Tempos vigilantes
Junior Santos

Cassiano Arruda relembra a Natal de 1969 ao mesmo tempo em que conta os momentos de sua prisão, quando trabalhava no jornal Tribuna do Norte
01/07/2009 - Tribuna do Norte
Michelle Ferret - Repórter
Enquanto Cassino Royale estava em cartaz nos cinemas da cidade, o perfume da revolução era derramado nas esquinas do país inteiro. Era 1969, um dos anos de chumbo emoldurado com torturas, sumiço de presos políticos e até campos de concentração - mais de 400 espalhados pela América Latina. Em Natal, militares compunham o desenho das ruas e o silêncio era tomado entre jornalistas, artistas e quem desejasse se expressar contra o regime militar.
No dia 15 de maio de 1969, o então chefe de redação da TRIBUNA DO NORTE Cassiano Arruda leu e releu o jornal por diversas vezes e foi para casa descansar. Dormiu mal. Ao acordar pegou o jornal deixado em sua porta e percebeu que haviam escrito duas notas não autorizadas na coluna da parte esquerda da capa chamada “Informes do Redator”. As notas traziam as seguintes mensagens:
“Amigos a Briga dentro do América está forte por conta da derrota de antes de ontem. Aliás isso é como na Política de nossa terra. Basta se ter as costas quentes prá se fazer o que quiser. Até Dinarte Mariz é constitucionalista no Brasil. Tá muito forte...”
“Mas, amigos, diz o clube rubro que tem um grande trunfo prá ganhar este campeonato. Bom, o pessoal que está mandando aqui também diz isso quanto as acusações que estão fazendo da gente. Trata-se da contratação de um jogador chamado Hildebrando, que estaria jogando de reserva num determinado time potiguar no interior é lógico, amigos e que já vem na estrada. Vá ser forte assim na mata”.
Os escritos vinham em letras pequenas ao lado da manchete principal que dizia “Câmara rejeita rejeita representação do TC contra Agnelo: 14x10”.
Ao terminar de ler as duas primeiras notas Cassiano já imaginou o que viria pela frente. “Na hora soltei o clássico, vai dar merda. Vivíamos o império da repressão e mesmo as notas sendo absolutamente ridículas traziam sub textos. Cheguei ao jornal e encontrei um bilhete como se fosse Agnelo que tivesse escrito as notas e coloquei-o no bolso. Voltei para casa e logo chegou o carro do prefeito Agnelo Alves. Ele contou que não foi ele quem escreveu as linhas e disse ter sido Romildo Gurgel autor das notas. Atribuíram o fato por ele ser ligado ao general”. Ao desmascararem a possível farsa tomaram o carro e foram até a casa do general. “A esposa dele nos atendeu muito bem, deu água gelada e tudo mas disse que ele não estaria em casa, mas nos esperava no Quartel General, na época localizado onde hoje é o Memorial Câmara Cascudo. Mal chegamos e recebemos a voz de prisão”, contou Cassiano.
O então prefeito Agnelo Alves foi para o hotel de trânsito da Marinha e Cassiano para o hotel de trânsito da Aeronáutica. Cassiano ficou preso por 49 dias. “Cheguei lá e imaginei que ficaria preso por apenas alguns dias ou horas, mas não. Esqueci que o AI-5 indicava que os presos políticos deveriam ficar por pelo menos 50 dias em regime fechado”.
E assim ficou. Nos primeiros dez dias não tinha contato com ninguém e depois só poderia receber um visitante a cada cinco dias. “Eu sentia muito medo, pois sabíamos das possíveis torturas que poderíamos sofrer ali. Mas ao contrário fui muito bem tratado, comi do bom e do melhor e ainda recebi visitas da minha noiva, que hoje é a minha mulher”.
As histórias dos dias e noites de prisão fizeram Cassiano observar uma outra maneira de viver. “Eu comecei a me perceber no mundo. A prisão me deu a oportunidade de escolher um caminho melhor para minha vida e foi quando eu decidi ter uma família”, lembra Cassiano. A memória e as cartas trocadas na prisão envolveram Cassiano nesses últimos 40 anos, até que resolveu escrever suas memórias na obra “Hotel de Trânsito” que será lançada hoje, às 19h na Siciliano.
Medo do ócioQuando Cassiano se viu sem sua coluna do jornal em que trabalhava até pouco tempo, passou a ter medo do ócio que o envolvia. “Eu escrevia todos os dias 5 laudas. E de repente me tiraram isso. Aí lembrei de minhas cartas da época da prisão guardadas até hoje e fiz um esboço do livro”, contou.
De início o livro seria uma publicação das cartas em forma de plaquete com um texto explicativo inicial. Mas seu filho que é professor disse que aquilo não era um livro. Depois de resmungar e considerar o filho um desnaturado, Cassiano aceitou suas dicas e as páginas explicativas que antes somavam 4 se multiplicaram em 40 compondo um dos capítulos do livro. “Quis contextualizar a cidade do Natal que na época tinha apenas seus 200 mil habitantes. E eu como chefe de redação de um jornal que circulava com 700 tiragens não entendia como poderia estar numa condição daquela, preso político. Todo o livro é contextualizado nessa época. E quem puder ler terá um pouco a noção do que passamos por aqui numa época dolorosa”.
Entre os escritos, o jornalista publicou as cartas trocadas com sua mãe, amigos e esposa. Uma delas traz o seguinte trecho: “Agora tem um passarinho cantando aqui fora. Fico feliz porque sonha da produção da feira de pássaros e da libertação de todos os que estavam à venda, numa inédita revoada para a liberdade. E eu aqui sem você...” Cassiano contou que o livro não tem nenhum viés ideológico. “Não escrevi com amargura e procurei o lado positivo desse episódio. Quis apenas contar a história de uma pequena cidade e a opressão exercida no próprio jogo de poder. É uma pequena história de minha memória. É a minha fase de transição na vida, por isso o título. Na época eu era um rapaz com 25 anos e sonhos diversos”, finalizou o autor, lembrando que nunca fez parte de nenhuma militância dos Direitos Humanos e nunca fará.
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Comente esta notícia | Ler Comentários (1)
irvisoncosta@... | 01/07/2009 - 10h05
É preciso colocar os pontos nos is.
O golpe de 1º de abril de 1964, viabilizou-se com a chancela doa EEUU.
Todos sabem.Claro, os que leem.Todos
os golpes no continente, foram orquestrados de uma só vez:Brasil, Argentina, Chile, etc.As universidades
passaram a contar com alunos e professores espiões.O perigo estava em
todos os lugares.Parecia a perseguição
de Hitler aos Judeus e outras Minorias.
Parentes e amigos, fugiram ou foram
presos, torturadas e assassinados.O
meu professor de História, Moacir de
Goes, desapareceu, Agnelo, Aloízio,
Djalma Maranhão.Meu irmão fugiu e
passou 10 anos para voltar.Eu não
via mais esperança, era como se estivesse no deserto de Saara.
Acerdito, que não mais aconteçam fatos semelhantes.1º de abril de 1964.
Data inesqucível.Que se fale sempre
e também se escreva sobre aquele dia de terror.Claro que quem não passou
por aquilo não tem idéia do medo e
tristeza que tomou conta de todas nós.
Gostaria de ver o livro do Cassiano.
Gostaria também de ler na internete o
que outros teem a dizer.Que o que estou dizendo venha a ser lido por outras pessoas.
Parabens ao Cassiano.