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A bomba que explode no corpo

Marcelo BarrosoPERIGO - Jovens utilizam óleo de cozinha para ganhar músculos
25/11/2007 - Tribuna do Norte

Michele Ferret - Repórter

Contra a anatomia natural do corpo, os anabolizantes causam uma falsa idéia de um músculo avantajado. Essa fantasia pode durar algumas semanas, dias ou até mesmo apenas o momento da aplicação levando a pessoa à morte.

Um dos casos de morte por uso de anabolizantes mais recente no Estado é o do adolescente Maykon Diego, 17 anos. Em busca de um corpo que pudesse garantir o emprego de segurança, o menino franzino aprendeu a injetar óleo de cozinha nos músculos de seus vizinhos que moram no Panatis na Zona Norte, uma prática considerada “habitual” entre eles.

 Sabendo do erro do filho, Shirlane Soares mandou o menino ir morar com a tia em Mossoró no mês de julho. Três meses depois quando Shirlene chegou em casa recebeu a notícia de que o menino teria aplicado óleo de cozinha no corpo e como conseqüência aconteceu uma parada cardíaca.

Conhecidos como bombas, os anabolizantes auxiliam no crescimento das células musculares do corpo humano, definindo os bíceps, abdômen, braços, pernas e tudo o que a pessoa desejar e agüentar.

Nessa busca desenfreada para enxergar-se no espelho de Narciso, muitos jovens perdem o senso e começam a experimentar novos métodos em seus próprios corpos. Óleo de cozinha é uma das substâncias que são injetadas e o caminho final pode ser a necrose do tecido, amputação ou até  a morte.

Substâncias como ADE, SYNTOL, ESCICLENE HEMOGENIM, DECA, DURATESTON, EQUIFORT, óleo de cozinha e silicone para limpar carros, são muito utilizadas.

Segundo Edson Gutemberg,  psiquiatra e coordenador da comissão antidoping da CBF no RN essas substâncias causam a falsa hipertrofia, que é o grande volume dos membros, lesões, infecções e transmissões de doenças. “Além disso pode ocorrer a formação de trombo êmbolos que são as embolias e levam à morte”, explica o médico. Além disso, quando não acontece necrose ou embolia, o usuário pode desenvolver rapidamente um câncer.

Um dos métodos mais utilizados pelos jovens é o chamado ADE, um conjunto de substâncias que é usado para os bovinos e eqüinos para suprir a deficiência de vitaminas no corpo. Como um combustível os jovens fazem um coquetel de substâncias e injetam nos músculos .

Segundo o médico Edson Gutemberg essa injeção de óleos vegetais remonta a uma prática dos anos 60, quando uma primeira droga chamada “Esciclene”, que basicamente é um composto à base de triglicênicos, que são gorduras, óleos e inicialmente era utilizado com a finalidade de aumentar a massa muscular. Como a injeção da substância era muito dolorosa, surgiram outros compostos que foram sendo descobertos como o Synthol e ADE, muito utilizados hoje. “Esse anabolizante Synthol é um composto de vitaminas unidos com esteróides, que são utilizados pelos veterinários para suínos, bovinos e cavalos e é aplicado de forma localizada”, diz o médico.

De acordo com o médico, uma pessoa que vai para a academia consegue a hipertrofia com exercícios por um longo prazo, mas como a maioria deseja um resultado rápido, a aplicação do óleo na massa muscular termina sendo freqüente”

Quando acontece a injeção de óleo no corpo, a substância abre as fibras musculares e termina rompendo as veias, dilatando o músculo. “Quando ele injeta o óleo, as fibras abrem e dão uma falsa impressão de hipertrofia muscular, mas não é hipertrofia, porque ela é feita somente com exercícios quando retrai e contrai os músculos, isso vêm com exercícios regulares. Essa injeção de óleo é a expansão da fibra”, conta o médico.

