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O Vento Nordeste de Terezinha de Jesus

10/04/2009 - Tribuna do Norte

Por Marcilio Medeiros

Há trinta anos, chegava às lojas o disco Vento Nordeste, cuja capa estampava a areia ondulada das dunas de Natal. Era o LP de estreia da cantora Terezinha de Jesus, lançado pelo selo Epic, uma espécie de núcleo de vanguarda que existia na CBS, como o chamou a jornalista Deborah Dumar, em uma reportagem de 1979 do Jornal do Brasil.

A faixa-título, uma esmerada composição de Sueli Costa e Abel Silva, levou às ondas do rádio a voz brejeira, doída e delicada da morena de olhos verdes cantando “viaja o vento nordeste, cavalo de meu segredo...”

O disco trazia participações especiais de Dominguinhos, de Paulinho da Viola e do grupo Cantares.

Era o início de uma carreira de relativo sucesso no contexto da época, que perduraria até 1983, ano do quinto e último disco de carreira da cantora. Nos anos 80, muitos talentos foram expurgados do mercado fonográfico, em que contribuiu, de forma marcante, a estratégia de pasteurização da música brasileira posta pelas gravadoras e do reinado quase hegemônico da dupla de compositores Michael Sullivan e Paulo Massadas. Essa questão foi recolada na pauta de discussões atuais com as duras críticas que Alceu Valença fez em entrevista dada recentemente, por ocasião do lançamento do seu último CD, Ciranda Mourisca.

Terezinha de Jesus foi um desses casos. Jogada em um esquecimento e silêncio quase totais, nenhum de seus discos foi relançado em CD e o único registro digital do seu trabalho foi uma coletânea comercializada no já distante ano de 1997, hoje fora de catálogo. A compositora Ana Terra publicou, faz algum tempo, artigo sobre o forçado ostracismo a que a cantora foi submetida.

Na web, em que sempre há alguma coisa sobre quase tudo, não há praticamente nada sobre a trajetória da cantora. A exceção fica por conta do verbete existente no Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira. O sumiço só não é completo, porque é possível encontrar em alguns blogues, daqueles que veiculam material digitalizado de LP’s originais, os cinco discos lançados pela cantora, tipo de iniciativa, aliás, que está na mira das gravadoras.

Mas por que Terezinha de Jesus merece ser mencionada nesse trigésimo aniversário de sua estreia em disco, que transcorre sem nenhuma lembrança ou comemoração? Da geração das inúmeras cantoras surgidas em bloco na década de 80, ela foi a intérprete que fez, no curto espaço de tempo que permaneceu no mercado, o resgate mais significativo de grandes compositores do passado. Regravou, por exemplo, Bororó, Lupicínio Rodrigues, Luis Bandeira, Nelson Ferreira, João do Vale, Alcyr Pires Vermelho, Élton Medeiros, Anísio Silva.

Em uma época em que Marisa Monte não havia ainda sido a primeira da fila das cantoras denominadas de ecléticas, Terezinha de Jesus reunia um repertório de choros, boleros, sambas, frevos, xotes, baiões, modinhas. A harmonia do conjunto era obtida pelo fundamento essencialmente brasileiro dos ritmos ou sonoridades obtidas nos arranjos.

Como Roberta Sá, outra potiguar, elogiada pela seleção criteriosa do que grava, sua escolha de repertório era irretocável. 

Terezinha de Jesus

Terezinha de Meneses Cruz nasceu em Florânia - RN em 1951. A partir de 1970, residindo em Natal, passou a participar de festivais locais e regionais. Lá, integrou o Grupo Opção. Em seguida, foi para o Rio de Janeiro, quando passou a usar o nome artístico Terezinha de Jesus.

No início da carreira carioca, atuou como vocalista de artistas como Tim Maia e Quarteto em Cy.

Em 1978, apresentou-se no Projeto Vitrine, da Funarte, do qual resultou um disco que continha quatro músicas suas. Lançou os lp’s Vento Nordeste (1979), Caso de amor (1980), Pra incendiar seu coração (1981), Sotaque (1982) e Frágil força (1983).Participou das edições nacionais do Projeto Pixinguinha (1979 e 1981) e do Projeto Seis e Meia (1981).

Em 1994, voltou a residir em Natal. Foi contemplada com o Prêmio Hangar, pelo conjunto da obra, em 2003.



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Comente esta notícia | Ler Comentários (1)
elzafraga@... | 10/04/2009 - 12h55
Ótimo o artigo, Marcilio.
Serve como resgate! Tanta gente boa que desapareceu do mercado pelo mesmo motivo. Parabéns pór ajudar a manter a nossa memória em funcionamento, rsrs.

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