Nei Leandro de Castro - Escritor
O e-mail reduziu a segundos o tempo de entrega de uma correspondência que sai daqui para qualquer lugar do mundo. Trata-se do milagre da tecnologia, que constato, mas jamais vou compreender. É demais para o meu raciocínio mais acostumado com os claros enigmas da poesia. Em compensação, a correspondência perdeu muito do seu charme, do seu sabor caseiro, do seu toque amoroso. O missivista (palavrinha feia!) eletrônico está cada vez mais sucinto, como se não tivesse tempo para nada, como se centenas de correspondências aguardassem suas respostas. Na maioria das vezes, esses missivistas estão jogando paciência com a telinha ou tendo a paciência de rever todos os sites pornôs dos seus arquivos.
Estou sempre me perguntando: como se comportaria Mário de Andrade na era da informática? Ele, que escreveu montanhas de cartas, conseguiria criar uma obra epistolográfica com as dimensões da que deixou? E Câmara Cascudo? Seus e-mails teriam o mesmo sabor de suas deliciosas cartas? Tenho minhas dúvidas.
Outro detalhe: e-mail não se guarda por muito tempo. Como guardo com orgulho, em lugar tão escondido que terei dificuldade de encontrar, cartas de Carlos Drummond e Pedro Nava; como guardo com carinho as cartas do poeta Luís Carlos Guimarães. Numa delas, datada de 1995, Lula escrevia: “Eu sou um cisne nadando em águas mitológicas, em turbulências ou remansos habitados por uma Leda. Eu sou um aprendiz de sedutor numa sala forrada de veludo carmesim, onde uma bailarina espanhola teima em não ser seduzida. Eu sou um menino azul que escapou de um trágico desastre de velocípede.”
Atualmente, muitos dos meus correspondentes resistem ao correio eletrônico. Artur Bártolo, o poeta de Vila Nova de Gaia, me escreve cartas de seis laudas, a mão, e eu respondo com e-mails longos, caprichados, para o endereço do filho dele, que é engenheiro em informática. Artur bem que poderia escrever, pedir ao filho para digitar e me remeter tudo em pouquíssimo tempo. Mas isso para ele é inadmissível. Onde estaria a alma encantadora das cartas?, haveria de perguntar Bártolo, entre um gole e outro de vinho do Porto, molhando os olhos na paisagem banhada pelo rio Douro. .
Há aqueles que economizam cada vez mais nas palavras. Danilo Bessa escreve no máximo duas linhas, em corpo 24, e ainda termina com o Abs., D., a linguagem cifrada desses novos missivistas. Exceção é o professor Homero Costa, meu correspondente mais assíduo. De Botucatu, onde faz doutorado, Homero fala das suas aventuras pelos sebos de São Paulo, de onde sai com carretas gemendo nos eixos de tanto livro, discorre sobre leituras e leituras, faz a apologia das lindas botucatuenses que já inspiraram um poeta local: “Conheça Botucatu./ Seria bom se você visse/ Em cada esquina, uma bela/ Em cada beco, uma miss.” A internet também me traz muita poesia. Há pouco, Ricardo Ruiz me avisou que estava de volta ao Rio de Janeiro, num poema em que diz: “Fronteiras abertas/ como as pernas das adolescentes nos bordéis.” Ricardo, poeta e animador cultural, promete que vai trazer a Natal a poeta Nathália de Sousa, autora de um livro belo e docemente escandaloso chamado “Poemas devassos e uma canção de amor”.