Carla França repórter
Imagine estar em casa dormindo e ser acordado, no meio da madrugada, com o barulho de uma forte ventania e ver que pequenas embarcações foram arrastadas, barracas e árvores derrubadas e um apagão elétrico. Foi o que presenciou o pescador Sebastião de Oliveira, por volta das 3h30 da manhã da última segunda-feira (15).
Júnior Santos
Barracas foram derrubadas e embarcações arrastadas pelo vento
"Nasci e me criei aqui em Cunhaú e nunca tinha visto uma coisas daquelas. Eram ventos muito fortes, saí de casa para procurar o meu barco e quase não conseguia andar. Atrapalhava até a visão da gente. Quando consegui chegar à praia vi que o vento tinha arrastado uns cinco barcos para mais de 100 metros", disse o pescador.
Segundo a bióloga Rose Dantas, que estava fazendo monitoramento de aves, os ventos teriam chegado a uma velocidade superior a 100km\h. Ela disse ainda que no domingo à tarde, por volta das 17h30, o clima estava estranho em Barra de Cunhaú. "Desde sábado vinha notando a temperatura da água mais quente, mas no domingo à tarde estava muito quente, acima dos 28º . Mais tarde, por volta das 19h, percebi uma movimentação muito rápida da massa de ar, foi quando pensei que choveria bastante, mas nem imaginei que fossem ventos tão fortes", disse Rose Dantas.
A bióloga disse ainda que os ventos ficaram mais fortes por volta das 4h da manhã, quando o que ela chamou de tornado, quebrou no mar. "A nossa sorte foi que o tornado não quebrou na costa e que os ventos seguiram em direção aos manguezais porque se eles tivessem quebrado no mar e viessem em direção à cidade, tinham levado todas as casas. Teria desaparecido tudo", disse Rose Dantas.
Ainda segundo a bióloga, o aumento da temperatura da água do mar é sinal de que algo de estranho está acontecendo. "Uma prova é que já morreram vários baiacus e quatro golfinhos na última semana. Sem contar na morte das moreias, no litoral Norte. Esses são sinais pontuais de que algo de errado está acontecendo. E o pior é que ninguém está monitorando isso. Espero que agora, os responsáveis fiquem alerta", falou Rose
Além dos pescadores, alguns barraqueiros tiveram prejuízos. Como é o caso de Antônio Manoel de Oliveira, conhecido como Tonho. "Quando amanheceu o dia as cadeiras da minha barraca tinham sido jogadas para longe. Algumas árvores também caíram, mas foram mais as palhas de coqueiros. Ficamos todos assustados, nunca vi nada parecido" disse Tonho.
O comandante da Polícia Ambiental, major Túlio César Alves de Oliveira, disse que o fenômeno não se tratava de um tornado. "Segundo o INPE o ocorrido foi um vendaval. Pelo que vimos ao chegar, por volta das 10h, e pelo depoimento dos moradores, foi algo acima do normal, mas não na proporção de um tornado", disse o major.
No momento em que a reportagem da TRIBUNA estava em Barra de Cunhaú, surgiu um boato que três embarcações de Baia Formosa estavam desaparecidas em alto mar desde domingo passado. Mas o comandante negou a informação. "Foram apenas boatos", disse o major
Ele falou ainda que uma equipe da polícia ambiental vai permanecer na praia. "É bom que fique alguém aqui, o clima ainda não está normal, os ventos voltaram a ficar fortes na tarde de hoje (ontem), nada parecido com o da madrugada, mas é bom ficar alerta", disse a bióloga Rose Dantas.