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O Carnaval em Natal há cem anos

Reprodução/Gutemberg CostaPrefeito Djalma Maranhão e sua esposa Dária, no Carnaval de 1959, no América Clube
05/02/2009 - Tribuna do Norte


Por Gutenberg Costa

No ano de 1909, o carnaval se deu no mês de fevereiro, entre 21 e 23 – (Domingo e terça-feira). Saiu ás ruas, o jornal ‘A Capital’, cujos redatores eram os jornalistas ‘Galdino Lima’, ‘Honório Carrilho’ e ‘Juvenal Antunes’, de 06 de fevereiro, com a chamada - “Carnaval! Carnaval” – anunciando os confetes e lanças perfume que estavam à venda na loja do comerciante Manoel Machado, do bairro da Ribeira. No citado jornal de 18 de fevereiro em sua primeira página, era destaque na coluna – “Carnaval”, os famosos Clubes carnavalescos de rua: ‘Divisão Branca’ e o ‘Zé Pereira’. No dia 19 no mesmo veículo informativo a loja “Primor”, avisava ao folião natalense que suas máscaras, lantejoulas, confetes, serpentinas e lanças perfume, trazidos pelo vapor “Manaos”, já estavam à disposição dos carnavalescos.

O Clube da ‘Divisão Branca’ publicou o seu roteiro nas ruas, ainda não chamado de desfile, e sim de ‘Préstito’, no seu jornal – ‘O Torpedo’, de 22 de fevereiro, com o seguinte itinerário: - “Hoje, as 6 e meia hora da tarde, sahirá o numeroso préstito, da Avenida Sachet. Dali passará pelas seguintes: Praça Augusto Severo, Rua Coronel Bonifácio, Praça da Divisão, rua Frei Miguelinho, rua Formosa, rua do Triunpho. De volta: rua Frei Miguelinho, Praça da Divisão, rua Dr. Barata, Praça Augusto Severo, Avenida Junqueira Ayres (atual Câmara Cascudo), rua da Conceição, Praça João Maria, rua Pedro Soares e Avenida Rio Branco. Dali voltará ao ponto de partida”. O aguerrido ‘Barôncio Guerra’ (1880/1944), o ‘Cruzador São Paulo’, foi seu presidente por muitos anos. Cores: O vermelho e o branco eram as cores da Divisão e seus componentes saíam garbosamente vestidos em fantasia montados em cavalos pelas ruas de Natal, recebendo no percurso, confetes e serpentinas, jogados pelos carnavalescos e admiradores. A sua sede social ficava em frente ao hotel Internacional, no bairro da Ribeira, Rua Chile com a Tavares de Lira. O escritor Cláudio Galvão relacionou em mais de trinta páginas, a história da referida ‘Sociedade’, como também de seu jornal – ‘O Torpedo’, na sua obra – ‘Gracioso Ramalhete’, 1993.

Já o Jornal ‘A República’, em 24 de fevereiro (quarta-feira de cinzas), comenta que este ano tivemos um carnaval sem nenhum transtorno ou violência de espécie alguma. Os ditos ‘sujos’ fantasiados, como nos anos anteriores saíram às ruas sem muito alvoroço e a chamada ‘elite’ compareceram tradicionalmente aos clubes fechados, com suas fantasias e máscaras compradas nas melhores lojas do ramo. Segundo o ainda citado jornal, os ‘mascarados’ despertando no povo “risos” e nas crianças “sustos”. Os bondes nos trilhos, carregados de passageiros em busca dos festejos na parte alta da cidade. Balanço: O movimento das ruas foi tão grande, que até os repórteres da ‘A República’ reclamaram de tanta gente foliã - “Não precisamos dizer o quanto se tornou difícil nessas ocasiões o serviço de reportagem...”. A Rua Vigário Bartolomeu foi o centro das atrações populares “graças aos esforços do Senhor Quincó”.

A casa do Major Theophilo Câmara foi transformada “numa formidável fortaleza” dos carnavalescos natalense. Houve animada “Batalha” nas imediações da “Potigüarânia”. Os três dias do reinado de Momo foram animados pela banda de música do ‘Segundo Batalhão de Infantaria’. No Bairro da Ribeira: A Avenida Tavares de Lira, também foi decorada. Muitas festas nas Ruas Senador Bonifácio, Frei Miguelinho e Senador Ferreira Chaves. Além da tradicional batalha de confetes. Entre as agremiações carnavalescas de rua que se destacaram estavam as: ‘Vassourinhas’, ‘Club dos Espanadores’ - que tinha a liderança do carnavalesco Ezequiel Manoel da Cruz, ‘Divisão Branca’, ‘Imprensa Potiguar’ e ‘Cabocolinhos’. Sucesso: O que causou elogios foi o desfile nas ruas da jovem criança Zuleide Barreto, filha do Capitão Doutor Maximiano Barreto, que percorreu o centro numa tarde, fantasiada luxuosamente em carro alegórico homenageando o jornal ‘A República’.

As compras das novidades referentes ao carnaval, como confetes, laranjinhas coloridas, bisnagas, relógios dágua e fantasias eram feitas em ‘seu’ Quincó, na Rua 13 de Maio (atual Princesa Isabel, Cidade Alta). O 1º Delegado de Polícia, era o Major Joaquim Soares, que autorizou os festejos públicos da cidade e gostou de sua tranqüilidade momesca, entre o sábado de Zé Pereira e a terça feira gorda de carnaval.

Balanço: E segundo o referido jornal (sexta-feira, 26 de fevereiro), informa ter ocorrido um bom carnaval na Rua Vigário Bartolomeu, centro da Cidade Alta e nas ruas José Bonifácio, Frei Miguelinho e Triunfo, no bairro da Ribeira. As agremiações mais citadas pela imprensa de 1909, foram as: ‘Divisão Branca’, ‘Zé Pereira’, ‘Vassourinhas’ e ‘Espanadores’. Os ‘divisionistas’, como eram chamados, os integrantes do Clube de rua ‘Divisão’, saíram às ruas com 5 carros alegóricos, que representaram as temáticas - “Rio Potengi”, “Rio Grande do Norte”, “Greve da Great Western”, “Victória” - com os sócios fantasiados e o 5° carro representando o ‘corso’ – uma crítica a “Desordem e ao regresso”. E como se pode ver, o carnaval de 1909 foi um espetáculo de alegria momesca e principalmente de rebeldia crítica.


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