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É dor de mãe

12/05/2006 - Tribuna do Norte


Carmen Vasconcelos - Poetisa

Dor em filho, a gente não agüenta, não. É cruel além da conta. Quando a dor é no filho, a gente parte para o feroz revide. Ou então, diante da impotência, a gente sucumbe, vira ferida aberta permanente.

Pois é. Dia desses, uma amiga minha, moradora de Parnamirim, descobriu que o condutor do carro escolar que transportava o seu filho batia constantemente no garoto. Uma outra mãe presenciou uma vez e, ao comentar com outra pessoa, constatou-se que aquela era apenas uma de muitas vezes. Infelizmente, não posso citar nomes, porque não há provas do fato. As pessoas que o presenciaram recusam-se a ir a delegacias ou a juízo, porque não se querem comprometer. De modo que, citando algum nome, eu é que poderia ser ré, tanto de processo penal, por crime de difamação, quanto de processo cível, por dano moral. Estou com o coração rasgado, as mãos atadas, a alma atada.

Mesmo assim, eu desato o verbo. Pelo menos, falarei o que posso. Falarei da tristeza e da dilaceração por esse desamparo ao qual às vezes os cidadãos estamos sujeitos, quando a garantia do Estado não nos garante. Não poderia ser absoluta essa garantia, eu sei, mas dói muito só de pensar o quanto estamos à mercê da insensatez e da maldade porque não temos meios de nos defender, a não ser que façamos justiça com as próprias mãos, o que, pelo Estado e pela nossa própria sensatez, nos é vedado.

Todos os dias, há notícias de pessoas aos cuidados das quais crianças são deixadas e, ao invés de cuidar, essas pessoas agridem-nas, de diversas formas. Mesmo os pais, de quando em quando, viram notícia por bater ou até matar os filhos. Não há qualquer justificativa para esses atos. Seria absurdo pensar que há motivos, motivos não pode haver. Nos frágeis, os que se imaginam fortes derramam suas cotas de autoritarismo e violência. É isso que ocorre com as crianças. Eu posso acrescentar que a criança em questão tem Síndrome de Down, mas, sinceramente, tirando as insinuações discriminatórias prontamente feitas pelo agressor e por pessoas ligadas a ele, penso que isso não determine as coisas. A raiz do fato é que, diante do indefeso, a sensação de poder de muita gente incha sem medidas. 

Mas a fragilidade, às vezes, pode se estender a adultos, como ocorre agora com a minha amiga. O que lhe oferece o Estado? Abstratamente, reparação e punição, a cargo de seu poder judiciário. Para isso, porém, pede-lhe provas. Como consegui-las? O Estado está correto? Sim, não se pode negar. O Estado não teria como se organizar de outra forma, sem cair na desigualdade e no terrorismo. Sinceramente, não vejo uma solução que nos garantisse total proteção do Estado. Haverá sempre falhas e furos. E injustiça.

Não falo, pois, da forma das coisas. Falo mesmo é da fraqueza ética, da insensatez e da falta de razoabilidade. Falo da falta de compaixão, no sentido original dessa palavra, ou seja, a capacidade de compartir o sentimento do outro e, por isso, respeitá-lo. O que leva alguém a pensar que é legítimo bater no filho dos outros? Sabe-se lá.

Quanto a mim, tenho só a palavra. E a vontade de dizer a vocês, pais de boa vontade, que continuem cada vez mais vigilantes. Porque há terríveis malignidades por aí e elas podem aflorar onde e quando e em quem menos se espera.  



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