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A ética da alteridade e o sentido da vida além do Eu

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Dom João Santos Cardoso
Arcebispo Metropolitano de Natal

A busca pelo sentido da vida é uma questão filosófica de difícil alcance. Essa resposta, profundamente pessoal, emerge de vivências únicas que redefinem e reorientam a existência de quem as experimenta. Experiências transformadoras têm o poder de desencadear uma reconfiguração completa da vida de alguém. Geralmente, tais experiências decisivas são de natureza místico-religiosa. No entanto, é possível encontrar razões para viver e atribuir significado ao vazio existencial por meio de uma experiência ética. Nesse ponto, a filosofia da alteridade de Lévinas se torna relevante, oferecendo uma resposta iluminadora à questão do sentido da vida.
A filosofia da alteridade de Lévinas destaca a ética como o caminho para a solução da questão do sentido da vida. Ela nos leva a sair do isolamento do ser, abrindo-nos para o outro e tornando-nos responsáveis por ele, independentemente de sua reciprocidade. Com base nessa filosofia, o caminho para encontrar sentido na vida não está na especulação teórica, mas na prática ética de nos relacionarmos com o outro.


Para Lévinas, a ética é a base fundamental da filosofia, transcendendo até mesmo a ontologia. A ética é a categoria primeira, aquela a partir da qual os outros ramos da filosofia adquirem sentido. É na relação com o outro que todo sentido irrompe. Ao nos abrirmos para o outro, tornamo-nos responsáveis por ele, independentemente de qualquer reciprocidade. Diante do rosto do Outro, o sujeito se descobre responsável e lhe vem à ideia o Infinito.


A crítica de Lévinas à Ontologia, como categoria primeira, denuncia a postura violenta e totalizante do discurso filosófico Ocidental. Esse, prisioneiro da categoria do Ser, não conseguiu pensar a diferença e a singularidade da pessoa. Tal valorização exacerbada da razão totalizante provocou o esquecimento da ética na compreensão do ser. A guerra Ontológica destruiu a exterioridade, negando o Outro como Outro, reduzindo-o dentro de uma perspectiva da mesmidade.


A crítica de Lévinas à ontologia ressalta a importância de reconhecer a singularidade e a diferença do outro. Ele nos leva a reconhecer que é na relação com o outro que encontramos o sentido do ser, especialmente quando nos confrontamos com o rosto do outro, que nos impele a agir éticamente.


Sua proposta ética prioriza a relação com o Outro, mantendo sua irredutibilidade, evitando qualquer tentativa de manipulação ou de reduzi-lo a uma coisa. Ele descreve essa atitude como uma relação face a face, na qual a Subjetividade se confronta com o Rosto do Outro, reconhecendo sua Infinitude e transcendência, assumindo a responsabilidade por ele, cujo rosto impõe o apelo: “Não matarás!” Este apelo desafia qualquer tentativa de totalização. Ser para o outro significa responsabilizar-se por ele, permitindo ao eu superar o rumor anônimo e sem sentido do ser.


Em seu livro “Da Existência ao Existente”, Lévinas aprofunda a questão do sentido, destacando o conceito de “il y a”, que representa a existência impessoal e o vazio existencial. Ele argumenta que a saída desse vazio não está na atribuição de significados aos entes do mundo, mas sim no compromisso ético com o Outro. Este compromisso transforma a condição humana de ser para a morte, como entendia Heidegger, em ser para o Outro, marcando uma transição do “il y a” para a responsabilidade ética. Sair do “il y a” implica sair do vazio e colocar-se para o Outro, abandonando a condição impessoal, escapando da imanência do ser. Este movimento ético rompe com a clausura do vazio existencial ao relacionar a questão do sentido com o transcendente.


Assim, a ética da alteridade nos convida a abandonar a condição do “há”, do vazio sem sentido, e a nos engajar com o outro de forma desinteressada e responsável. Quando nos deparamos com o Rosto do Outro, que se revela completamente a nós, de forma vulnerável e desprotegida, somos conduzidos à transcendência e ao Mistério. Somente ao nos colocarmos para o outro, transcendemos o vazio existencial e encontramos verdadeiro sentido da vida na relação com o transcendente, seja ele entendido como Deus ou Algo além do eu.

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