Pelo óleo ser uma substância estranha, o corpo envia anticorpos para rejeitá-lo e isso traz uma reação inflamatória, necrose e até amputação dos membros. “Já ouvi relatos de gente que injetou óleo nas duas batatas, ou panturrilhas nas pernas e deu necrose nas duas, perdendo os membros. O que se espera, normalmente, é que se crie um cisto no local, mas quando o volume de óleo injetado é grande não cria esse cisto e leva à inflamação para outras partes do corpo. Geralmente é o próprio atleta que aplica e acaba injetando numa veia ou artéria e tem morte imediata por uma embolia pulmonar, trombose”.

Rapaz aplica óleo de cozinha e morre

Com pouca escolaridade Maykon Diego Medeiros, 17 anos, sonhava em ser segurança particular. Franzino, Diego foi incentivado pelos amigos da rua a injetar óleo de cozinha no corpo dos outros ajudando-os a ficar mais forte na tentativa de conseguir o emprego que prometia R$ 15 reais por semana e também um corpo perfeito. Sua mãe, Shirlane Soares percebeu que o filho fazia a prática com freqüência, mas ele negava injetar no próprio corpo.

Preocupada com o futuro do filho, no mês de junho desse ano, enviou o menino para Mossoró para viver com a tia e afastá-lo definitivamente dos amigos que o influenciavam. Quatro meses depois, no dia 06 de outubro, quando Shirlane chegou do trabalho teve a notícia que o filho havia sido internado. No laudo do Instituto Médico Legal, 200 ml de óleo de cozinha foram injetados na veia coronária causando no mesmo instante da injeção, uma parada cardíaca, paralisação total do cérebro e dos rins. “Esse era meu maior medo, que ele se aplicasse e morresse. Espero que sirva de exemplo para os outros rapazes, porque isso está ocorrendo todos os dias aqui na vizinhança”, disse a mãe de Diego.

O médico Edson Gutemberg disse que a injeção de óleo em uma veia vital é morte na certa. 

Os vizinhos que incentivaram Diego a utilizar o óleo de cozinha continuam aplicando como se nada tivesse acontecido. Mesmo abalados com a morte do amigo, o “hábito” continua.

Fátima Bonifácio, mãe de Ramon, 20 e Raniê Bonifácio, 19 anos disse que os filhos utilizam o óleo há muito anos. “O Ramon aplica desde os 14 anos e eu nunca consegui fazer ele parar”. No ano passado, dona Fátima chegou do trabalho à noite e encontrou o filho desmaiado com um abcesso no braço e muito sangue pela casa. “Esse dia eu entrei em pânico. Ainda bem que ele escapou mas ganhou um buraco embaixo do braço e carrega a cicatriz até hoje”.

Ainda de acordo com a mãe, os filhos relatam que os professores da academia de Jiu Jitsu incentivam o uso de óleo. “Já ouvi ele falar isso aqui em casa, se é verdade eu não sei. Mas eles devem ter exemplos né?”.

Conselho é contra o uso de anabolizantes

Para a vice-presidente do Conselho Regional de Educação Física, Elizabeth Jatobá, dentro dessa perspectiva o objetivo é fiscalizar as academias. Mais de 400 estão cadastradas na COVISA e a gente já fez várias ações. Houve, inclusive, uma audiência pública com o MP para dar um prazo para adequação e atendimento às normas do conselho. É preciso ter profissionais de nível superior, todos cadastrados para poder exercer a profissão.

A estimativa é de que existam mais de 300 profissionais sem ter o registro. Além do profissional a própria academia precisa ser registrada também no conselho. “A gente tem pouquíssimas em Natal cadastradas no conselho. Profissionais são 1.300. Cabe à população e aos pais denunciarem. Quando vai chegando perto do verão, o jovem às vezes por desinfomação apelam para atingir uma perfomance estética mais rápida e os riscos são muitos”, disse Elizabeth Jatobá.

A vice-presidente acrescenta: “o que a gente precisa é de uma denúncia. A gente faz a fiscalização mas as pessoas não querem. A gente precisa fiscalizar. Numa academia das Rocas o profissional foi preso utilizando diploma falso.

