AUDITÓRIO - Ficou lotado no início do festival, mas foi perdendo público no fimO Festival de Cinema de Natal, consolidado há 20 anos, inaugurou ontem na Universidade Potiguar, a sétima edição do Vídeo Potiguar, trazendo para os olhos curiosos do público, 12 vídeos produzidos exclusivamente no Rio Grande do Norte. Seriam 14, não fosse o problema técnico dos curtas “Conversa de botequim” e “Cartas na mesa”, transferidos para a segunda e última noite do festival, ocorrida ontem.
A abertura trouxe para a tela a homenagem ao escritor potiguar Oswaldo Lamartine, falecido recentemente. O documentário em formato de uma matéria jornalística, produzido pela TV Assembléia, trouxe a história da vida do escritor desde sua infância, passando pelas produções de suas obras, até o dia do seu suicídio. Um pouco longo, com 36 minutos, o documentário foi costurado por depoimentos de escritores, amigos e parentes de Oswaldo, além de frases de suas obras literárias.
Este ano foram inscritos 52 vídeos e a comissão selecionou 26 para exibição. Os dois melhores receberão em agosto o troféu Estrela do Mar e o certificado de participação, além da oportunidade de concorrer na terceira edição da Mostra de Curtas Nordestinos.
Além de exibir novidades, os festivais também são importantes pela discussão das obras entre o público e os autores, o que não ocorreu neste festival do vídeo potiguar. Fica, assim, limitado à exibição e fim. Segundo o cineasta Buca Dantas, vencedor da 1.ª edição do evento, o festival é importante para fomentar a produção local, mas falta a reflexão diante das obras. “Digo sempre que o festival é a jóia da produção local e isso estimula o crescimento do campo áudio visual. Mas olhando por um lado mais crítico, sinto falta dos debates e discussões dos filmes. Quase todo festival que vou no Brasil, temos a oportunidade de discutir e aqui não. Isso deixa um abismo, vou para casa com tudo gritando dentro de mim”, desabafa.
O primeiro vídeo concorrente da noite, “Uma cidade musical”, da diretora Rosália Figueiredo, conta a história da formação musical das crianças e adolescentes da cidade de Cruzeta, interior do RN, liderada pelo maestro Humberto Carlos Dantas, o Bembem, que esteve presente na exibição do filme.
Os depoimentos deixam transparentes a força musical da cidade. Um vídeo claro e completo, que mesmo com o recurso precário das imagens, conseguiu levar o público a ouvir as canções tocadas pelas mãos que poderiam estar capinando terras. “Para mim esse filme é a coroação de muita luta e amor pelo Seridó. Digo para meus alunos, que antes de ser um músico é preciso ser um cidadão humano, com posições críticas a respeito do mundo. O vídeo registrou bem o trabalho e conseguiu extrair a essência de nossos desejos. Como não existe política pública para a juventude, precisamos estimular a inteligência das crianças para um futuro próspero e a música consegue isso”, diz o maestro.
Produções amadoras e cansativas entediaram público
Logo depois, o vídeo Boy Peba, de Carlos Tourinho, produzido pelo núcleo ITEC, projeto de Tourinho, narra uma história real vivida por um dos estudantes, que são atores do vídeo. De maneira amadora, os atores elaboraram algumas cenas à luz do dia, contando a história de um assaltante que não quis levar o celular da vítima por pena e logo depois deu alguns trocados para ela ir embora. Sem essência discursiva, o vídeo soa como brincadeira e não tem muita graça. Segundo o diretor, o vídeo serve como início do entendimento de como se produz para cinema. “Como é fruto de uma oficina, analiso positivamente nós estarmos hoje nesse festival. Isso é um estimulante para os alunos, que passaram por todos os processos de confecção de uma obra audiovisual”, reflete Tourinho.
“Vida e Morte de Nick Shox”, dirigido pelo estudante Fernando Francisco, tem caráter de curta-metragem. Estendido por 30 minutos, mesmo com uma história boa a ser contada, ficou cansativo quando o diretor mantinha em um só plano, minutos de uma mesma cena. Sem “time”, o vídeo conta a história de um jovem que troca seus planos futuros pelo consumismo imediato transmitido pelas mídias. A idéia do diretor era que o espectador transitasse pela mente do personagem João. A trilha sonora, toda feita com o grupo paulista Racionais Mc, foi uma boa sacada para embalar o roteiro, quando as letras trouxeram reflexões sobre o consumo e a vida.
“As 100 Horas de Angicos”, documentário de Henrique José, utilizou imagens antigas, datadas de 1963, para lembrar os cursos de alfabetização da cidade, iniciados pelo método de Paulo Freire. Contrapondo às imagens atuais, de quando a Ong Zoom realizou oficinas de fotografias com os jovens, traçando um paralelo entre educação e cultura antes e hoje.
Logo depois desses vídeos, veio a tona uma verdadeira saga de imagens produzidas na cidade de Patu. “Jubileu de Opala”, “Jubileu de Bronze”, “Jubileu de Porcelana” e “Jubileu de Porcelana”. Vídeos cansativos, repetitivos e sem criatividade artística, produzidos todos pelo diretores Paulo e Alan Suassuna, a serviço da prefeitura de Patu. Eles narravam as possibilidades socioculturais do lugar, que mesmo interessantes, foram se perdendo pela repetição e densidade nos textos, o que conseguiu deixar o auditório praticamente vazio.
Os dois últimos vídeos da noite foram “A Loucura da Linguagem”, de Andréa Souto/ Érika Ramanho, e “Além dos Corpos”, de Karen Montenegro/Rafael Cruz, exibidos depois das 22h e com a sala já vazia.
O primeiro deu voz aos internos do hospital psiquiátrico João Machado, questionando ao paciente o que é a loucura. Com a música de Arnaldo Antunes, a obra conseguiu, em apenas 6 minutos, revelar pensamentos e sensações dos pacientes através de imagens deslocadas dos planos confortáveis e pareceu a proposta do cinema novo, quando o espectador pode caminhar pelos corredores do hospital junto com o olhar da câmera.
O último vídeo da noite, “Além dos Corpos”, focou o olhar na história de vida da ex-prostituta Maria da Paz Soares, filmando sua vida e pensamentos no cotidiano de sua casa, quando o elemento da água, através da lavagem da louça, roupa e frutas, representava sua história passada a limpo.
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