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A estética cruel da rotina

Rodrigo SenaARTISTA - O aprendiz Francisco Lindomar Rocha retrata na tela o cotidiano do bairro Planalto
12/07/2007 - Tribuna do Norte


O escritor mato-grossense Manuel de Barros dizia que os meninos que carregam água na peneira são ligados aos despropósitos da vida e assim conseguem assimilar a essência de existir. É nesse leva-e-traz que o Projeto Escola Aberta realiza até amanhã no Centro de Treinamento da Secretaria de Educação, a exposição “A Estética e a Forma” com de 56 gravuras em pastel seco, grafite e carvão organizada pelo professor e artista plástico Barros Neto. A mostra está inserida na Conferência Regional dos Direitos da Criança e do Adolescente.

Com aulas de história da arte, teoria de artes plásticas e muita prática, o projeto envolve alunos da comunidade do Planalto, unindo idades diferentes numa mesma atividade. “O trabalho começou há cinco meses e conseguimos um resultado surpreendente. Passamos até por problemas das pessoas não acreditarem na autoria das obras, o que terminou dando um crédito  maior aos alunos”, lembra o professor.

Envolvendo hoje 56 alunos, as aulas ocorrem todos sábados na escola Otto de Brito Guerra, no próprio bairro, inserido no Programa Escola Aberta criado pelo MEC. O conteúdo das aulas têm como base a estética e a forma do desenho, se comunicando com poesia, cinema e música. “Costumo utilizar como material de apoio a música clássica e poemas de autores mais diversos. Isso gera um estímulo muito maior ao pensamento das crianças e também de alguns adultos que freqüentam as aulas”, conta Barros.

O projeto foi um desafio para todos que participaram, principalmente pelo estigma que a comunidade carrega por ser muito pobre e não ter acesso à arte. “Essa exposição é a oportunidade de mostrar à cidade que o bairro do Planalto, tão castigado pela pobreza pode revelar belezas também, do lixo podemos extrair coisas boas. Consegui retratar o mangue e isso faz com que minha voz possa ser ouvida de outra maneira”, diz a aluna Rita Pedro da Silva, de 43 anos.

A maioria dos alunos nunca fez aulas de pintura ou desenho. Na linha adotada por Barros Neto, os desenhos aparecem como a própria identidade, retratando a comunidade, as angústias, os medos, a violência urbana e também paisagens bonitas. “Como os alunos recebem estímulos artísticos, cada um compõe sua obra de acordo com a própria vida. O aluno que me chamou mais atenção foi Jared Júnior, um menino de apenas 8 anos que têm um olhar nobre. Ele consegue elaborar um desenho com a qualidade de quem trabalha há anos com arte”, afirma.

 As obras de Jared Júnior chamaram a atenção de todos os professores pela beleza e intensidade dos traços. Para o aluno, desenhar é uma descoberta nova a cada dia e seu grande sonho é se tornar artista. “Eu mesmo crio minhas obras da maneira que vejo o mundo, assim pinto o sertão, os campos, retratos do que gosto no mundo. A exposição para mim é um passo para realizar meu sonho, ser artista”, reflete Jared. Para o professor, as obras do garoto são caracterizadas pelo impressionismo, retratando o campo e o trabalhador na forma mais humilde. “O pescador e o camponês, também estão nas obras dele, que  tende a retratar a realidade do meio social em que vive. Esse menino é uma grande descoberta, estou investindo muito nele, um investimento no sentido cultural da palavra. É realmente impressionante!”, exclama.

A arte que muda o cotidiano

Segundo Barros, a arte consegue transformar a realidade quando é lançado um novo olhar sobre a própria cultura, na busca de compreendê-la e buscar soluções possíveis.  “Isso faz com que os alunos nunca se permitam ao acomodamento, que eles possam ir buscar soluções de suas próprias crises e transformar, mesmo que seja num retrato”, diz.

A sensação de Felipe Bezerra, 15 anos, ao ver sua obra exposta é única. “Isso nos dá estímulo e é gratificante porque percebi que não quero mais parar de desenhar. Antes eu buscava coisas novas para fazer e não achava graça em nada e hoje tudo é diferente”, conta.

Já no olhar de Catarina Macedo, 36 anos, sua vida mudou depois das aulas. “Agora observo o mundo com olhos de artista, de maneira muito diferente. O mais importante é ver que as crianças estão sendo descobertas através de seus desenhos e isso é fascinante”, finaliza.

São as águas sendo carregadas nas peneiras da vida, trazendo um sentido novo aos velhos olhos do mundo.

Serviço:

A exposição ficará até hoje no Centro de Treinamento da Secretaria de Educação, Cidade da Esperança. Horários: das 8h às 17h. Mais informações: 88153543.



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