás do que pretendia ver. Nunca errei, pois a exatidão dos mapas é impressionante. Sob o sol intenso do verão, quando voltei a Natal, perguntavam-me se estivera na praia. Contra a recomendação de Nei Leandro, quando não bebia uma cerveja de garrafa ou "une pression", o chope lá deles, tomava vinho da casa, sempre à temperatura ambiente, pois lá não tem o costume de resfriar em geladeira.

Fui a museus, só no Louvre passei um dia, o que ainda é pouco. À entrada, peguei o mapa, selecionei o que pretendia ver e entrei. Não faltou nada do que eu selecionara. Nem mesmo o pequeno quadro da Mona Lisa, aquela mesma que acompanha a gente por toda a sala. À certa altura, já cansado, resolvi descer, disposto a sair. Mas, antes, resolvi sentar em um banco quando fui surpreendido por um funcionário do museu: "vai fechar". Já eram mais de cinco horas da tarde.

Assisti a concerto de piano em igreja, andei por feiras livres, comprei livros em sebos à margem do Sena e no Boulevard Saint Michel, próximo à Sorbonne. E, ao comparecer a um concerto na Saint Chapelle fui presenteado com uma visão a que os parisienses já se acostumaram mas que será sempre um deslumbramento para mim: a visão dos vitrais que formam as paredes do edifício superior iluminados igualmente pela claridade de um final de tarde de verão.

Ouve até oportunidade para patriotada, pois fui a uma apresentação de Lenine, no Parc de la Villette, por "exigência" expressa de Vaneska e da amiga Marjorie Madruga. A maior emoção foi ouvir um coro de quatrocentas vozes infantis entoando "Asa Branca". Confesso que os olhos marejaram.

Só me faltou encontrar uma certa galeria por onde andara da primeira vez, uma daquelas galerias típicas de Paris, com lojinhas, ligando uma rua a outra. Naquela aonde estivera, a dona ouvia Tom Jobim a cantar "Garota de Ipanema".

Mas, os sonhos também acabam. Chegada a hora, fechei a conta, paguei e tive um trabalho danado para sair: o gerente do hotel, cara fechada com a minha, abriu-se e começou a fazer perguntas sobre o Brasil. De lá, fui continuar vagabundando em Madri até chegar o dia de rumar para o Porto.


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comentários

pedrolopesduarte@...11/02/2012 @ 22h54
Isto sim, é passear em Paris!... Talvez esta deliciosa descrição só possa ser devidamente apreciada por quem já lá esteve, mas tenho a certeza de que quem nunca lá foi ficou com água na boca...
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