A responsabilidade de quem prega

João Medeiros Filho
Padre
Há dias, alguns amigos comentavam o estilo, a duração e qualidade das pregações. Isto levou-me a pensar e escrever sobre o assunto. Diziam que a tendência ao uso coloquial ou informal em público tem levado à vulgaridade. Expressões e cacoetes são ouvidos em homilias. Até gírias se escutam nos altares: “Tou na parada de Jesus, Ele é massa, Cristo tá na área, vamos surfar na onda do Evangelho etc.” Deus entende as diversas modalidades e os tipos de linguagem de seus filhos. “Mas, para se falar das coisas divinas e sagradas, há necessidade de vulgarizar os termos?” Questionavam os amigos. Isso faz-me recordar meus tempos de Seminário de Caicó e Mossoró, devia-se falar e escrever corretamente o vernáculo, assim como estudar com afinco latim, grego e outras línguas.
O rigor do estudo do idioma pátrio é algo que sempre agradeço. Nossos docentes corrigiam-nos paternalmente, ao nos ouvir falar errado, perguntando se não amávamos a nossa língua. Não era permitido usar galicismos e barbarismos. Nossos formadores eram padres lazaristas, alguns deles doutores pelas Universidades de Utrecht e Sorbonne. Assim foi Padre Francisco Janssen, saído de Mossoró para se tornar bispo de Gimma, na Etiópia. Dessa época, brotou em mim uma resistência ao uso de termos estrangeiros. Atualmente muitas palavras já estão dicionarizadas e usadas frequentemente. Um exemplo é o vocábulo constatar, cujo correspondente em nosso idioma é verificar ou comprovar.
No meu curso ginasial, a língua portuguesa era ensinada por sacerdotes holandeses, os quais conheciam melhor o vernáculo do que muitos brasileiros. Outro deslize gramatical que não se perdoava: a colocação errada dos pronomes oblíquos. Devia-se usar corretamente próclise, ênclise e mesóclise (tmese). Por conta dessa formação, confesso que sinto certo desconforto, quando escuto pronunciamentos oficiais e homilias que ferem a norma culta da língua. Não estou defendendo uma linguagem gongórica, rebuscada, totalmente insólita, à moda dos professores Praxedes e Astromar das telenovelas.
Seria oportuno lembrar aos pregadores que a palavra, além de correta, deve ser clara e agradável, densa e portadora de mensagem. “É a Palavra de Deus, por isso deve ser apresentada com elegância, respeito, pureza e jamais banalizada”, acrescentaram os citados amigos, leigos zelosos que nos escutam e seguem. Poder-se-ia citar vários exemplos de beleza literária e profundidade teológica. Entre tantos escritores e pregadores da antiguidade, cabe destacar Santo Ambrósio, bispo de Milão, sob cujo verbo a graça de Deus tocou o coração do jovem Agostinho.
No torrão potiguar, muitos tiveram ocasião de ouvir oradores brilhantes, que os arrebatavam com sua eloquência, sem abusar da paciência dos ouvintes e se tornarem inacessíveis. Memoráveis são os belíssimos sermões e palestras de Dom Portocarrero Costa, segundo bispo de Mossoró. Emocionante era o panegírico da “Procissão do Encontro”, proferido pelo então Cônego Nivaldo Monte. Contrito e com profundidade aquecia as almas, quando o sol da Ribeira queimava a pele. São inesquecíveis as pregações – verdadeiras peças literárias – dos Padres Luiz Wanderley, Ulysses Maranhão e Bianor Aranha, ecoando nas naves da antiga catedral. “A riqueza de Deus necessita ser revestida da beleza da palavra”, dizia o eminente orador sacro Bossuet. Deixou marcas e saudades a retórica de Dom José Delgado, Monsenhor Walfredo, Padre Monteiro e tantos renomados presbíteros, que pisaram o solo norte-rio-grandense. Dom José Pereira Alves, terceiro bispo de Natal, arrancava palmas dos fiéis, após pregar, quando não se costumava aplaudir nas missas ou cerimônias litúrgicas.
Hoje, durante as homilias, veem-se muitos manuseando smartphones. Não para gravar o que se diz, mas para sentir o tempo passar mais rápido. As homilias devem se revestir de linguagem correta, clara, objetiva e sucinta. Dom Alberto Houssiau, bispo emérito de Liège (Bélgica), quando nosso professor de homilética, recomendava: “Se falardes de dez a quinze minutos, muitos ouvirão; mais de quinze, tereis os bancos como auditório. Se pregardes além de vinte minutos, só o demônio escutará, insuflando os fiéis à maledicência.” A pregação é instrumento da Palavra Divina, caminho para acender luzes e iluminar a escuridão com o Verbo de Deus. Não se pode esquecer o ensinamento do Salmista: “Lâmpada para os meus pés é a tua palavra, e luz para as minhas veredas” (Sl 119/118, 105).
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