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No mundo encantado dos encourados

02/09/2007 - Tribuna do Norte

Lenine Pinto presenteou Pery Lamartine com o Encourados, um belo livro-álbum que faz um “inventário fotográfico, investigação sonora e registros escritos sobre o vaqueiro e a lida com o gado”. É uma publicação da B52 Desenvolvimento Cultural, do Recife. As fotografias são de Geyson Magno e os textos de Adriana Victor, projeto gráfico de Ricardo Gouveia de Melo e desenhos de Manoel Dantas Suassuna. Peguei uma carona no livro que me deliciou nestas últimas noites de agosto. O prefácio é do escritor Raimundo Carrero. Às folhas tantas ele diz que “O vaqueiro é uma manifestação de vida, mas também de estética. Uma coisa englobando a outra”. E é isso o que este belo trabalho mostra e ressalta: a estética do vaqueiro. A mesma estética já cantada por Euclides da Cunha. Na quarta capa,  gravadas no desenho de Dantas Suassuna, estão as palavras do escritor maior tiradas de Os Sertões, seu livro-monumento:

- O seu aspecto recorda, vagamente, à primeira vista, o de guerreiro antigo exausto da refrega. As vestes são uma armadura. Envolto no gibão de couro curtido, de bode ou de vaqueta; apertado no colete também de couro; calçando as perneiras, de couro curtido ainda, muito justas, cosidas às pernas e subindo até as virilhas, articulados em joelheiras de sola; e resguardados os pés e as mãos pelas luvas e guarda-pés de pele de veado - é como a forma grosseira de um campeador medieval desgarrado em nosso tempo.

- Essa armadura, porém, de um vermelho-pardo, como se fosse de bronze flexível, não tem cintilações, não rebrilha ferida pelo sol. É fosca e poenta. Envolve o combatente numa batalha sem vitórias...

Olheaí, gente, precisamos reler  Os Sertões, imediatamente. Que beleza! Que poesia!

Adriana Victor e Geyson Magno juntaram no seu Encourados outros textos de outros escritores e poetas: Ariano Suassuna, Rachel de Queiroz, Gerardo Mello Mourão, Ascenso Ferreira, Capistrano de Abreu, Guimarães Rosa, José Alencar e Lino-Azul, poeta-cordelista. Adriana escreveu no seu texto de abertura: “Este não pretende ser um livro de história - é um espaço criado e dedicado à fotografia; às imagens, seguir-se-ão as palavras”.

Adriana lista os escritores já aqui nominados. No seu rol faltou, porém, um dos maiores de todos esses sertões: Oswaldo Lamartine de Faria. Uma pena. Encourados teria ficado perfeito com a cumplicidade do nosso escritor que também não é citado na bibliografia juntada por Adriana e Geyson. Aqui aparecem Capistrano de Abreu, José de Alencar, Manoel Correia de Andrade, Euclides da Cunha, José Alípio Goulart, Alberto Passos Guimarães, padre Cláudio Melo, Mary del Pirore e Renato Venâncio Pinto, Gabriel Soares da Cruz Virgílio Maia, Ariano Suassuna e Luís da Câmara Cascudo. De Cascudo são citados três obras: “Contos Tradicionais do Brasil”, “Vaqueiros e Cantadores” e “Tradições Populares da Pecuária Nordestina”.

A omissão do nome de Oswaldo Lamartine me leva a uma constatação lamentável. O nosso grande escritor não foi tão lido como merece e precisa. E que seus livros, quase todos editados na província, ficaram restritos à atenção dos amigos daqui e a pouquíssimos estudiosos.

