Para o ministro da Aviação, Wagner Bittencourt, o desenvolvimento do Aeroporto de São Gonçalo do Amarante depende de uma estratégia privada de expansão. No que diz respeito à estratégia do Governo Federal, Bittencourt afirma, em entrevista concedida por e-mail, que "o aeroporto precisa atender a demanda, essa é a obrigação. Isso ficou definido na modelagem do edital. É preciso atender não somente a demanda da região, mas manter um serviço de qualidade adequado. O crescimento vai depender do plano de negócio do concessionário e só vamos saber qual será o caminho quando ele começar a desenvolver esse plano", analisa. Contudo, o ministro admite a possibilidade de formação de um centro de cargas, sempre na dependência da estratégia do Consórcio Inframérica. "Eventualmente, pode ser um hub de entrada no país. Tudo vai depender do plano de negócios dos investidores", analisa. Além disso, Wagner Bittencourt abordou os investimentos em aeroportos para a Copa do Mundo, as concessões à iniciativa privada, que devem continuar para além do que já foi anunciado, as dificuldades com a gestão pública de aeroportos, entre outros assuntos.
Alex Régis
Wagner Bittencourt, ministro da Aviação civil
Há um temor sobre a reforma dos aeroportos para a Copa do Mundo. O Governo Federal cumprirá o prazo?Nós tivemos um balanço do PAC 2. Na nossa avaliação, pelo planejamento que nós temos em relação ao prazo das obras, todos os aeroportos estarão com os investimentos aplicados e concluídos para a Copa do Mundo até 31 de dezembro de 2013. Teremos tempo para atender à demanda. Os investimentos estão caminhando de acordo com o previsto e com certeza teremos todos os aeroportos prontos em tempo hábil.
A maioria dos aeroportos no Brasil opera no vermelho. Por que isso acontece? Há perigo de o Aeroporto de São Gonçalo seguir o mesmo caminho? Primeiro lugar, o Aeroporto de São Gonçalo do Amarante tem um novo conceito. Os investidores que fizeram o arremate têm um estudo aprofundado das possibilidades de negócio ali. Com certeza, eles têm um plano de negócios, senão não iriam investir os seus recursos num aeroporto que não desse resultado. Então, não há perigo do Aeroporto de São Gonçalo seguir o mesmo caminho.
A Infraero é um órgão do governo e opera aeroportos "superavitários", que dão lucro, mas também por um dever de ofício, já que moramos num país continental, com aeroportos no interior cuja dimensão não têm uma estrutura de demanda que possa torná-los sustentáveis, ela tem que administrar esses equipamentos também. Não podemos simplesmente deixar de atender essas regiões. Não é uma questão do poder público ou de ser privado, mas pela característica dos aeroportos. Alguns dão lucro e outros não, pela sua estrutura, dimensão e localização. Esses têm uma sustentabilidade mais complicada.
Além do já divulgado, outros aeroportos irão ser concedidos à iniciativa privada?O Governo Federal tem um planejamento de longo prazo que prevê projetos para 30 anos no país. Estamos discutindo nessa modelagem não só os aeroportos que deverão ser expandidos ou construídos, como também a questão de um plano de outorgas. Esse planejamento de longo prazo prevê a construção e reforma de aeroportos. Mas há uma pergunta que se faz: quais aeroportos que são estratégicos para ficar com o Governo Federal? Estamos discutindo isso e no começo do ano definiremos quais aeroportos vão ficar com a Infraero e quais serão concedidos. Essa concessão poderá ser feita para o setor privado ou para Estados e Municípios.
Não há a intenção de colocar todos em regime de concessão com o setor privado?Não existe nada contra o poder público. Pelo contrário. A Infraero administra bem vários aeroportos. O que acontece é que o setor está crescendo muito e nós vamos precisar de mais recursos e investidores. Só assim teremos os investimentos necessários. Por isso, esse modelo de concessão que já corre em outros setores da economia, como energia, rodovias e ferrovias. Já existe concessão em todos esses setores, que são setores que precisam de um capital e é necessário a atuação do setor privado.
As características da gestão pública dificultam ou inviabilizam a operação de aeroportos?Não é que dificulte, mas o crescimento é tão grande que nós vamos precisar de mais recursos, mais investimentos e participação do setor privado. É uma questão de velocidade de crescimento. A demanda cresceu na ordem de 20% nos últimos dois anos. É um crescimento muito grande.
Que outros investimentos em aeroportos estão previstos para os próximos anos?A Infraero tem uma carteira de investimento no seus aeroportos até 2013 na ordem de R$ 7,5 bilhões. São investimentos significativos que farão com que esses aeroportos mudem de patamar. Todos os aeroportos de capitais irão receber investimentos. Além disso, há um programa de aviação regional, discutido no Governo Federal para ficar pronto no primeiro semestre do próximo ano, que visa atender os aeroportos no interior do país. Existem 130 aeroportos no interior, com vôos regulares. Nossa estratégia é aumentar esse número para atender outras regiões e melhorar o atendimento nas que já existem. Para isso, estamos discutindo com as empresas e os governos nos estados.
Sobre o Aeroporto de São Gonçalo do Amarante em si, o porte apontado no edital é médio. O Governo acredita que ele pode se transformar em um grande aeroporto de cargas, como foi anunciado?Isso vai depender do desenvolvimento do negócio. Já que o aeroporto terá uma administração privada, vai depender desse desenvolvimento. Claro que a região é privilegiada, do ponto de vista de localização e logística. Está muito próxima do hemisfério norte, o que é uma vantagem tanto do ponto de vista de pessoas quanto de cargas. Eventualmente, pode ser um hub de entrada no país. Tudo vai depender do plano de negócios dos investidores. Claro que eles têm todo o interesse e pagaram um ágio de 228% para operar o aeroporto.
Mas o Governo espera que atinja algum patamar?Ele precisa atender a demanda, essa é a obrigação. Isso ficou definido na modelagem do edital. É preciso atender não somente a demanda da região, mas manter um serviço de qualidade adequada. O crescimento vai depender do plano de negócio do concessionário e só vamos saber qual será o caminho quando ele começar a desenvolver esse plano. De qualquer forma, é um aeroporto importante para a região Nordeste e para o Brasil.
Qual a estratégia para dar ao aeroporto o peso anunciado?A estratégia de desenvolvimento é privada. Eles têm uma obrigação mínima de construir o terminal de passageiros e vão querer fazer isso o mais rápido possível, até por uma questão comercial mesmo.
O Governo do Estado pleiteia a não desativação do Aeroporto Augusto Severo. Há possibilidade de mantê-lo operando na aviação civil?O que está previsto é a desativação, como está no edital. Mas o Governo continua investindo no Aeroporto Augusto Severo pra que ele seja modernizado. A Infraero continua investindo nele para na Copa haver a operação dos dois e o Augusto Severo precisa estar modernizado para isso.
O que acontecerá com o terminal de passageiros do Aeroporto Augusto Severo?O terminal continuará a existir e o aeroporto pode ser misto, com a parte civil e militar. Mas isso precisa ser analisado.