EMPREENDORISMO - Juliano Caetano viu seu faturamento subir 50% depois de entrar na incubadoraMelhorias para a criação de caprinos, novos sistemas para difusão de informações turísticas, um site de comércio eletrônico diferenciado. Idéias como essas poderiam se perder entre as dificuldades comumente encontradas por quem abre uma empresa, como pouco conhecimento da área empresarial, falta de capital inicial e de experiência na busca de compradores. Mas, com a ajuda das incubadoras, essas e outras iniciativas estão se desenvolvendo no Rio Grande do Norte, embora a cultura política e empresarial do estado ainda imponha barreiras ao crescimento desse segmento.
Há um ano e meio, o designer Juliano Caetano deixou o mundo das agências publicitárias para virar empresário. “Queria unir design e boas idéias em uma mídia diferente”, diz ele ao explicar o que o fez partir para as camisetas estampadas. No fim de 2006, ele montou sua base em casa e deu início às vendas por atacado, fazendo parceria com o site Linux Mall e outras lojas, especialmente do Sul e do Sudeste. Há cinco meses, porém, descobriu no Núcleo de Incubação Tecnológica (NIT), do Cefet RN, uma boa oportunidade para dar o próximo passo. Desde então, aumentou seu faturamento em 50%, porque pôde implementar seu projeto de vendas avulsas pelo site. Em seus planos, ele aposta na mistura de ideologia, design e qualidade do produto para enfrentar concorrentes maiores - um deles, a paulista Banca de Camisetas, já tem até representação em Natal. Nos planos da Red Bug, a marca de Juliano, o contra-ataque está na implantação de lojas físicas em Natal e nas capitais onde há maiores mercados, como São Paulo.
Ele diz que um dos benefícios mais diretos é na área financeira, já que uma taxa amigável que não chega a R$ 200 cobre os custos de aluguel, luz, telefone e internet. Além disso, evita custos com segurança, tendo em vista que o escritório fica dentro do Cefet. Mas, para ele, o ponto mais importante é o suporte de conhecimento. Os incubados têm acesso a treinamentos e são sempre abastecidos de notícias e oportunidades de negócio.
“Como muitos empreendedores não têm todas as informações que necessitam ao iniciarem suas atividades e encontram dificuldades para se inserirem no mercado, atraírem investidores, fornecedores e consumidores, a função destas incubadoras é preparar as empresas que nascem e precisam de ajuda na medida certa para se fortificarem e sobreviverem sozinhas”, explica a consultora Karla Motta. Segundo ela, com este apoio foi verificada a redução da alta taxa de fracasso de empresas. “Segundo dados do Sebrae, empresas que passam pelo processo de incubação apresentam uma taxa de mortalidade nos três primeiros anos de 7% contra a de 59% registrada nos negócios em geral”, assegura.
A Red Bug é uma das 10 empresas que estão atualmente no NIT, a incubadora mais antiga do estado, criada em 1998 e que já “pôs no mundo” 13 empresas. Além do NIT, outras quatro atuam no RN, nas áreas de ovinocaprinocultura (Ineagro), apicultura (Iagram), bordados (Inbordados), tecnologia (NIT) e apoio social (Incoop). Segundo Karla Motta, atualmente elas dão suporte a 32 empresas que se encontram em diversos estágios de desenvolvimento.
“A capacitação que as incubadoras promovem é feita com foco no mercado”, explica o gerente da Unidade de Educação e Tecnologia do Sebrae RN, Bosco Freire – a entidade é outra referência nessa área. Ele explica que as empresas candidatas à incubação precisam de um plano de negócios que demonstre a viabilidade do projeto. Segundo Bosco, em geral, as empresas inclusas neste sistema são pequenas e recém-criadas, passando entre dois e cinco anos incubadas, de acordo com a atividade. Mas o coordenador do NIT e da Rede Potiguar de Incubadoras e Parques Tecnológicos (Repin), Jerônimo Santos, lembra que, embora as empresas novatas sejam mais comuns, a incubação também pode ser uma alternativa para empresas já existentes que queiram implementar uma boa idéia para novos produtos ou serviços. “Empresas já estruturadas no mercado podem criar uma nova empresa e entrar em uma incubadora, em vez que criar um novo departamento”, esclarece Jerônimo.
Bordadeiras se unem na Inbordados
Recém-criada em Caicó com a ajuda do Sebrae e em parceria com Faculdade Católica Santa Terezinha (FCST), a Incubadora de Bordados do Seridó (Inbordados) já tem uma prioridade: encaminhar ao governo federal o pedido de identificação geográfica, uma espécie de patente para os bordados. Ao lado de inovações como esta, também está a meta de unir e capacitar as bordadeiras, cuja arte já provou ser um produto especial do Rio Grande do Norte.
