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A caravana pede parada

Alex RégisEVENTO - No Sandoval Wanderley, um dos últimos shows da edição anterior da Caravana Pixinguinha no RN
24/04/2009 - Tribuna do Norte

Yuno Silva - Repórter

Circular pelo Brasil a bordo de caravanas formada por músicos de diferentes recantos do País ou gravar e lançar um CD com direito a produção de três shows? A dúvida sintetiza os dois formatos do Projeto Pixinguinha – sendo a segunda opção a que está em vigor desde 2008. Entre prós e contras, percebe-se que uma coisa foi conquistada: a democratização na distribuição dos recursos. É que dessa vez, todos os 27 Estados (incluindo o Distrito Federal) terão artistas beneficiados pelo edital.

No Rio Grande do Norte, os dois nomes selecionados pela curadoria do projeto são Valéria Oliveira e Esso Alencar – apenas quatro projetos foram inscritos por artistas do RN.

Para dar seguimento ao calendário proposto pela Fundação Nacional de Artes – Funarte, instituição ligada ao Ministério da Cultura responsável pela realização do Pixinguinha, foram realizadas nesta última quarta (22) e quinta-feira (23), em Natal, Oficinas de Capacitação de Músicos para músicos de todo o Nordeste. A capital potiguar foi escolhida como sede regional por, culturalmente falando, estar entre as menos articuladas.

Entre os temas abordados durante as Oficinas estão o  “Planejamento estratégico e elaboração de projetos na área de música”, ministrada por Pérola Akerman, do setor de Desenvolvimento da Economia Criativa do Sebrae nacional; e “Música e as novas tecnologias de distribuição”, coordenada por Maurício Bussab, diretor da Tratore Distribuidora. Os participantes ainda tiveram espaço para dialogar diretamente com o diretor do Centro de Música da Funarte, Cacá Machado, sobre o funcionamento do Pixinguinha e as novas nuances da chamada cadeia produtiva da cultura.


Sonho

Há dois meses no cargo, Machado acredita que “o edital tem problemas” justamente por ter fugido do conceito de promover a circulação. “O Pixinguinha dos sonhos custa perto de R$ 30 milhões”, arriscou Cacá, que conversou com a  reportagem do VIVER sobre o assunto. Para Machado, que é músico em São Paulo, o ideal seria – além de ampliar o número de artistas contemplados – que o Projeto Pixinguinha promovesse a circulação e investisse nesse viés da produção paralelamente.

“Desde que assumi a direção do Centro de Música que venho priorizando esse contato mais próximos aos músicos. Sentir a realidade, saber das dificuldades e colher sugestões em cada lugar. Não acredito em decisões de cima para baixo, fechado em um gabinete, nossa proposta é articular, capacitar e ouvir para poder agir respeitando cada contexto”, adiantou.

Para o diretor, a Economia Criativa (da Cultura), gera mais divisas ao Brasil do que muitos imaginam: “o que falta para essa indústria ser mais forte do que já é são, justamente, projetos estruturantes. Para dar forma a esses projetos, estaremos trabalhando intensamente nesses próximos dois anos (2009 e 2010). Temos que buscar caminhos mais sinceros para as artes de uma maneira geral”, garante.

Cacá Machado e os palestrantes receberam kits da produção local com exemplares da revista Préa (editada pela Fundação José Augusto), a coleção completa da revista Brouhaha (publicação da Fundação Capitania das Artes) e alguns Cds produzidos por essas bandas.


Capacitação

A consultora do Sebrae, Pérola Akerman, chama atenção para a necessidade do artista passar a considerar a própria carreira como um negócio: “Não adianta ter um bom trabalho, é preciso saber embalar o produto (a música, o CD, o DVD), distribuí-lo, gerenciar e administrar recursos. Os artistas precisam se capacitar para enfrentar as novas realidades ”, aposta. “Hoje o artista tem entender de economia, marketing, produção, entre outros detalhes que envolvem qualquer carreira”.

A opinião entre os músicos também não é diferente. Para o cantor e compositor Mirabô Dantas, que faz parte do núcleo de música da Fundação José Augusto, ainda estamos longe do ideal. “Sabemos pouco, aqui no RN, sobre o funcionamento desse mercado: como se registra uma música? Onde editar, como distribuir? Qual o papel das gravadoras/selos hoje em dia?. Precisamos correr atrás dessas informações”, sentencia.

Mirabô também comentou sobre os absurdos do mercado fonográfico: “Veja só como precisamos estar informados: eu tenho uma música que hoje faz parte do acervo do Michael Jackson. Ela foi editada em uma empresa que foi comprada; esta, por sua vez, foi incorporada a uma grande multinacional que se fundiu com outra cujo controle pertence ao Michael Jackson. Chega a ser engraçado eu ter o Michael como parceiro... eu nem conheço ele”, brinca. “Por isso demorei tanto para gravar um disco. Agora posso lançar CD sendo dono das minhas músicas”, finaliza.


O músico Fábio Rocha, vocalista da banda Orquestra Boca Seca, acompanhou as Oficinas e saiu ainda mais convicto sobre os benefícios do fator união. “A união de artistas, em coletivos ou cooperativas, está diretamente ligada à conquistas de novos espaços. Não há muita opção: ou nos unimos pra reverter o quadro ou vamos continuar fazendo shows e vendendo Cds dentro da nossa própria cidade, para o mesmo público”, lamenta. “Se alguém tinha alguma dúvida disso, saiu daqui com outra visão”, comemora. Tiquinha Rodrigues, violinista da Orquestra Sinfônica do RN e integrante da banda Rosa de Pedra também acredita na fórmula. “Se não pensarmos em trabalhar em conjunto não rola. Todo mundo está muito igual com a internet, e os mais aplicados e articulados levam vantagem. O artista precisa passar a pensar na carreira como qualquer outra profissão”,disse.

A pernambucana Isaar França, selecionada pelo Pixinguinha 2008/2009, concorda com a colega potiguar: “O artista precisa se valorizar”, afirma. Para Isaar, esse novo formato do Projeto é mais democrático por traçar “um panorama geral em todo o Brasil”. Esso Alencar, que ao lado da cantora Valéria Oliveira forma a dupla contemplada pelo Pixinguinha aqui no RN, também acredita nessa maior democratização. “Surgem novas possibilidades, inclusive para termos uma compreensão do anda acontecendo por aí (no RN e no Nordeste)”. Esso tem até julho próximo para concluir a produção e gravação do CD “Alma de Poeta” e agendar os três shows previstos no edital.

Para Carlos Zens, que circulou em 2005 com a caravana do Projeto Pixinguinha, também vê com bons olhos essa mudança. “Acredito que irá fortalecer os Estados, e também arrisco dizer que em breve o foco na circulação também voltará a fazer parte dessa iniciativa da Funarte”, disse Zens.

Memória

O Projeto Pixinguinha, criado pela Funarte, em 1977, tem por objetivo difundir a música popular brasileira. Por falta de verba, a iniciativa foi interrompida em 1997 e só retomada em 2004, amparada pela Lei Rouanet com patrocínio da Petrobras. As caravanas do Projeto levaram ao conhecimento do público talentos consagrados e revelaram novos como Djavan, Zé Ramalho, Adriana Calcanhotto, Jane Duboc, Vítor Ramil, Kátia B,  João Penca & Seus Miquinhos Amestrados, entre outros. Ao todo foram mais de 340 apresentações, execução de 5 mil músicas de aproximadamente 3,4 mil compositores brasileiros. 



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