Se Adriana e Geyson tivessem lido Oswaldo, evidente que seus livros, como “Sertões do Seridó”, “Encourados e Arreios do Vaqueiro no Seridó”, “Ferro e Ribeiras do Rio Grande do Norte”, “Vocabulário do Criatório Norte-Rio-Grandense”, verdadeiros clássicos, teriam sido citados e, certamente, consultados. Mais: alguns textos de Oswaldo reproduzidos. Por exemplo: “Os homens que escrevem a História não se entendem ainda quanto à data exata em que o gado principiou a fazer rastro nos chãos das terras da banda de cá do mar (...) É de se imaginar que tão cedo o colonizador assentou as estacas dos primeiros currais na caatinga seridoense, ainda no século XVII, começou a se valer do couro para as mais diferentes necessidades do seu mundo, tal qual registra Capistrano de Abreu”

E Oswaldo se socorre de Moisés Sesiom, poeta e repentista seridoense consagrado no Assu, para rimar o que o historiador da “civilização do couro” ensinou nos seus livros eruditos, pegando o mote: “Dá sapato e dá gibão / toda obra o couro dá.”

Glosado assim por Sesiom: “Dá manta, bota e silhão, / Dá chapéu, dá bandoleira, / Dá carona e dá perneira, / Dá sapato e dá gibão. / Pra se fazer matulão / O couro é como não há, / Serve até pra caçuá, / Dá peia, da rabichola, / Se prendendo a couro ou sola, / Toda obra o couro dá...”

Em matéria da arte de trabalhar o couro, o livro de Oswaldo Lamartine é uma verdadeira bíblia. De tudo que o couro dá e que se transforma em  arte, sim, nas mãos dos seleiros e artesãos, está no livro de Oswaldo, descrito em   detalhes, inclusive os bordados, os pontos das peças. Mais: com desenhos feitos pelo próprio escritor Lá estão as selas, chapéus, luvas gibão, perneira, sapato, guarda, guarda-peito ou colete, capa do coxim, cabeçadas, cabrestos, rabichos,  laços, peias. Tudo o que o couro dá. E Oswaldo ainda acrescenta:

- Quando o vaqueiro primeiro se internou nos matos desses brasis, para apascentar alguma rês daquele gado trazido ainda do além-mar, é bem factível ter vestido couros. E se não o fez, sentiu a precisão de com eles se proteger...

O poeta cearense Virgilio Maia está na bibliografia anotada pelos autores de Encourados. O seu livro “Rudes Brasões - Ferro e Fogo das Marcas Avoentas”, foi um dos consultados por Adriana e Geyson. Ora, o livro de Virgilio começa com uma carta de Oswaldo Lamartine de Faria, e que é citado várias vezes em suas páginas, e também no prefácio de Carlos Newton Junior. Ariano Suassuna e Oswaldo Lamartine, foram, exatamente, as primeiras fontes das pesquisas de Virgílio Maia.

Pena que os autores pernambucanos não tenham procurado pelas trilhas que percorreram, de Capistrano de Abreu a Euclides da Cunha, de Ascenso Ferreira a Ariano Suassuna, de Guimarães a Gerardo Mello Mourão, de Rachel de Queiroz a Lino - Pedra Azul, o revezo sagrado onde se guarda a sabedoria de Oswaldo. O Encourados teria ficado completo e mais belo. Como também se nele teve sido incluído o poema de Virgílio Maia, “Encouramento”:

“Enfeitei meu chapéu com diamantes, / pingos d’água catados na ribeira, / que uma chuva miúda e benfazeja / borrifou no meu chão, por uns instantes. / Figurei-me um herói, desses errantes, / um Quixote de luz, no pensamento: / barbicacho no queixo, barba ao vento, / coração espremido ao guarda-peito / e as fornidas perneiras tinham jeito / das de rija armadura de outros tempos. // As cantigas candentes do passado / declamei da maneira que queria; / rastejei noite e dia sobra a pista / e os nitridos fogosos de um cavalo. / Tudo ali parecia envolto no halo / do indiviso silêncio onde se lia / o romance da lua que subia / sertaneja aclamando minha veste, / cobiçando, tão bela, tão celeste, / meu gibão de beleza e fidalguia.”

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