Para preservar essa herança, diversas associações já aderiram à Inbordados. “Elas são artistas e não gestoras”, define o gerente Operacional da Incubadora, Rafael Medeiros. Ele explica que, apesar de terem aprendido muito com a atuação em grupo, ainda são prejudicadas por clientes que fazem encomenda e não pagam ou por quem barganha o preço das peças sem entender o valor do trabalho, por exemplo.
“Às vezes, você puxa uma linha e o bordado se desfaz. Isso não acontece com o nosso trabalho e por isso merecia ser mais valorizado”, diz inconformada a presidente da Associação das Bordadeiras de Timbaúba dos Batistas, Salmira de Araújo Torres Clemente, que sonha com constância nos pedidos. “A coesão é muito importante. As associações vão discutir seus problemas em comum e podemos pensar em novas formas de agregar ainda mais valor ao nosso trabalho”, completa Salmira.
A Inbordados faz parte de um conjunto de ações estratégicas para consolidar o Arranjo Produtivo Local de Bordados do Seridó e atende a 17 municípios da região. (Com informações da Agência Sebrae de Notícias).
Inovação de incubadas pode ter incentivo
Os sócios Wilson Lima e Sérgio Varella estavam de mudança para o NIT há alguns dias. Na verdade, para eles, este mês deve ficar marcado como dos mais importantes na história da empresa até agora: além de conseguirem a aceitação na incubadora depois de duas tentativas frustadas, eles foram aprovados também no Inova, através do qual receberam R$ 99,9 mil não-reembolsáveis (eles não terão que pagar esse valor de volta à Fundação de Apoio à Pesquisa do RN, a Fapern).
O dinheiro será investido em projetos de inovação tecnológica dentro do negócio. “Há um certo desconhecimento das linhas de financiamento disponíveis à inovação e, assim como as incubadoras, elas são muito boas para quem tem uma idéia para desenvolver para o mercado”, diz Sérgio.
Os dois sócios – jovens formados em engenharia da computação e comércio exterior – estão dedicados à Turismo Rápido, um guia multimídia da cidade, cuja a idéia começou a ser montada em 2006. Em janeiro do ano passado que eles venderam os primeiros anúncios. Depois de manter o negócio em casa por um tempo e passar por uma sala emprestada por um parente, agora eles têm lugar no NIT. Além das capacitações e contatos comerciais,, com o ponto físico eles poderão contratar funcionários e prospectar novos mercados.
A Turismo Rápido tem atualmente 15 terminais espalhados na cidade, com planos de chegar a 20 até o fim do próximo mês. Além dos terminais, a empresa também desenvolve sistemas específicos para auto-atendimento.
Estado e empresas precisam apostar mais
Coordenador da Rede Potiguar de Incubadoras e Parques Tecnológicos (Repin) - entidade criada no ano passado com intuito de organizar e desenvolver os dois segmentos no estado –, Jerônimo Santos diz que o RN ainda tem muito o que avançar no estímulo ao empreendedorismo e ao desenvolvimento econômico através das incubadoras.
As dificuldades começam no ambiente acadêmico. Embora as incubadoras de empresas sejam vistas também como um meio de levar ao mercado as novas idéias e tendências tecnológicas geradas pela pesquisa científica, no RN nenhuma universidade mantém incubadoras.
No caso dos Parques Tecnológicos, que são como condomínios de empresas de tecnologia, o terreno é mais árido. Não existe esse tipo de projeto no RN, embora vizinhos como a Paraíba e Pernambuco já estejam atuando nessa área. Questionado porque o RN está atrasado em relação à Paraíba - tanto nas incubadoras quanto nos parques -, Jerônimo diz que os paraibanos conseguiram reduzir o impacto das divergências políticas sobre o desenvolvimento do estado, tanto econômico quanto cultural. “A classe política precisa entender que essas questões estão acima de quaisquer partidos, e que evoluir nelas é uma necessidade do povo potiguar”.
Outra barreira externa que represa o setor é a inexistência de linhas de crédito, como capital de giro e compra de equipamento, específicas para empresas incubadas. “Os bancos não aceitam o plano de negócios, mesmo que viável, e exigem garantias reais que elas não podem dar”, reclama.
Um dos papéis das incubadoras é fazer a intermediação com investidores. Jerônimo diz que uma das metas é que o grupo formado pelo RN, Alagoas e Paraíba tenha 18 empresas incubadas, entre as quais menos uma, a cada dois anos, tenha um produto participando do Fórum de Venture Capital (capital de risco) promovido pela Finep, cuja próxima edição será em 2009. Ele lamenta que ainda haja falta de interesse de grandes empresas e investidores locais pela produção das incubadoras. “Até agora nunca recebemos manifestações de gente daqui, só de fora”, revela, “falta conhecimento do nosso potencial para boas e viáveis idéias”.
Mas a experiência do NIT também mostra que são necessários aprimoramentos internos. Não se sabe, por exemplo, das empresas que passaram pelo NIT, quais ainda estão vivas ou qual o faturamento total das incubadas - o próprio NIT ainda esbarra em falta de transparência por parte de algumas incubadas.