MAMULENGUEIRO - João Viana não liga para as dificuldades e vive feliz da vida com sua arteNo Rio Grande do Norte, os mamulengos (bonecos) são conhecidos como joão-redondo. Em diferentes cidades e lugarejos, existem mãos que se movimentam e dão vida e voz à personagens, espelhos de cada ser humano. Contando histórias engraçadas sobre assuntos sérios, os mamulengos trazem em seus tecidos os segredos da simplicidade, questionando o social, lidando com assuntos como preconceito racial e tentando através da brincadeira, transformar o olhar o público e chamar atenção para o interior deles mesmo. Hoje, no entanto, todos vivem sem condições. Os mamulengueiros Josivan de Chico Daniel, Daniel Neto (ambos filhos de Chico Daniel), Dona Dadi, João Viana, Antônio de Rosa, Raul do mamulengo, Francisquinho de Passa e Fica, Luiz de Toou e Heraldo Lins brincam, atualmente, como eles mesmo chamam, com as histórias e buscam o seu lugar entre os panos e os olhares, esquecidos muitas vezes na história da cultura popular.
Com o objetivo de registrar e mostrar ao maior número de pessoas a vida e obra desses mestres da arte, a radialista Rita Machado, sob a coordenação da professora universitária Miriam Moema, gravou o documentário “A gente se ri”, com recursos do Programa BNB de cultura, do Banco do Nordeste, com estréia prevista para o dia 8 de agosto.
Indo em cada casa, lapidando livros de histórias e mapas que os levassem aos rastros dos mamulengueiros, Rita preferiu contar a história não através da voz de historiadores ou folcloristas, mas registrando a voz de cada um dos mamulengueiros, em suas casas e costumes. “Percebemos que tudo o que tem registro dos mamulengueiros ou documentários sobre cultura popular, as pessoas colocam o olhar do pesquisador para mostrar a realidade dos artistas e quisemos no vídeo, registrar a vida deles por eles mesmos. É apaixonante ver eles falando, é tão genuíno, porque o boneco nos representa socialmente”, diz a diretora.
Acompanhada pela equipe formada por Drika Duarte, Cleidiane Vila Nova, Ianne Maria e Mário Rasec, Rita Machado pesquisou aonde estariam cada um dos mamulengos registrados no vídeo. Bebeu nas fontes dos livros, entrou em contato com as cidades deles, mas poucas informações eram colhidas, até que chegou aos nove mamulengueiros, vindos de cada parte do Rio Grande do Norte. “Tivemos dificuldade em encontrar os mamulengueiros, as prefeituras não tem conhecimento de seus próprios artistas e também as pessoas não tem muito acesso a eles, não conhecem a arte. Para se ter uma idéia, chegamos para filmar na casa de Chico Daniel e quando perguntamos na rua, qual seria a casa dele, nos disseram: ‘ah... não conheço! É o sapateiro é?’ Então isso é o retrato do desconhecimento das pessoas”, diz a produtora Drika Morais.
As histórias são curiosas. Uma delas, por exemplo, diz que Chico Daniel - o nome mais famoso do mamulengo do Rio Grande do Norte, falecido este ano - sustentava sua família não com a arte, mas através do conserto de sapatos. “Por isso quando chegamos na rua dele, as pessoas diziam isso, mas poucos sabiam que ele é o grande mamulengueiro de nosso Estado. Fiquei triste na hora, mas depois entendi, que as pessoas precisam saber que eles existem, antes de qualquer crítica social, precisamos perceber aonde está a arte em nosso Estado”, reflete Rita.
Para ela, o grito de socorro que os mamulengueiros pedem não se refere à condição social, mas à arte. “Nossa arte está nos escombros da cidade. Para se ter uma idéia, há bem pouco tempo os mamulengueiros colocavam seus teatros na varanda de casa e hoje e televisão é o palco da realidade deles”, enfatiza Rita.
O documentário traz 17 minutos narrados pelos próprios mamulengueiros, quando cada um conta como é a sua maneira de confeccionar os bonecos, qual madeira utilizam, como pintam e como é estar por traz dos panos contando histórias e inventando vozes.
Os bons frutos de Chico Daniel
Para Josivan, filho de Chico Daniel, que herdou o dom do pai e busca transmitir aos filhos o que aprendeu, ser mamulengueiro hoje é amar muito o que faz e perpetuar a arte sem se prender ao dinheiro. “Depois da morte de meu pai, eu estou vivendo da brincadeira que ele nos deixou como herança, antes eu o acompanhava, mas não exercia. Agora a responsabilidade é grande! Sei que nunca terá outro igual a Chico Daniel, mas levo em mim a força dele e quero muito que chegue em todas as pessoas possíveis e que possam perceber que a voz dos mamulengos é também a voz de cada pessoa que assiste”, conta Josivan de Chico Daniel. Segundo ele, viver da arte é difícil, por ter que pagar aluguel todos os meses e precisar das apresentações para isso, mas diz que a arte é tão maior que o eleva para o mundo. “Meu sonho hoje é ter uma casa própria para viver com a família. Somos 10 filhos de Chico e aí tem mais os filhos e os sobrinhos. Tomara que todos consigam vir atrás para entrar nesse trem. Peço só que nunca deixem essa arte morrer”, finaliza Josivan.
O documentário “A gente se ri” é o primeiro da série do projeto Vernáculo (próprio da região em que está), sobre a cultura popular do Rio Grande do Norte, promovido pela produtora Fotogramas Cultura e Mídia.
Serviço:
Lançamento do documentário “A gente se ri”, 8 de agosto, às 19h, no Teatro de Cultura Popular Chico Daniel da Fundação José Augusto. A entrada é franca.
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