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A dor da convivência

Giulia Mitre
Professora e voluntária da Nova Acrópole

A cada dia que passa fica ainda mais evidente para mim que, uma das maiores dores humanas – se não for a maior de todas – é a dor da convivência. Sabemos bem como é isso: opiniões que divergem, percepções diferentes da mesma realidade, formas distintas de agir e fazer as coisas. Das coisas mais banais como “café coado ou expresso” até experiências mais complexas, do tipo “será que posso ser diferente sem magoar?”. O Tempo todo lutamos conosco e com os outros na dualidade entre egoísmo e diplomacia, entre fazer o que se quer e saber quando “abrir mão” em nome do outro. Uma canseira só! Mas será possível conviver sem tanto drama e sofrimento, estando em paz com nós mesmos e com os outros?
Para saber isso é essencial descobrirmos quem somos, essa “essência” que nos caracteriza como indivíduos singulares, do qual não podemos abdicar (no risco de nos perdermos), e descobrir também a parte em nós que é mutável e moldável às circunstâncias da vida. Aquele que se identifica com suas opiniões sofrerá ao ver que o outro pensa diferente. O que se identifica com as próprias emoções, estará sempre escravo dos seus estados psíquicos, da flutuabilidade natural que ocorre ao longo de um dia, de um mês, de uma vida inteira. Em um mundo eternamente em mudança e transformação, em que cada ser humano é um universo e está o tempo todo entrando em contato com o nosso próprio universo, será extremamente difícil encontrar um ponto de união, uma troca de ricas experiências iluminada pela luz da bondade, sem julgamentos.
Mais do que atender aos impulsos reativos de nossa personalidade, impulsos estes que estão o tempo todo reagindo ao que acontece no mundo exterior, deveríamos olhar para dentro, percebendo que todos temos uma voz baixa, porém constante, de sabedoria. Ali reside uma identidade comum, afinal somos todos seres humanos, com virtudes e defeitos. Conhecer nossa alma, nosso centro imutável e mais real, é a chave para conhecer os outros a partir de uma visão interior. Quanto mais conheço minhas virtudes, mais reconheço fora, nos demais. Entender o próprio coração é a chave para acessar e conhecer o coração de toda a humanidade.
Certa vez ouvi um conto oriental que nunca esqueci. A história falava dos deuses que criaram todas as coisas e a humanidade. Vendo que os seres humanos eram muito inteligentes e se vangloriavam de conhecer os deuses perante os outros animais, resolveram se afastar para diminuir sua vaidade. Assim, bolaram um plano de se esconder inicialmente no fundo do mar, mas viram que com o intelecto a humanidade rapidamente construiria máquinas de mergulho. Pensaram em ir para o espaço, mas logo chegaram a mesma conclusão. Por fim, decidiram ir para o último lugar que os humanos procurariam, ou seja, o coração.
Hoje fazemos exatamente assim: procuramos fora pelos “deuses” da felicidade, do amor e da alegria, queremos que os outros e as coisas nos realizem, nos deem tudo o que confere sentido à vida, mas é algo impossível. Somente dentro de nós podemos encontrar o que buscamos: nossa real identidade. Quando olharmos dentro, quando reconhecermos e aceitarmos quem somos, naturalmente a compaixão brotará em nós, saberemos lidar com o outro porque antes lidamos conosco. Afinal, como é possível conhecer realmente qualquer coisa se não conhecemos a nós mesmos? Por isso a máxima de Delfos, na antiga Grécia: “Conhece-te a ti mesmo, e conhecerás os deuses e o universo”. Somente assim teremos capacidade de entender e conviver com os demais, sem carências ou julgamentos, unindo-dos por dentro. Pelo que levamos no coração.

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