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“Aqui, sou um burocrata”

Rodrigo SenaDIRETOR - Crispiniano Neto diz que sua gestão está mais preocupada com a cultura
27/07/2007 - Tribuna do Norte

Michelle Ferret - Repórter

Dividido entre os delírios de poeta e a burocracia que enfrenta diariamente um presidente, Crispiniano Neto, diretor geral da Fundação José Augusto, analisa seus primeiros seis meses no cargo e revela que ao mesmo tempo em que delira, viaja e sonha no balançar da rede, é um burocrata por trás do birô da FJA. Ontem pela manhã, Crispiniano conversou com o VIVER e fez um balanço sobre os seis meses de gestão.

Como o senhor viu passar esses primeiros seis meses de gestão?

Acredito que temos um balanço positivo. Estamos conhecendo melhor a “máquina”, com suas potencialidades e seu gargalo. Sinto que agora começamos a alavancar, de fato, nos projetos democráticos. Estamos criando um método mais nosso de trabalho, que abre um diálogo com todas as linguagens culturais do RN. Não temos prazos para nada porque tudo é muito burocrático, mas vamos fazer o possível para ouvir sempre os artistas, sentir suas necessidades e desejos futuros. Mesmo eu não sendo um burocrata, tenho meus devaneios e poesias, mas aqui por trás do birô de presidente sou um burocrata!

E em relação aos pontos negativos?

Um dos pontos negativos foi as Casas de Cultura, que estavam um pouco abandonadas, mas agora estamos reformando 10 das 23 que existem. Com essa restauração da estrutura, iremos dar início ao projeto de intercâmbio com os artistas, quando as apresentações artísticas irão girar por todas as casas, com apresentações, oficinas e exibição de filmes com debates.  Quero sempre ter dentro de mim a autocrítica e o poder de ouvir as pessoas. A realidade das casas hoje é terrível, mas temos perspectivas boas.

Em entrevista ao VIVER, logo que assumiu, o senhor afirmou que suas prioridades no início do mandato eram criar o Fundo Estadual de Cultura e montar um escritório para orientar os artistas em relação aos direitos autorais. Isso ainda não aconteceu. Por quê?

Já temos essa proposta desde o ano passado. É outra linha de financiamento, bem diferente da Lei Câmara Cascudo, porque o grupo ou artista não precisará de patrocinador. Mas não posso propor isso só da minha cabeça, é preciso tempo para amadurecer a idéia, dialogar e por fim ter a aprovação da governadora. Quanto ao escritório de apoio aos artistas, está começando na próxima semana. Funcionará aqui na própria FJA com o apoio de dois técnicos daqui e outro de fora, que ainda estamos vendo quem é. Aqui iremos oferecer todos os editais de cultura do Brasil e orientar aos artistas e produtores como preencher da melhor maneira seus projetos.

A Lei Câmara Cascudo vem sendo bastante criticada pelo segmento artístico. Ela não é muito restrita?

Muita gente critica a lei. Concordo e tenho até mais críticas dentro de mim do que as que recebo, por isso estamos numa discussão com os conselheiros para discutir as mudanças. Os artistas criaram uma comissão e junto com a gente estamos discutindo uma versão oficial para que fique melhor para todos.

O conselheiro Plínio Sanderson disse em entrevista que haverá critérios como o máximo de 5 anos de perpetuação de um projeto na lei. É esse o caminho?

Plenamente! Todo mundo critica o programa fome zero e o programa do leite por “passar a mão” na cabeça das pessoas e não permitir que os cidadãos sejam independentes daquilo. É essa minha visão também na Lei. Um projeto que fica por 5 anos, já é quase oficial, não dá espaço para que outros se renovem. Sou contra realmente a perpetuação, sou a favor da renovação e do vôo artístico. As oportunidades surgem e depois cada um precisa buscar por si seu espaço. O que temos de concreto são 5 milhões para a Lei e se os projetos ficarem por mais de 5 anos, essa verba será sempre preenchida pelas mesmas pessoas.

Semana passada, O VIVER fez uma reportagem sobre o complexo gráfico Manibu (Editora da FJA) e mostrou a falta de estrutura e o abandono do lugar. Existe alguma perspectiva de mudança?

No orçamento do ano passado não estava previsto nenhuma melhora para a Manibu, por isso busquei uma saída de emergência, como a reforma da máquina de policromia, que está funcionando. Estamos renovando os rolos dela e tentando alternativas para que não pare de funcionar. Ao longo de sua história, o complexo editou 560 livros e hoje está quase paralisada. Mas digo que nunca deixou de publicar, mesmo com essas condições de vida. Esse ano estão previstos as publicações de 8 títulos.

Como a gráfica chegou a esse ponto degradável?

Não gostaria de estar respondendo a quem se deve. Mas foi falta de prioridade. A gráfica já chegou a consumir 10 toneladas de papel por mês e estamos muito interessados em renovar a gráfica, mas isso é muito particular meu, esse desejo.

Em relação ao teatro, como ficou a situação do projeto Fest em Cena, que chegou a ser paralisado pela FJA um dia antes de começar?

O Festival de teatro aconteceu normalmente, sem prejudicar os grupos envolvidos e o público. Mas estamos enviando toda a prestação de contas para a Control, como procedimento normal. Não é nada pessoal, como andaram dizendo por aí, mas como houve denúncias, precisamos apurar tudo. Se houve erro ou não, quem vai dizer será a control, tudo continua nos trâmites legais da lei, mas isso não tem prazos, é uma investigação minuciosa. Além desse, tem outros projetos sendo “julgados” e sempre serão, são atitudes naturais.

O senhor disse que o edital do Auxílio Montagem seria publicado há três semanas, mas não foi. O que aconteceu?

Estamos marcando um encontro para a próxima semana com os grupos e artistas de teatro, quando iremos discutir a política de teatro do RN. Muitos artistas procuravam a gente para alterações no edital, achando ruim a forma que era distribuída a verba, então resolvemos junto aos artistas escolher a melhor maneira do auxílio funcionar.

O projeto Seis e Meia está consolidado na cidade, mas este ano trouxe atrações repetitivas, como a seqüência da jovem guarda, em julho. Como o senhor vê, também, a reclamação dos produtores em relação às verbas atrasadas?

Digo primeiramente que os artistas estão sendo pagos no prazo estipulado, estamos conseguindo casas cheias sempre e estamos abertos a sugestões. Quanto à repetição da jovem guarda (muitos risos), a pesquisa que é contratada para a seleção nacional foi quem indicou. Como disse, estamos abertos a sugestões, é só dizer. A crítica dos produtores quanto à falta de apoio e atraso é pertinente, mas estamos dialogando muito e fazendo parceria para que tudo seja melhor. Eles até se admiram por nós estarmos indo aos eventos, vejo que tudo está mudando realmente.

Qual a situação financeira hoje da FJA?

Hoje a situação financeira está equilibrada, estamos pagando as dívidas e para isso baixei uma portaria há 60 dias para gastos mínimos. Estamos pagando tudo e organizando a burocracia. Estamos trabalhando por licitação e planejamento. Hoje estamos mais preocupados com a cultura, com suas novidades, sem preconceitos.

Quem é Crispiniano Neto?

Um poeta!



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