“Essa prática está disseminada”

O senhor tem registro de quando os jovens começaram a utilizar os anabolizantes, em qual época?
Essa questão do uso de óleo vegetal remonta aos anos 60, quando uma primeira droga chamada “Esciclene”, feita à base de triglicênicos, (óleo à base de gordura) era utilizada com a intenção de aumentar a massa muscular. Como esse método era muito doloroso, surgiram outros compostos que foram sendo descobertos pelos atletas e usuários como o Synthol, que consiste numa aplicação menos dolorosa. A partir daí, a procura por essas drogas cresceu e hoje uma droga muito utilizada e perigosa para a saúde é o ADE. Um composto de vitaminas A, D e E recomendado para tratar carências de vitaminas e infecções em bovinos, equinos, ovinos, suínos, caprinos e coelhos. Há claras recomendações para não utilizar em cães e gatos.


Os anabolizantes são métodos que causam uma falsa hipertrofia além ser maléfico à saúde. Qual é a melhor maneira de conseguir músculos avantajados?
Uma pessoa que vai para a academia consegue a hipertrofia através de exercícios regulares, mas a maioria não consegue por não ter disciplina e paciência e terminam aplicando óleo na massa muscular. E quando isso acontece, o óleo abre e rompe as fibras musculares possibilitando a dilatação do músculo e dos tecidos. Quando ele injeta o óleo as fibras se afastam e outras até se rompem e isso dá uma falsa impressão de hipertrofia muscular, mas não é hipertrofia, porque ela é feita somente com exercícios regulares.


Quais as reações do corpo quando o óleo, que é uma substância estranha é injetada?
O óleo é uma substância estranha ao corpo, então o organismo  envia anticorpos e isso traz uma reação inflamatória, podendo haver necrose que pode levar até a amputação dos membros. O que se espera nessa reação do organismo é que se crie um cisto no local, mas quando o volume de óleo injetado é grande não consegue nem criar esse cisto e leva a inflamação para outras partes do corpo. Além disso, quando acontece a aplicação a pessoa fica com tontura, dor de cabeça, febre, enjôo, irritabilidade, entre outros efeitos colaterais. Acontece muito dos atletas esquentarem o óleo para a injeção e isso causa uma petrificação no local devido à temperatura.


O menino Diego que injetou óleo de cozinha na veia teve morte instantânea. O que  pode ter acontecido com ele?
Como a área muscular é cheia de vasos sangüíneos e geralmente a pessoa que aplica não tem noção anatômica, ele deve ter injetado o óleo numa veia ou artéria e teve morte imediata. Isso acontece porque as veias entopem e ocorre uma embolia pulmonar ou trombose, causando parada cardíaca, cerebral, rins e em diferentes órgãos do corpo humano. Infelizmente essa prática está disseminada nas academias e os jovens têm informações que alguém usou e deu “certo” e se aventuram.


Quais são os riscos que os atletas correm com a injeção dos óleos anabolizantes?
O primeiro é a falsa hipertrofia, depois vêm a reação do corpo. Quando são injetados grandes volumes de óleo ele cria a possibilidade de criar lesões e infecções generalizadas. Acontece muito do organismo não criar o cisto no local e levar o membro à necrose, que é a morte dos tecidos. É um risco tremendo. Além desses problemas relatados, os jovens não têm noção de assepsia e terminam pegando infecções com as agulhas. Uns aplicam no outro e isso acarreta um monte de doenças infecciosas. Fora tudo isso, os jovens ficam tontos, irritados, com náuseas, febre e com a saúde desgastada. O jovem não tem noção do risco que está correndo. É a própria vida que está em jogo. As academias precisam estar atentas para esse perigo. Os professores devem orientar seus atletas para um melhor desenvolvimento.


O senhor conhece casos de pessoas que fazem uso dessas substâncias?
Conheço alguns casos de jovens que utilizaram essas substâncias para animais e percebi que eles ficam com seqüelas graves como a disfunção erétil, paralisação dos rins, entre outras conseqüências. Lembro que em 2004 foram noticiados no Brasil todo oito mortes devido ao uso desses anabolizantes.



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