CINEMA - Projeto expõe acervo lendário de filmes propulsores da indústria cinematográficaProduzir filmes no Rio Grande do Norte lembra a saga de Ranulpho, o brasileiro do filme “Cinema, aspirinas e urubus”, que ia de povoado em povoado, no meio do sertão, exibindo longas-metragens para quem nunca viu um filme, sequer, na vida. Nesse entretenimento das visões e sensações, o rapaz oferece um remédio milagroso que tem o “poder” de acabar com a fome e as dores das pessoas.
Pegando o fio dessa história, que ilustra o desejo de levar o cinema aos lugares mais difíceis de sua difusão, cinco entidades envolvidas com o audiovisual no Estado se uniram para levar ao sertão de cada olhar, discussões, oficinas, trocas e propostas para a evolução das produções cinematográficas locais. A união tem o nome de projeto Goiamum Audiovisual e ganhou força junto à Prefeitura de Natal, que vai patrocinar e inserir a proposta na mesma época da programação no Festival de Cinema de Natal, em outubro e no calendário do Natal em Natal. As entidades envolvidas são o Cineclube Natal, Ong ZooN Fotografia, ABDeC (Associação Brasileira dos Documentaristas e curtametragistas), ITEC (Instituto Técnico de Ensino Cinematográfico), ICAIC (Instituto Cubano de Arte e Industria Cinematográfica) e cineastas independentes, que estarão trazendo palestrantes, diretores, oficinas, mostras e exposições de várias partes do Brasil e de Cuba.
A programação é extensa e durante os quinze dias de festival acontecerá a oficina nacional de animação de São Paulo (da FAAP), exposição “Uma história em movimento” e “60 anos da Atlântida”, oficina de roteiro, mostra de longa-metragens cubanos, II Seminário de cinema, televisão e vídeo, Fórum Nordeste de audiovisual, oficina de som direto, mostra de curtas nacionais.
Segundo o presidente da ABDeC, Josenilton Tavares, o desejo de unir as entidades e ampliar as discussões sobre as produções cinematográficas é antigo, mas nunca conseguiam um impulso ou incentivo. “Sempre senti aqui no RN a necessidade da discussão de um conteúdo político, ideológico, que pudesse pensar estratégias para a produção audiovisual. Precisamos criar uma cena contínua de discussões com oficinas e mostras, para que as pessoas possam ter base para produzir cinema. Dentro desse anseio, o Goiamum é o fomento. É a discussão de propostas, porque falta aqui política pública para sustentar o desejo de fazer cinema”, avalia Josenilton Tavares. Segundo ele, a primeira edição do Goiamum será o primeiro passo para a abertura de portas da produção cinematográfica no Estado.
O nome do projeto foi escolhido em homenagem ao compositor Elino Julião, lembrando também a resistência dos crustáceos que estão sobrevivendo nos mangues hoje. “Escolhemos o Goiamum (conhecido também por guaiamum) por que é um símbolo do nosso litoral, fazendo referência a música de Elino. Mas também é uma forma de lembrar que essa espécie está em extinção, assim como estavam nossas discussões sobre o cinema”, disse.
Uma ponte com Cuba: filmes e ator Jorge Perugorría estarão na cidade
Cuba tem hoje uma das melhores escolas de cinema do mundo. Mesmo produzindo pouco por problemas financeiros restritos à organização do país, o Instituto Cubano de Arte e Industria Cinematográfica (ICAIC) é procurado por cineastas e produtores do mundo inteiro. Na ponte entre Natal e Cuba, o cineasta potiguar Geraldo Cavalcante, está terminando de gravar o filme “Mariposa Blanca” e nessa estada conquistou parcerias que estarão presentes no projeto Goiamum, como a do crítico de cinema Frank Padron, que falará sobre as experiências do cinema latino-americano e o ator Jorge Perugorría (de Morango e Chocolate, Navalha na Carne e Estorvo) que estará presente nas exibições e discussões sobre cinema. “Jorge Perugorría é hoje um dos ícones do cinema latino-americano, trabalhou com o diretor Carlos Saura (Carmem), fez filmes como Estorvo e Navalha na Carne e traz com ele uma experiência enorme de vida, tem muito para contribuir para todos nós. O Franklin é um presente para o RN”, conta Geraldo Cavalcante. Em seu olhar, a importância da edição do projeto Goiamum é intensa para o estímulo de futuras e atuais produções. “Nós estamos engatinhando na discussão do cinema, isso é algo novo que vai trazer uma série de conhecimento e estímulo. Lembro que há pouco tempo só eu e Buca Dantas tínhamos a coragem de dizer que somos cineastas e as pessoas riam da gente. Não temos cultura de cinema aqui e a questão é da sobrevivência, precisamos colocar o RN nessa rota com mais força e acredito que é apenas o início de uma estrada longa. Natal não tem escola de cinema e precisamos então caminhar no peito e na raça”, reflete.
Analisando a carência cinematográfica no RN, Geraldo lembra ainda que falta política pública e a elaboração de uma lei de incentivo para o cinema. “Sei que é um risco para os empresários apostarem no cinema para seus financiamentos, mas é necessário acreditar nessa transformação, que temos pessoas com desejo e coragem para produzir filmes e que a sétima arte é uma força social que tem muito a dizer”, finaliza Geraldo Carvalho. O Projeto Goiamum acontecerá em Outubro em diversos pontos, Fundação Capitania das Artes, o SESC e outras instituições.
Atlântida Cinematográfica
Além da oficina de animação, a FAAP (Fundação Armando Álvares Penteado -SP) traz para o projeto Goiamum parte do acervo iconográfico do cineasta José Carlos Burle, fundador da Atlântida Cinematográfica, que foi responsável pela produção de filmes lendários, propulsores da indústria cinematográfica no Brasil, desde 1941.
A exposição (foto maior), que saiu recentemente do Sesc Pompéia, em SP, possuiu 25 painéis fotográficos, um álbum com 200 fotografias do longa- metragem Terra Sem Deus, na ordem cronológica da montagem final, permitindo uma visão total e rápida do filme, 30 fotos 18x40 cm de Carlos Burle com a equipe, no período em que foi diretor da Atlântida, (únicas imagens remanescentes do incêndio que destruiu o estúdio em 1953), documentos diversos de registro de filmes, cartazes e roteiros originais com as correções que Burle efetuava durante as filmagens. Além da projeção de filmes, haverá palestras sobre o significado da Atlântida no âmbito do cinema brasileiro na década 40, lembrando da participação de Burle como compositor e letrista, crítico de música no Jornal do Brasil e fundador do Sindicato de Produtores. Em seu acervo, obras como Moleque Tião, Falta Alguém No Manicômio, Luz Dos Meus Olhos, É Com Esse Que Eu Vou, Também Somos Irmãos, Maior Que O Ódio, Carnaval Atlântida, O Cantor E O Milionário e Terra Sem Deus.
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